Ajuricaba

Por Rogel Samuel via Alma Acreana 

Ajuricaba habitara o rio Hiiaá, na margem esquerda do Negro, entre o Padauari e o Aujurá, no distrito de Lamalonga. Quando foi salvar seu filho caiu na emboscada e feito prisioneiro da Coroa, em 1729, que o queria vivo para o supliciar com castigo e morte.

No caminho Ajuricaba solta o grampo que o prende e, com mão e pés algemados começa a fazer a matança dos soldados portugueses antes de precipitar-se de vez nas águas escuras do rio Negro, que amaldiçoou. Por isso as águas daquele rio são estéreis, não têm quase peixe.

Mas logo depois, Belchior Mendes de Moraes passou pelas armas 300 malocas, matando em sacrifício mais de 28 mil índios das margens do rio que passa a chamar-se de Rio Urubu. E balesteiros, sob o comando de um padre de nome piedoso – Frei José dos Inocentes, depois nome de rua de puta na cidade de Manaus – espalharam as roupas contaminadas que disseminaram uma epidemia que matou 40 mil índios arruinados de varíola, que é uma doença infecto-contagiosa, e virulenta, que apodrece o corpo ainda vivo com erupções de pus e raquialgia, pápulas, pústulas, cegueira e agonia de uma morte bacteriológica lenta, os cadáveres sendo devorados pelas moscas, piuns, carapanãs, mutucas, cabo-verdes, potós, catuquis, marimbondos, suvelas, besouros venenosos e principalmente formigas.

A saúva antropófaga devora um cadáver em 20 minutos. Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, os mortos largados no caminho para serem enterrados (30.430 operários internados no Hospital da Candelária) quando a locomotiva voltava só encontrava ossos limpos comidos e limpos pelas saúvas.

E também a formiga-de-fogo, a saca-saia, a lava-pés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá e a pior, a tocandira, peluda, enorme, venenosa, uma única picada basta para abater um homem, com fortes dores e febre – e era usada pelos índios na iniciação masculina dos garotos, que tinham de enfiar o braço numa cumbuca cheia de tocandiras e aguentar e provar que eram machos.

E a formiga roceira, e a cortadeira, e a guerreira, a correição. Von Martius descreveu populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras eram capazes de fazer recuar um exército!

Uma semana depois da morte da esposa do seringueiro Laurie Costa e imediato ao morticínio da aldeia Caxinauá pelos guerreiros Numas, Pierre Bataillon arregimentou a tropa de guerra, sob o comando de João Beleza, para fazer frente à invasão.

Logo os efetivos puseram-se em marcha para perseguir o inimigo. A possibilidade de um ataque frontal por parte dos Numas não foi descartada, e fizera-se um adestramento de emergência pois que a maioria dos homens nunca estivera sob fogo e nordestinos quisessem apostar no êxito das facas.

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A guarnição do Manixi era cerca de 150 homens armados de revólveres ingleses Webley II calibre 45 e carabinas americanas Winchesters 94 de repetição de 8 cartuchos calibre 44. Vestiam-se de botas, cartucheiras, calças e coletes de couro cru, à prova de espinhos e de cobras.

Os mantimentos seguiam em mulas e canoas. Recrutados, armados, mateiros caingangues rápidos localizaram o rumo do acampamento Numa e o efetivo de uma brigada avançou rapidamente em lanchões, atacando repentinamente em incursões rápidas e conseguiram vitórias expressivas, matando alguns índios e mantendo os Numas sob fogo cerrado dentro da floresta.

Mas os Numas fugiram, desapareceram.

Rogel Samuel – Escritor.  Capa: Mapingua Nerd. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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