Chico Mendes: Defensor de tudo o que era essencial para a vida da floresta e dos povos da floresta

Por Arquilau de Castro Melo 

A história do Acre e da Amazônia não está dissociada do Brasil e do mundo. Por volta do século XIX chegaram os primeiros colonizadores em busca de ervas, de produtos exóticos para a Europa, especialmente para a Inglaterra, na época o centro do mundo.

Os aventureiros e pesquisadores também andaram por aqui. Enquanto Darwin estava em Galápagos, William Chandless pesquisava os nossos rios. Ele navegava acompanhado de índios pelos rios Purus e Juruá, em busca de informações sobre a geografia, os povos, a fauna, a flora. Um cientista colhendo informações sobre esse novo mundo que era a Amazônia, para levá-los a outros mundos. 

A seringa já era há muito conhecida dos índios. Eles a utilizavam como bola, como elástico. Na Europa, a primeira utilidade da borracha foi apagar escritos. Depois, a borracha teve importância relevante na II Revolução Industrial, principalmente com o automóvel. Antes da borracha, as rodas dos automóveis eram de ferro. 

Goodyear, um cientista americano, conseguiu trabalhar o processo de vulcanização que deixava a borracha mais resistente. Com esse processo ele conseguia retirar a água da borracha tornando-a mais forte. Nesse momento se descobre a utilidade da borracha para essa nova indústria que estava nascendo. A Amazônia se apresentava como a porta da esperança para ganhar dinheiro e sair da situação de atraso.

Então, a Bolívia percebe que a Amazônia estava crescendo, que a borracha que saía daqui era como se fosse o petróleo de hoje. A Bolívia conclui ser dona dessas terras de produção da borracha e faz um protesto contra a presença de nordestinos em terras bolivianas. 

O Brasil reconhece que está diante de uma ocupação indevida de cearenses e nordestinos em terras da Bolívia. Então, foi feito um pacto de fiscalização e de devolução das terras bolivianas. Em 1889, a Bolívia passa a taxar a borracha que descia pelo rio Acre, que começa a chegar mais cara em Manaus, no Amazonas. 

O governo do Amazonas, interessado em voltar a ter borracha barata, em reduzir as sobretaxas do produto, passou a financiar revolucionários para tomar o Acre da Bolívia. Chega Plácido de Castro, que termina por reconquistar as terras para o Brasil.

Os pesquisadores ingleses que andavam por aqui se interessaram pela borracha e buscaram meios para produzi-la fora do Brasil, e mais perto da Inglaterra, onde pudessem ter o controle da produção dessa matéria prima. Eles levaram a semente da seringueira para o Jardim Botânico de Londres e começaram a fazer a fazer experimentos.

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Os brasileiros dizem que as sementes foram roubadas e levadas às escondidas, mas existem documentos que mostram que o Brasil foi convidado para fazer parte dessa experiência em Londres e os brasileiros acharam que era bobagem e riram desse interesse dos ingleses, que acabaram desenvolvendo uma seringueira resistente a muitas pragas.

Os ingleses então transportaram mudas para a Malásia e suas outras colônias na Ásia e, pouco tempo depois, em menos de 20 anos, eles estavam colocando a borracha asiática no mercado. Uma borracha de alta qualidade, colhida com eficiência, de forma racional. Com isso arrebentaram com a borracha brasileira, trouxeram os preços a níveis muito baixos e dominaram o mercado internacional.

A Amazônia sentiu muito, houve uma grande debandada; muita gente foi embora e muitos seringais foram desativados. Assim se encerra o primeiro ciclo de borracha.

O Brasil só veio a ressurgir como um importante produtor de borracha em 1942, com a Segunda Guerra Mundial, quando os japoneses, com uma das primeiras providências de guerra, tomaram dos ingleses as plantações de borracha da Malásia e de Cingapura, para sustentar Hitler e a Guerra do Eixo.

Os americanos, para contrapor a falta de borracha asiática na guerra, decidiram retomar a produção no Acre e na Amazônia. A borracha, antes totalmente suprimida do mercado, retorna com força. Os americanos passam a apoiar o governo brasileiro para que o Brasil volte a produzir borracha. Depois do fim da Segunda Guerra, caímos de novo no buraco.

Na década de 70, o Governo Federal, com o ufanismo da ditadura do Pra Frente Brasil, Ame-o ou Deixe-o, resolve investir na Amazônia e libera as fronteiras da região para o capital nacional. Começa novamente a vinda de imigrantes, agora não mais para produzir borracha, mas para implantar a pecuária, e isso entra em choque com os seringueiros que não tinham como e não queriam sair da floresta.

Para eles, se era difícil a vida nos seringais, pelo menos ali eles podiam sobreviver da caça, da pesca, da extração da seringa, da coleta da castanha, enfim, ali eles tinham uma vida muito difícil, mas feliz. Em seguida, os que chegaram do sul do país começaram a derrubar as matas e, ao acabar com a floresta, acabam com as árvores-mãe dos seringueiros, que são as castanheiras e as seringueiras, árvores que sustentam a família do seringueiro o ano inteiro.

A primeira preocupação de Chico Mendes era com essas árvores, porque no inverno o seringueiro colhe castanha e no verão corta seringa. Os paulistas chegavam sem conhecimento dessa cultura e iam logo botando fogo na mata, começavam por queimar a casa do seringueiro para jogá-lo pra fora. 

Foi nesse momento dramático da história do Acre, na década de 70, que começou a existir a resistência desse povo. Muita gente morrendo, muita gente vindo para as cidades morar em casebres, isso deixou todo mundo perplexo, porque o seringalista nunca teve interesse na posse do seringueiro, ele só queria a borracha produzida, agora os paulistas queriam passar o fogo em tudo, para acabar com a posse do seringueiro, para acabar com a mata e expandir a pecuária. Aí a sociedade se dividiu entre sulistas e acreanos.

É nessa conjuntura que a Igreja Católica e Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) dão total apoio aos sindicatos, permitindo ao Chico Mendes defender a posse, a família e a vida dos seringueiros. Ao fazer essa defesa, Chico Mendes começou a defender a própria floresta, porque ele entendeu que dentro da floresta estava a caça, a pesca, a seringueira, a castanheira, tudo o que era essencial para a vida dos seringueiros. 

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Hoje dá tristeza andar pela estrada de Xapuri, aí compreendemos a frustração de Chico Mendes, que passava nessa estrada todo dia. Uma estrada vazia, sem gente. Cadê os seringueiros? Onde eles estão? Estão escondidos por detrás das fazendas, fazendo longos desvios, porque não podem passar pelas fazendas, que mantém suas porteiras fechadas; os seringueiros já não podem sair direto da floresta para a estrada.

Vi o Chico pela última vez 20 dias antes do assassinato dele, na casa do Juiz Adair Longuini, que depois veio a o julgamento dos seus assassinos. Ele chegou e me disse que não ia sobreviver por muito tempo, que estava muito exposto porque a polícia não lhe estava dando uma segurança eficiente, que aquela segurança oferecida pelo Estado não servia para nada. Ele disse que tinha certeza de que ia ser assassinado. Ele disse: “Eles vão me pegar a qualquer hora.” 

Eu me senti completamente impotente, porque como representantes do Estado, só podíamos oferecer aquela segurança pra ele. Ali ele me disse que não ia recuar, porque precisava pensar primeiro na luta e nos companheiros. 

Essa é a lembrança mais forte que eu tenho do Chico – a de uma pessoa que estava sempre defendendo seus companheiros. Ele estava sempre junto e nunca destoava do seu grupo de amigos. Estava sendo muito afinado com a base dele. Ele nunca chegava a uma reunião sem antes acertar os pontos com o pessoal dele.  Quando o Chico vinha para as reuniões em Rio Branco ou em qualquer outro lugar, seja para as assembleias do Partido, seja do Sindicato, ele sempre falava a linguagem de seus companheiros, e eles a linguagem dele.

Ouvindo os seringueiros, era a voz dos seringueiros dita por ele. É por isso que essa luta ficou tão forte e que é tão sentida a falta do Chico Mendes. 


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