Histórias de hoje e de antigamente

Antônio Macêdo

Antigamente, quando eu era criança vivendo nos seringais e aldeias do Vale do Juruá, nenhum indígena da minha região e nem eu sabia da existência de qualquer direito indígena. Os não índios da minha época chamavam os indígenas de caboclos. Os indígenas eram os temidos e perseguidos selvagens.
 
Ainda alcancei o chamado cativeiro nos seringais do Acre e ouvi muitas histórias dos mourões onde os coronéis de barranco mandavam outros trabalhadores acorrentar seringueiros.
 
Com relação aos povos indígenas, violentados desde os primeiros contatos, só se ficava sabendo das histórias tristes do sistema de escravidão e atrossidamentos sangrentos cometidos contra os indígenas.
 
A partir do tempo dos direitos, as lutas e conquistas das terras indígenas, a educação, a saúde, a formação de professores e agentes agroflorestais indígenas e as diversas alianças com muitas pessoas de muitos cantos do mundo e especialmente a resistência de muitos e sábios pajés , hoje este movimento dos povos da floresta tem e pode contar com a categoria dos txanas.
 
Os artistas indígenas que animam a cada instante os nossos trabalhos e seja aonde for, nos mariris, nas cerimônias culto-espirituais ou em contatos com encontros como este que realizou-se de 06 a 09 de janeiro de 2022. No próximo encontro grande dos povos da floresta todas as etnias vão de certo trazer delegações de Txanas de cada povo.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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