Ataques ao Sagrado Indígena: visitando uma galeria de obras bizarras e surreais –

Por: Jairo Lima

“Oi, tudo bem? Você está sumido! Não está mais escrevendo?”

Essa mensagem, enviada por uma querida amiga, brilhou na telinha impessoal do meu celular, trazida pelo primo da atual tecnologia de comunicação, cuja alcunha tomou o intimismo típico para as pessoas, como se este já fizesse parte da família: zapzap.

Essa ‘cutucada’ somou-se a outras que venho recebendo ao longo dos quase dois meses de meu silêncio e ‘ausência social’, tanto literária quanto física. Por que?  Não sei precisar ao certo ou, talvez, até poderia se a isso me quedasse o pouco de interesse que me move para justificativas daquilo que, a priori se passa despercebido até para mim mesmo.

Muitas labutas e projetos me moveram em diferentes direções neste período, ao passo em que, tal qual um caçador de embiaras*, exercitei a paciência e a observação para os pequenos detalhes que movem nossa combalida e, por vezes – na verdade, muitas vezes – neurótica sociedade.

Aqui pras bandas do Juruá, enquanto a estação cambiava do calor tórrido para o refrigério gostoso das chuvas, os ‘ventos’ que sopravam, vindo de longe, não traziam nenhum conforto ou energias benignas, dado os ânimos e as querelas cada vez mais sérias que se desenrolavam nos palcos das vaidades e falsas virtudes humanas: redes sociais.

Olhando o horizonte, muitas vezes me senti pequenino e acuado diante de algo que não sabia se era grande, pequeno ou irrelevante.

Mas, o que de tão diferente, emocionante, revelador ou mágico ocorreu nestes tensos dois meses, que valesse a pena ser discorrido? – Bem… não muito, mas, também, não tão irrisório que não puxasse minha atenção e de alguns conhecidos.

Foram um pouco de ‘mais do mesmo’, no entanto, com pinceladas bizarras e surreais que, somadas ao perfume apocalíptico que envolveu as narinas sociais e políticas da Pindorama, pintaram de um tom berrante um triste quadro de maluquices ‘bicho-grilo-do-mal’ que, até então, eu supunha não ser possível.

Entre estas ‘obras’ berrantes me deparei, por exemplo, com imagens e informações de uma clínica na gringolândia, que aplica o kambô e que oferecia até uma espécie de cartão fidelidade aos clientes. Muito doido.

Nas imagens que tive acesso (e que não eram a tal da fake news) vi pessoas sentadas em colchonetes, uma ao lado das outras, em uma espécie de quarto, com baldes transparentes e outros acessórios de limpeza à frente de cada um. Vi também paletas de kambô, para venda, caixinhas com desenhos de um sapinho verde e demais informações típicas de um spa.

De tão bizarra a coisa fui atrás de mais informações, no intuito de confirmar se realmente aquilo seria possível, principalmente assim tão descarado e refinado, como se o ‘serviço’ oferecido fosse de algum tratamento usual e conhecido como estes que estão em moda no momento, com estes pseudo-xamãs ou, como também está em moda: terapeuta espiritual.

Foto: Elo

Busquei informações e, para minha tristeza e surpresa, vi que um dos parceiros dessa birosca – a tal da clínica – andou muito aqui por estas bandas. Sua foto de perfil no Facebook, de carinha pintada, peninha de gavião, sorriso amarelo e cara de quem está doido para ir embora,  – aquelas típicas dos visitantes que buscam estas pradarias aqui só para se dar bem – aliadas a outras onde aparece apertando mão dos txais, ou concentrado aos pés de uma samaúma -poses estas que eu acho ser de uma falsidade ridícula, já que momentos verdadeiros de concentração e intimismo com a natureza e o espírito em geral não são retratadas em poses forçadas, como se a figura acabasse de voltar do nirvana, sem se importar com os zilhões de piuns** que, certamente, estariam sugando o sangue dele naquele exato momento – deixava claro, ao menos para mim, ser este mais um dos arautos do sistema predador e facínora do lado obscuro do circuito das chamadas ‘medicinas alternativas’, ministradas por falsários e pilantras que se dizem terapeutas, xamãs, iniciados ou outras bobagens do tipo.

Não entrarei aqui no mérito de refletir sobre o perigo e a insensatez de se usar o kambô sem cuidados espirituais e físicos, nem sobre as mortes já causadas pelo seu uso indiscriminado, nem mesmo pela estupidez daqueles que lucram com isso, afinal, sobre estes pontos já discorri várias vezes – e certamente abordarei no futuro – mas, o que me chama a atenção é o descaramento com que isso vem ocorrendo. Para mim é algo revoltante.

Outras ‘obras’ bizarras também enfeitaram as paredes da galeria surreal de presepadas que andei observando, como a saga capitalista tomando conta até das rezas dos txais, algo que pela sua natureza mística e caridosa pressupõe ser isto um ato de entrega, está, por intermédio de alguns interesseiros, se tornando um objeto de negociação financeira, como um produto que se compra ou um serviço que se contrata.

Vejam, não estou aqui me referindo aos rituais, vivências ou atendimentos/tratamentos que, por vezes, e de maneira justa, os txais curadores realizam. Tô falando é do assopro mesmo, da reza, do passe e, muitas vezes, de uma simples ‘soprada de rapé’… rapaz… para tudo tem limite, né? Pior: nem são os verdadeiros curadores que cobram por isso, são, como já citei, os ‘empresários’ destes. Acho isso errado, ponto. Não vejo justificativas para isso.

Já pensou? Chegar num txai, numa visita quando este está em algum centro de cura na cidade, somente para conhecê-lo e receber um assopro e, logo em seguida ser assediado por um zé-groselha branco para pagar este assopro? Ridículo. E nem vou refletir ou cutucar o vespeiro ao citar que pagar por um copo de ayahuasca é algo horrível e totalmente desaconselhável. Deixo essa briga pra depois.

Ainda nessa galeria bizarra vi gente tentando se passar por indígena, obviamente por um pajé, tentando se dar bem lá pelas bandas do ‘sul maravilha’ onde, não sei porque, charlatões desse tipo gostam de ir e, de maneira geral, se dão muito bem, ganhando muito dinheiro e, não raro, ‘se dando bem’ (acho que me me entenderam).

Botam um cocar, pintam alguma bobagem sem significado nenhum nas fuças, aprendem a cantar alguma música tradicional de algum povo indígena daqui, juntam isso a um punhado de canções que misturam Virgem Maria com Rainha da Floresta, Jesus com boto, algumas palavras indígenas e voilá, estão prontos para enganar e ludibriar a galera que, por não fazer ideia como são os povos indígenas daqui, facilmente caem na rede.

Esses charlatões ainda buscam consolidar-se como fornecedor de produtos como ayahuasca, kambô, sananga e rapé, ganhando clientes num mercado em franca expansão.

Como combater isso? Com informação! Buscando referenciais e informações sobre esses que se apresentam por aí e que se dizem pajés ou, pior, que receberam os ensinos ou herdaram de algum grande pajé daqui seus conhecimentos (coisa mais idiota essa, mas que, acreditem, tem gente que diz isso).

Que doido, gente, que doido… E essa foi só uma amostra das ‘obras’ que andei observando nestes tempos de sumiço.

No mais… bem… no mais, o balseiro*** de sempre… com os ânimos nacionais em combustão e os povos indígenas sempre na mira dos interesses e desinteresses dos que dominam as rédeas do poder. Triste, mas, acredito não é algo imutável.

É isso, tô de volta…

Atendi a mensagem da amiga, à qual me referi no começo do texto, e aceitei um ótimo jantar em companhia de sua família onde, entre reflexões e muito papo, descobrimos que essa nossa sociedade nawa****maluca, assim como os pés-de-galinha que ela diz ter, estão precisando de um botox, para ver se ao menos um sentimento de juventude e

 

ANOTE AÍ:

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

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NOTAS DO AUTOR

* Embiara – caça pequena;

** Piun – Espécie de borrachudo, um inseto infernal que habita a floresta;

*** Balseiro – excesso de obstáculos em um rio, formado geralmente por pedaços de madeira durante as enchentes;

**** Nawa – Não-índio.

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