Chico Mendes Herói do Brasil 

Luiz Inácio Lula da Silva

Chico talvez nem soubesse o que queria dizer ecologia e muito menos holocausto ecológico quando começou sua romaria pela floresta, para organizar a peãozada dos seringueiros. Primeiro, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, mais tarde, para criar o PT.

Nessas caminhadas pela mata, ele acabou juntando numa bandeira só a luta ecológica, a luta sindical e a luta partidária, porque sabia que elas são indissociáveis: uma alimenta a outra no mesmo ciclo da vida na floresta. E, feito inimaginável naquele tempo, para defender as mesmas lutas, sob a mesma bandeira, Chico liderou a união de índios, riberinhos e seringueiros na grande Aliança dos Povos da Floresta.

Quando estive em Xapuri, no Acre, para ajudar na campanha do Chico a prefeito, em 1985, a barra já estava pesando. Os fazendeiros do centro-sul do Brasil, que tinham invadido a região, não escondiam de ninguém que ele estava marcado para morrer. Logo o Chico, que foi um dos mais apaixonados defensores da vida que já conheci, homem tão puro e tão limpo como a água da chuva da mata, que foi sua companheira inseparável.

É em memória de todos os companheiros e companheiras que, como o Chico, tombaram em defesa da terra, da floresta e da vida, que seguimos lutando paras implantar no Brasil as políticas públicas sonhadas por ele. Políticas públicas voltadas para a construção de um modelo de desenvolvimento capaz de gerar riquezas para o País e para os povos da floresta e, ao mesmo tempo, de preservar a nossa Amazônia para as gerações presentes e futuras.

Lá num cantinho do céu, Chico hoje deve estar feliz por saber que, nesses últimos 33 anos, nem nós esmorecemos, nem seu trabalho deixou de ser multiplicado por nosso Brasil afora. Nós hoje temos um Acre melhor, uma Amazônia melhor e um Brasil melhor. Como companheiro, celebro as vitórias alcançadas por todos nós a partir dos empates de Xapuri. Como brasileiro, celebro Chico Mendes, herói do Brasil, por continuar servindo de norte para a nossa luta por dias ainda melhores para todos nós e, especialmente, para os povos da Floresta.

Luiz Inácio da Silva – 35.º Presidente do Brasil (01/01/2003 – 01/01/2011). Texto cedido à jornalista Zezé Weiss para prefácio do livro “Vozes da Floresta – Biografia de Chico Mendes”, editora Xapuri, dezembro de 2008. Foto: Montagem por Wellington Almeida, da Agência Extrema, para o livro Vozes da Floresta. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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