Mudanças Climáticas em Terras Indígenas: “Ver de perto para contar de certo”

O rio Moa, com suas águas escuras e convidativas, parece estar sempre plácido, mesclando-se em perfeita harmonia com suas praias adornadas de pontinhos coloridos que voam em caótica sincronia.

Esses pontinhos amarelos, verde-amarelos, azuis-claro, azuis-escuro,  que rodopiam em loucas revoadas para, em seguida, pousarem repentinamente sobre a areia, são  as borboletas que fazem a festa, enquanto se alimentam na praia recém-desvelada pela baixa das águas ferrosas do rio.

Mesmo vendo a cena passar rapidamente, enquanto a bajola, essa típica embarcação pequena utilizada nos rios do Juruá, vence a contracorrente em direção à paradisíaca fronteira entre Brasil e Peru, não tem como deixar de encantar-se com essa visão paradisíaca.

O sol ainda não atingira seu ápice, o que tornou agradável a vista do horizonte, enquanto o vento fresco e revigorante nos refrigerava e preenchia nossos pulmões com ar limpo e puro.  Um lagarto enorme e colorido esquentava-se numa praia e, mentalmente, gravei a cena para perguntar aos meus anfitriões que bicho era aquele.

Rio Moa. Foto: www.tjac.jus.br

Ao subir o rio Moa, no trajeto, mergulhei em pensamentos diversos, tentando imaginar como era esse ambiente na época da visita do padre Tastevin, em 1913. A pequena flotilha que me acompanhava criava banzeiros nas praias enquanto ziguezagueava, parecendo uma grande cobra em movimento.

Apesar das belas praias, algo chamou a atenção do piloto da minha bajola que, rapidamente, acenou para os demais enquanto diminuía a velocidade da embarcação até encalhá-la numa pequena praia. Era hora de reabastecer.

Sentado preguiçosamente na popa, aproveitei para “reabastecer” meu cachimbo, grande companheiro de muitas léguas, e indaguei para os companheiros de viagem quanto às percepções que tiveram durante a subida até aquele momento.

Todos pareciam maravilhados com a beleza do lugar, com exceção do nosso barqueiro que estava apreensivo com a demora da subida ocasionada pela vazante do rio, que dificultava o avanço: a estiagem tá muito forte, se continuar assim vai ficar bem complicado subir o rio daqui a alguns dias. Este ano o rio baixou muito – Comentou com ar grave.

Nosso destino era a Terra Indígena Nukini, localizada “ao pé” da Serra do Divisor. Um lugar lindo e misterioso, de clima agradável e que propicia uma feliz estadia junto à natureza, para os poucos visitantes que se aventuram em conhecer o local.

Várias horas depois avistei ao longe, despontando no horizonte, uma grande antena de comunicação e, assim como um desbravador, senti uma indizível alegria de estar chegando ao meu destino.

Parque Nacional da Serra do Divisor. Foto: abides.org.br

Passado o tempo, e já de volta à rotina frenética que nos acorrenta às engrenagens desta máquina chamada cidade, repassando minhas anotações e relembrando tão aprazível aventura que vivi no alto rio Moa, observo a sequidão que assola as plantinhas do meu jardim, e me ocorre que esqueci de aguá-las no dia anterior.

Lembrei, então, de notícias do “verão” passado, quando a secura castigou o Acre, chegando ao ponto do prefeito da capital decretar situação de alerta, devido à seca histórica que aflige o combalido Rio Acre, tão maltratado e com as margens presas numa cinta de concreto.

Isso me fez lembrar de um excelente estudo sobre as mudanças climáticas sob o olhar das populações da floresta. Rapidamente, busquei-o em meus arquivos e o reli. Impossível não fazer automaticamente um link entre este maravilhoso estudo e o que venho observando, principalmente nos últimos anos.

Trata-se da Tese de Doutorado de autoria da antropóloga Érika Mesquita, de título “Ver de perto pra contar de certo. As mudanças climáticas sob os olhares das florestas do Alto Juruá” (2012, disponível na internet), onde somos apresentados a uma leitura da mudanças climáticas sob a ótica de indígenas Ashaninka e Huni Kuin, e de ribeirinhos e extrativistas, moradores do Alto Juruá, e que se encontram inseridos num meio ambiente totalmente interligado com natureza. Essa ecologia – ou “antropologia do clima”, como propõe a autora – põe em perspectiva as transformações e mudanças que são observadas e vividas por estes povos, dentro de uma lógica bem mais ampla, que mostra a intrínseca ligação do ser humano com a natureza e as “ciências” de cada estação do ano. A leitura desta pesquisa me deixou pensativo e um tanto apreensivo. Não tanto pelo conteúdo em si, mas, pelo contexto que este aborda.

Enquanto os chamados cientistas se acotovelam e divergem sobre números e dados sobre o tal efeito estufa, os indígenas nos mostram uma leitura bem mais simples e mais profunda da situação. Os pajés constantemente nos alertam que os espíritos, os encantos da natureza, estão nos abandonando, pois a cada dia está menor a nossa ligação com eles.

Crianças indígenas. Foto: naofrackingbrasil.com.br

Hoje em dia, em nosso mundo citadino moderno, cercado de artificialidades, concreto e especialistas em todos os assuntos, esse papo pode até parecer sandice, mas não é. Basta lembrar que a base de nossa civilização e de nossas crenças foi erguida sobre alicerces espirituais e naturais que sempre interagiram em perfeita sintonia.

Só que, conforme avançamos no tempo, fomos cada vez mais impelidos a cenários artificiais e moldáveis. Assim, nossa ligação com este mundo natural vem diminuindo e por isso, a cada geração, vê-se a natureza somente como algo a ser explorado até o ultimo recurso.

Assim, para mim, não é estranho, nem devaneio quando ouço ou leio os alertas que os velhos pajés e os grandes líderes indígenas nos fazem.

Em 2014 uma forte tromba d´água, que parecia ter saído dos confins da floresta inexplorada do rio Gregório, atingiu em cheio a Terra Indígena lá localizada, deixando um rastro de destruição e desolação nas aldeias do povo Yawanawá.

Foi uma enchente totalmente fora de época, antecipando em quase quatro meses o ciclo normal das águas deste rio. Estivemos presentes lá quando isso aconteceu e, realmente, apesar de achar que já vi de quase tudo um pouco, fiquei perplexo com tamanha destruição.

Lideranças indígenas. Foto:topsy.fr

O líder Biraci Brasil Yawanawá resumiu bem a situação em uma entrevista para o jornalista Leandro Altherman:

Nem mesmo o pajé Yawarani, de 102 anos havia visto algo assim. Foi como se tivesse passado um ser humano cheio de ódio, revolta e vingança…

Este é um novo tempo. Estamos reunidos para repensar e readequar nossa relação entre homem e natureza. É um novo tempo e precisamos nos enquadrar. O homem está vivendo seu mundo e não está olhando a mudança, a exigência e a cobrança que a natureza nos pede. Não estamos respeitando.

Para a nossa família Yawanawá, essa avalanche de água é uma lição para readequar nossos tempos, uma reconstrução de nossa relação com a natureza, para nos curvar diante deste grande saber, desta grande força que é a natureza. O mundo sente isso, mas nunca se curva. Nós recebemos esse recado da natureza, com dignidade e gratidão”.

Infelizmente, o “mundo” ainda continua a permanecer arrogantemente ereto, ou se comportando como a “cobra grande que quer engolir todo mundo” como bem alerta o grande líder Davi Kopenawa Yanomami.

Sucuri no rio Moa. Foto: tribunadojurua.com.br

O processo de observação da natureza e suas transformações é algo pouco comum hoje em dia, onde nossa visão está basicamente condicionada a observações de telas diversas: de computador, do celular, da TV. Assim não sentimos tanto ou até mesmo não entendemos muito o que se tem passado, pois somos bombardeados com informações incompreensíveis e cheias de números e dados que, por vezes, não fazem sentido. Para cada informação que recebemos, sempre há alguém contraditando.

Mas de uma coisa todos parecem concordar: excesso de emissão de carbono na atmosfera. Ou seja, a culpa é do carbono, inimigo imperdoável, mais sinistro que Sauron e mais mortal que a mais terrível quimera, pelo menos, aos olhos dos cientistas.

Acreditem, já posso até imaginar o tórrido calor que fará nos meses de setembro e outubro aqui no Aquiry, onde as cigarras espocam-se de tanto cantar e o céu torna-se cinza durante o dia, e nos mostra uma luz vermelha durante a noite, resultado do acúmulo de fumaça das queimadas que nossos governantes juram que estão sendo combatidas e que, a cada ano, diminuem paralelamente à redução dos desmatamentos.

Já visualizo, inclusive, as postagens nas redes sociais, de termômetros mostrando picos altíssimos de calor nas cidades, ou até mesmo, memes com piadas – para mim de péssimo gosto – sobre como no Acre faz calor. Confesso que não consigo entender, e até mesmo acho pueril, este costume de troçar de situações como esta, sob a falsa sensatez de que “é melhor rir do que chorar desta situação”. Discordo totalmente.

Rio Gregório. Foto: Sérgio Vale

Por enquanto, ainda é possível para as populações das cidades ludibriarem estas más sensações e as tribulações que se apresentam. Basta ligar o ar condicionado, ir ao mercado comprar produtos carregados de químicas e refrescar-se em águas artificiais e altamente clorificadas das piscinas de suas casas ou de clubes.

Quanto à natureza, muitos se contentam somente em olhá-la, com desdém, pelas janelas gradeadas de suas moradias. Nem tomam conhecimento ou nem lembram em que estação do ano se encontram no momento. Isso mostra o tão artificial em que se tornou este mundo citadino, essa selva de pedras. Mas fica a questão: e quando não for mais possível isolar-se neste mundo artificial?

Nos jornais, e nas mais diversas mídias de comunicação, vemos proliferar as vozes dos que buscam alertar para a necessidade de se ter mais consciência ambiental; mais prudência, menos consumo e por uma vida mais natural. Infelizmente, ao contrário daqueles que insistem em nos evangelizar aos gritos nas praças e pontos de ônibus, a adesão e o apoio a estas causas ambientais, ainda são pífios por parte das autoridades e da população geral.

A impressão que temos é que o cuidado com o meio ambiente não é regra, é excentricidade de uns poucos, entre estes os indígenas.

Por isso, esse tema tão bem abordado pela antropóloga Érika é importante e cativante, trazendo para a “roda” de estudiosos e militantes mais um reforço, com informações que pouco se conhece fora das comunidades florestais que vivem em contato constante com a natureza, e que percebem suas transformações dia-a-dia, ano a ano, a partir das observações ao longo de gerações.

Nas comunidades indígenas assuntos como este permeiam as rodas de conversa, de rapé e de cipó, extrapolando, como bem descrito pela Érika, o espaço “físico temporal” e propiciando, comumente, reflexões sobre a relação humana com a natureza: como os “sinais” estão indicando mudanças drásticas no equilíbrio natural das coisas, o que influi no ciclo das águas, na dinâmica dos animais e nos “tempos” da floresta. Sinal que os “encantes*” estão se distanciando.

Para essas populações, que dependem da natureza em seu estado natural e equilibrado, as mudanças bruscas que vem ocorrendo tem um significado muito mais amplo, pois liga-se intrinsecamente à sua própria existência. Por isso, como aponta o estudo, é preciso ter “um comportamento respeitoso, uma etiqueta” neste relacionamento.

Sei que é bastante difícil para a maioria entender sobre o que estou escrevendo, parece coisa de atoleimado, mas, para aqueles que mantem um contato com a natureza ou com seus povos, principalmente os indígenas, o que escrevo está em perfeita sintonia com a “verdadeira realidade”.

Não estou defendendo a negação ou o desprezo pelo que a ciência e seus representantes vêm nos mostrando. Vejo, sim, que precisamos olhar mais ao nosso redor, buscarmos mais harmonia com este mundo, aprendermos mais com estes povos indígenas e outros que muito tem a nos ensinar. É preciso olhar sempre a realidade através de diferentes perspectivas, e como nos ensina Jiddu Krishnamurti, devemos estudar profundamente as leis ocultas da natureza e quando a conhecermos bem, devemos moldar nossas vidas a elas, usando sempre a razão e o bom senso.

Afinal, quanta quentura será que poderemos aguentar, antes que o solo ressecado e os leitos secos dos rios finalmente acordem nossos líderes políticos para a triste realidade que se apresenta? Para que entendam que flexibilizar leis ambientais ou destruir os habitats dos povos tradicionais nada mais é que atentar contra sua própria existência?

Aqui no Acre somos banhados pela maior bacia hidrográfica do mundo, no entanto, até aqui, a sequidão vem assolando cada vez mais. E, para surpresa geral, não vemos políticas ou ações efetivas de proteção às nascentes ou aos mananciais dos nossos rios e igarapés.

É preciso mudar. É preciso transformar. É preciso acordar.

Fecho os olhos e rememoro os dias aprazíveis e cheios de encantos de minha visita à terra do bravo povo Nukini, ao pé da Serra do Divisor. Sinto o frescor da noite, a brisa impregnada da fragrância misteriosa exalada pela floresta. O som dos animais noturnos é uma sinfonia agradável e prazerosa que embala nosso sono, onde os “encantes” da floresta se apresentam e nos conduzem em sonhos cheios de símbolos e significados ocultos.

Criança indígena. Foto: Tashka Pehajo Yawanawa

ANOTE AÍ! 

 

 

Jairo Lima – indigenista acreano gentilmente cede seus relatos, publicados regulamente em seu blog cronicasindigenistas.blogspot.com.br para publicação também aqui na Xapuri. Gratidão, Jairo.

* Encantes – é como as populações extrativistas designam os “encantos”, ou “gênios da natureza