Jairo Lima: Em 2017, vamos em frente, passo a passo, pisada a pisada, remada a remada – 

Tivemos um pequeno terremoto no amanhecer de domingo, dia 18 de dezembro, aqui nas terras do Aquiry. O fenômeno, que não deixa de ter certa ironia poética,  representa bem o que foi este ano de 2016, cujo roteiro em nada perderia para as peripécias do reino caótico e disfuncional de Macbeth.

Mas 2016  também foi o ano em que iniciamos nossa jornada pelos barrancos do Acre e por novas reflexões de vida, tendo sempre como pano de fundo a cultura indígena e o trabalho em indigenismo que anima a mim e a todos que contribuíram com seus pensamentos transmutados em textos.

Conheci pessoas novas, sem conhecê-las pessoalmente, mas que, graças a essa incrível ferramenta de comunicação chamada internet, meus textos as tocaram de alguma maneira, aproximando-as e tornando-as parte do meu cotidiano, como vizinhos que, ao final da tarde, sentam-se para prosear.

Para minha surpresa, meus textos foram recebidos com interesse por muitos e, graças a isso, pude conhecer e ser reconhecido por parceiros muito legais, que ampliaram minha “voz”. Entre esses parceiros não poderia deixar de citar a Revista Xapuri (www.xapuri.info/revista), na pessoa da Zezé Weiss. Revista linda! Fiquei boquiaberto ao descobrir que as visualizações dos meus textos, nessa revista, ultrapassavam a cifra de quatorze, quinze mil, com frequência.

O blog “Crônicas Indigenistas”, que começou com meu voo solo, aproximou outros cronistas, transformando-se  num “puxadinho” de prosa indigenista e de percepções de mundo a partir da cultura indígena, rica e diversificada em vida e em ensinamentos.

A querida e preciosa amiga Dedê Maia com seus textos profundos, carregados de história e experiência; a querida e profunda Raial Orotu Puri com seus textos ricos em detalhes e explicações, sempre leves e de uma clareza espantosa, e tivemos ainda, ao apagar das luzes de 2016, o pesquisador e professor Domingos Bueno dando sua fabulosa contribuição para o nosso blog. Assim deixei de voar sozinho para ter outras pessoas voando comigo.

Tive a contribuição de outros, dando ideias, conversando sobre possíveis temas, ajudando na correção dos textos (como minha esposa Cris De Bortoli), ou dando o apoio moral, incentivando e reconhecendo nos comentários dos compartilhamentos semanais ou nos comentários do blog.

Teve ainda aqueles que ficavam aguardando as postagens de segunda, como leitura do café da manhã. Claro que as imagens, que sempre escolho com muito cuidado e carinho,  também foram reconhecidas como mais uma pérola nas postagens, porque estou sempre buscando valorizar tanto seus autores quanto a quem gosta muito de vê-las nesse  espaço.

Portanto, pessoalmente não posso dizer que este ano foi “o pior ano”, mas, certamente, para os povos indígenas não será lembrado por suas virtudes, ao contrário, para a questão indígena, apresentou-se como mais uma página da história de lutas que parece não ter fim.

Mas, refletindo melhor, esta sensação de que este ano foi tão difícil dá-se muito ao fato de que estamos vivendo-o, afinal, se olharmos os anos que se passaram, onde as grandes mudanças sociais e mundiais ocorreram, veremos que estamos somente repetindo o ciclo de transformações.

Ao passo que transmiti minhas reflexões e percepções de mundo através de meus textos, também aprendi muito e pude calibrar melhor o foco de minha visão sobre o mundo e sobre as pessoas. Recebi muitas mensagens maravilhosas de incentivo e troca de impressões. Claro que nessa caminhada tive alguns dissabores e descontentes com minhas posições, mas fazer o que, né? Ser unanimidade nunca faz parte da existência humana.

Fico feliz de ter apresentado um outro olhar sobre o “mundo indígena”, com uma maneira diferente de ver algo que para mim dá todo sentido à minha própria existência enquanto ser social e ser espiritual.

Sou uma pessoa positiva por natureza. Vejo sempre a luz no fim do túnel. Creio sempre que “dias melhores virão”. Assim, de maneira geral, busquei transmitir esta mensagem para mim mesmo, através dos textos e, para minha felicidade, esta mensagem também atingiu outros.

Assim, desejo a todos e a todas vocês que me leem neste momento que tenham uma boa passagem de ano. Que tudo se renove em ondas positivas e ânimo para continuar a jornada. O fim da estrada não está perto, mas nem por isso é motivo de desânimo. Afinal, o mundo se constrói com o movimento, com a dinâmica que não o deixa ficar parado. Como bem disse a canção de Chico Science: “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar…”.

O blog dará uma pausa neste “resto” de ano, mas estaremos de volta no acender das luzes do próximo ciclo.  Nesse período, teremos a revista Xapuri publicando os textos do blog que ainda não foram publicados neste site.

Mais uma vez, agradeço a todos por dividirem comigo o espaço neste barco que navegamos no ano de 2016. Graças a vocês não me senti sozinho subindo este rio.

E vamos em frente, passo a passo, pisada a pisada, remada a remada.

Bom fim de ano para tod@s.

 

Jairo Lima: Indigenista acreano. Escritor. Seus textos são publicados regulamente em seu  blog cronicasindigenistas.blogspot.com.br. Por gentileza de Jairo, suas crônicas semanais são publicadas também aqui no site da Xapuri, às terças-feiras.

As fotos internas desta matéria foram selecionada por Jairo e são da autoria de: 1)  Yawa –  Biraci Junior; 2) Ashaninka – Museu do Índio; 3)  Jairo Lima lambuzado de lama pelas mulheres na festa dos Noke Koi – Acervo Jairo Lima. A capa é do fotógrafo acreano Raimundo Paccó.

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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