Chico Mendes: Uma luta longe do fim

Por Leanderson Lima/Amazônia Real 

Dias de luta

“Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero Viver”, disse Chico Mendes em sua última entrevista em vida, concedida ao extinto Jornal do Brasil, que só foi publicada após a sua morte.

Em tom profético, o líder seringueiro sabia que a luta pela preservação da floresta amazônica estava longe do fim. E ela continua nos dias de hoje. Nada mais apropriado, em se tratando do desmantelamento das políticas ambientais, promovido pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PL).

“A mensagem do Chico é absolutamente necessária. Hoje nós estamos numa situação muito semelhante ao pré-assassinato do Chico (…) A situação hoje é caótica, nós temos um governo voltado a destruição, um governo genocida”, aponta o advogado Gomercindo Rodrigues, o Guma, que ressalta que o governo federal não respeita as populações tradicionais indígenas, quilombolas, ribeirinhos, seringueiros, povos da floresta, as quebradeiras de coco babaçu, os pescadores, os coletores de caranguejo, as populações que utilizam o meio ambiente de forma sustentável. “Essas populações estão sendo pressionadas de todas as formas com apoio do governo aos grandes grupos econômicos, aos assassinos, garimpeiros, as milícias, enfim (…) as ideias que Chico defendeu, que é possível usar o meio ambiente de forma sustável, são totalmente atuais.”

Julia Feitoza, do Comitê Chico Mendes, também lamenta o cenário atual. “Hoje está sendo desconstruído tudo aquilo que a gente criou. Hoje há um projeto para regularizar invasores de terras na Reserva Extrativista Chico Mendes, em vez de retirá-los. Não precisa os fazendeiros invadirem a reserva, mas eles não respeitam isso, eu acho que nós temos que continuar firmes, resistindo, tentando impedir esse tipo de ação”, opina.

Para a filha do ecologista, o Brasil de 2021 é cada vez mais parecido com o de três décadas atrás. “A gente faz essa volta ao tempo e se vê naquele período, com tantas ameaças, só que agora a gente tem algo que é muito perigoso que é a presença do estado ou ausência, dependendo do ponto de vista”, analisa.

De acordo com Ângela, o governo federal se faz presente no sentido de desconstruir políticas públicas de proteção ambiental, mas, por outro lado, se mostra ausente quando o assunto é o amparo aos povos indígenas, populações tradicionais. “O governo é muito ativo para beneficiar categorias que historicamente sempre foram opressoras dessas populações tradicionais, como são os   garimpeiros, pecuaristas, madeireiros ilegais que tem o poder neste governo”, atesta Ângela Mendes.

Em meio a um cenário de tantas incertezas com o desmantelamento de políticas ambientais no governo de Jair Bolsonaro, existe entre os ambientalistas e entre os povos tradicionais, uma certeza: nem mesmo a morte vai silenciar a voz daqueles que lutam pela floresta.

“O Chico não está morto, porque se ele estivesse morto, 33 anos depois você não ia estar me ligando para saber da história desse cara, que mudou a história de como se olha para a Amazônia. Quem atirou no Chico Mendes errou o alvo, errou o tiro. Aqueles que pensam que o mataram, na verdade o tornaram imortal”, finaliza Gomercindo Rodrigues.

Chico Mendes em 1988 (Foto: Miranda Smith/By CC 3.0)

A história de Guma, hoje com 62 anos, se cruza com a de Chico Mendes, no ano de 1986. Recém-formado em agronomia, o sul-mato-grossense mudou-se para o Acre em busca de trabalho e conheceu Chico durante os encontros de trabalhadores rurais, do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

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“Em 1986 fui ajudar a avaliar um projeto que tinha lá (em Xapuri), que era o projeto seringueiros, do sindicato, que tinha alfabetização de adultos nas escolas, e a experiência com pequenas cooperativas. As escolas iam muito bem, mas já as pequenas cooperativas que tinham sido criadas, não tinham dado certo. Me chamaram como agrônomo para eu avaliar”, lembra Gomercindo.

Depois de avaliar os projetos, o agrônomo identificou o que estava errado, apontou as necessidades de mudanças e, com isso, acabou sendo convidado por Chico a atuar em Xapuri, junto aos trabalhadores rurais, para recriar essas cooperativas. “A partir daí ficamos muito próximos”, conta. A amizade durou até o fim da vida do líder seringueiro.

Para Gomercindo, e para muitos que conviveram com Chico, ele era um homem à frente de seu tempo. “Ele conseguia ver lá na frente. É impressionante. Inclusive, depois que ele foi morto, fui pesquisar o período em que ele foi vereador em Xapuri, na Câmara, e vi que tinha registros de forma resumida nas atas, que ele já levantava questões em 1979, 1980, para falar em defesa da Amazônia. Era uma coisa assim muito distante, as pessoas não discutiam aqui essa coisa de preservação da Amazônia, isso era coisa de intelectuais, de entidades localizadas fora do Acre. Ele era um cara à frente do tempo”, descreve.

À frente de seu tempo, mas um homem de comportamento tranquilo, paciente e que adorava jogar dominó nas horas vagas. “Ele tinha respaldo porque sabia ouvir, e ele buscava aliados o tempo inteiro. Ele começou a viajar mais de 1986 até 1988, e ele sempre dizia: nós precisamos ampliar nosso leque de aliados. Ele ia para o Rio de Janeiro, São Paulo, para as universidades na USP, UFRJ. Ele conseguiu articular e juntar toda essa turma, conseguia fazer superar as divergências”, conta.

Chico tinha trânsito e conseguia dialogar de igual para igual com professores universitários, estudantes, cientistas e seringueiros analfabetos. “O Chico tinha uma coisa que poucas pessoas têm. A facilidade de compreender os diferentes, mas o que nos junta nessa diferença é uma coisa comum, que é a defesa da floresta, defesa da vida, então o Chico tinha essa facilidade dessa convivência, de juntar as pessoas, de compreender o que cada um pode fazer. Como é que alguém lá daquele seringal, que aprendeu a ler com uma pessoa que passava lá, como é que ele tem essa visão? A luta pela floresta,  de que todo mundo tem que estar junto, os seringueiros, os índios, os quebradores de coco, os negros, os quilombolas. Tem que ser alguém que está além do seu tempo, uma pessoa que não está pensando no umbigo, está pensando no futuro, eu considero o Chico essa pessoa”, descreve a militante Julia Feitoza, que conheceu Chico, nos tempos de universidade, quando ainda era acadêmica do curso de História, e que junto com ele, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), no Acre.

Chico Mendes foi assassinado na quinta-feira, 22 de dezembro de 1988, apenas sete dias após seu aniversário de 44 anos. Gomercindo esteve com ele minutos antes do crime e lembra ainda hoje de cada detalhe daquele dia. “Eu tinha estado com ele minutos antes. Dia 15 que é aniversário dele, a gente fez uma festinha, um bolo, só os amigos… foi quando ele ganhou a toalha que ele estava no ombro quando levou o tiro”, recorda.

Gomercindo conta que achou estranha a movimentação de pistoleiros na cidade de Xapuri, nas vésperas do crime. Eles, que sempre rondavam os mesmos lugares, onde jogavam sinuca e tomavam cachaça, haviam desaparecido. Guma lembra que estava angustiado nos dias que antecederam o crime.

Fonte: Excerto da Matéria Semana Chico Mendes, publicada em 15/12/2021, por Leanderson Lima/Amazônia Real.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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