Educação – a boniteza do ensinar e aprender

Ensinar é um exercício de imortalidade, diz Rubens Alves.  “De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra”. Afirmativa confirmada pelas crianças que, embevecidas, veem na professora (sim, porque são imensa maioria na profissão), infinitas possibilidades.

Mais do que alguém que transmite conteúdos, educadores/as estabelecem relações, exercitam lideranças profissionais, sociais, políticas.  A relação professor/a e criança, para além da proximidade das datas comemoradas em outubro, se estabelece naquilo que Moacir Gadotti define como “tratado de sonhos e sentidos na perpetuação da boniteza do ensinar-e-aprender”; convivência escolar não nasce da mera execução de um currículo oficial, visto que a relação entre o cognitivo e o afetivo é o fundamento do fazer educativo.

No Brasil, conforme dados do Censo Escolar (2013) e do IBGE (2014), estão matriculados 50,54 milhões de alunos na educação básica; destes, 42,22 milhões (83,5%) estão na escola pública, que possui mais de 3 milhões de professores. Pesquisas mostram ainda que ser professor/a traz realizações pessoais; contudo, a desvalorização da educação e daqueles/as que nela atuam, as condições de trabalho, o número de alunos por classe, os salários não dignos e as exigências cada vez mais complexas desestimulam a escolha da profissão.

O Plano Nacional de Educação (PNE) trouxe elementos novos e importantes para a educação brasileira. A feitura do Plano teve contribuições fundamentais das entidades ligadas à educação, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) e a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam). Durante o processo de debates no Congresso Nacional ocorreram embates acalorados, expressão da disputa entre conservadores e progressistas.

As principais divergências apareceram em financiamento e destinação dos recursos e na questão de gênero. Esta última se estendeu para os debates dos Planos Estaduais e Municipais de Educação.  Parlamentares retrógrados retiraram do texto o que inicialmente também seriam diretrizes do Plano: gênero e orientação sexual. O argumento: estes temas não devem ser tratados pela escola; são prerrogativas familiares.

Porém, são temas sociais e culturais. Segundo dados do Ipea, 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil. Destas, 89% são mulheres e 70% são crianças e adolescentes. Como a educação ignora isso e não aborda questões de gênero na escola?

Professores/as jamais se propuseram a desempenhar o papel da família; ao contrário, sempre destacam as responsabilidades dos pais e/ou responsáveis. A integração família-escola é que torna possível uma educação emancipadora. Grandes mestres como Paulo Freire e seus discípulos apontam que a tarefa última do educador é a de tornar as pessoas mais livres e menos dependentes do poder econômico, político e social.

O professor é um profissional do sentido – “saber é saborear”; é também um organizador da aprendizagem, um líder, um sujeito social e político.  O processo educativo não pode ser cerceado por concepções preconceituosas, discriminadoras, que promovem a apartação e o rancor social.

A complexidade do ambiente escolar exige a consideração de todos os aspectos que permeiam as relações que ali se constroem. As crianças precisam se sentir seguras e confortáveis em suas curiosidades. Educadoras e educadores têm responsabilidade sobre seu fazer educativo. E sabem que ética tem natureza exemplar.

A escola não pode prescindir da relação dialógica professor-aluno. O diálogo é um fenômeno humano capaz de, sem imposição de crença, cultura e conceitos, levar à reflexão e mobilizar a ação de meninos e meninas.

Considerando valores universais como igualdade, respeito, diversidade, o/a professor/a torna-se o mediador das diferenças, o articulador das experiências das crianças com a família, com a escola, com a sociedade. Conduz com respeito e afetividade o diálogo que leva à reflexão, assumindo um papel humanizado e humanizador.

As referências pedagógicas e sociológicas nos apontam ser impossível considerar o professor um profissional que não está profundamente comprometido com seu fazer. Como máquina não é, carrega suas experiências pessoais, culturais e sociais.

Cercear a possibilidade de saborear e viver uma relação de proximidade, de confiança, de respeito entre professor e criança insiste na retirada do sentido do ensinar-aprender, soterrando as possibilidades de que a profissão seja valorizada, de que a escola seja digna, de que a educação tenha o compromisso ético com a autonomia emancipadora das pessoas.

A boniteza do ensinar-aprender está em construir possibilidades para que as crianças possam aprender, conviver honestamente, viver com dignidade. A pedagogia que pauta a relação entre professores e crianças é mais do que de resistência. É uma pedagogia da esperança, da possibilidade e da utopia.

Numa Escola em Havana

O filme “Numa Escola em Havana”, do cineasta cubando Ernesto Daranas, é inspirador para comemorar o Dia das Crianças e o Dia do Professor. Carmela, a professora às vésperas da aposentadoria, acolhe o menino Chala com todas as suas vivências pessoais.

Reconhece suas qualidades de líder nato e sua inteligência. Estabelece com ele uma relação de respeito, liberdade e afeto. O filme questiona as regras de conduta estabelecidas em todos os ambientes sociais que, em geral, ignoram a essência humana de cada indivíduo.

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Jacy Afonso de Melo

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