Samman potéh,

Esta é talvez a primeira resposta pública que faço a você sobre assuntos que já debatemos antes em particular. Faço-o por ter sido instigada a isso, através de uma crônica-carta que conversou comigo, em linhas, imagens e impressões, e que espelha um diálogo que não vem de hoje. Não creio que te traga nada de tão novo, seja sobre o que posso dizer da minha participação na Assembleia da OPIRJ, seja sobre aquele evento de triste memória. Contudo, responderei.

Para responder, há que se falar, uma vez mais, da despropositada “conferência internacional de celebração da falta de respeito da white people que acha que tem legitimidade para adentrar em um mundo onde não é bem-vinda” (e não são bem-vindos exatamente por sua absoluta falta de respeito com uma sacralidade que são incapazes de compreender.). Às vezes, é preciso lembrar de coisas ruins. Até mesmo para ser capaz de se afastar delas, para produzir algo que seja eminentemente diferente, e eis o desafio que está colocado neste momento.

Como sabido por você, e por alguns, meu nível de participação nessa Conferência foi intenso e extenuante, mas totalmente imprevistas, por razões que se impuseram no correr do próprio evento. Aquilo que era, de início, apenas a participação numa reunião pontual, específica e fechada, se desdobrou numa não-acontecida comunicação, e que por fim acabou por ser o trabalho de apoio à confecção de um manifesto por parte dos participantes indígenas desse evento.

Este texto materializou parte do sentimento daqueles que vivenciaram naquela semana uma espécie de trailer compactado e em alta velocidade de uma relação nada nova, posto que já se vão mais de cinco séculos de ‘contato’, mas nem por isso menos revoltante e dolorosa.

De fato, o que essa Conferência mostrou, desde as reuniões preparatórias até a sua realização, não foi nenhuma novidade, e creio que só os mais iludidos poderiam esperar resultado diferentes daqueles que já se anunciavam nas tratativas preliminares, as quais acompanhei apenas parcialmente, mas que foram mais do que suficientes para dar a ideia do todo, ainda que acompanhar seu desenrolar na prática tenha sido superlativamente pior do que a avant première antecipou.

Talvez porque o festival de ‘colonialismo mandou abraços’ tenha se tornado ainda menos suportável por ter invadido o território tão sério e delicado do Sagrado.  Este lugar, aonde se deve caminhar devagar e com respeito, foi invadido e pisoteado por um enxame de gafanhotos.

 

Já ouvi falar que, para algumas culturas sábias e ancestrais, o gafanhoto é um animal nobre, cujos movimentos inspiram movimentos utilizados em uma luta, no entanto, minha analogia entre o raion e o gafanhoto é muito menos enaltecedora: penso em uma plantação que antes se erguia verde e tenra, que desaparece e dá lugar a uma paisagem desolada, após uma nuvem devoradora que tudo consome, com uma avidez despropositada de sentido.

Pois que é assim que vejo esse movimento que se adensa sobre os mais diversos níveis do conhecimento humano: consumo e nada mais.

Consome-se, seja como experiência sensorial, seja como experimento laboratorial, ou como registro documental de uma prática exótica: catalogada, analisada, descrita, etnografada, historiciada, mapeada, dissecada e reduzida a partículas infinitesimais – e, no entanto, nem assim conseguem chegar sequer perto! Mas como é meramente consumo, esta experiência tão ímpar e sagrada tende a ser apenas mais uma, dentre todas as outras, e por isso vazia de significados e incapaz de produzir conhecimento ou aprendizado.

Essa festa de consumo foi também o tom produzido pela/na Conferência, visível tanto no tom autoritário dos palestrantes quanto nos intervalos, e, pelo que pude saber, adentrou até mesmo os espaços rituais aonde a horda white people esteve, e, como era de se esperar, agiu exatamente de acordo com sua tônica, ou seja, consumiu, com toda a avidez e desrespeito que lhes são característicos.

A propósito disso, gostaria apenas de fazer evidenciar algo que já tenho dito há algum tempo, tratando de outras questões, mas cuja perspectiva também aqui se aplica: ocorre que o Sagrado aqui em questão não é inanimado e inofensivo, e sei que tudo o que se tem feito é visto e não será esquecido, tampouco relevado quando for cobrado. Não se trata de ameaça. Apenas daquilo que É.

Acontece, no entanto, que essa verdade que É, e pode ser para tantos óbvia e incontornável, encontra-se amalgamada sobre as bases de um universo que para o raion permanece inacessível. Aliás, vale citar as questões, cujas respostas não vieram, feitas pelo Pedro Silvino Shanenawa dentro da reunião fechada que discutiu o tema da patrimonialização da Ayahuasca:

“O que é que a Ayahuasca fez para vocês para vocês se interessarem tanto por ela? O que ela lhes ensinou? O que aprenderam com ela?

O que foram capazes de fazer através dela?” – Devo dizer, para ser fiel à verdade, que alguns até ensaiaram responder a essas questões.

Mas ninguém chegou de fato a responder, porque ali, nessa reunião fechada, penso que se deu o maior embate de toda a Conferência, e que serve aqui de mote para a retomada desse assunto através dessa nossa conversa, Samman… Estamos diante de dois mundos diversos demais, afastados demais, e que olham para uma mesma coisa, mas estão longe de enxergar a mesma coisa!

Aquilo que para o raion é uma bebida que resulta de uma fusão um cipó e uma folha, é na visão indígena um todo muito maior, e de uma vastidão que vai além do que as palavras podem narrar, sobretudo as palavras que precisam ser ditas na língua do usurpador, essa, a chamada ‘das luzes’, mas que tanta treva lançou sobre os povos originários desta terra.

Porque quando se fala de ‘ayahuasca’, esse, aliás, um termo genérico, e por isso, reducionista, do ponto de vista indígena, se fala de um casamento ancestral entre dois mundos, se fala de um parente cuja descendência é conhecida e recuperável, se fala de identidade, tradição, cultura, conhecimento não-escolarizável, de ciência; de constituição e fundamento do mundo – deste e de todos os outros; de ciência, de doença, vida, cura, morte, do Tempo além de todo o tempo, e do que escapa para além dele; da constituição e do fim de todas as coisas conhecidas. Isto apenas para dizer o mínimo, e o possível. Fora o que não pode sequer ser imaginado. Fora o que não deve ser dito. Fora o indizível.

E, eis que cá estamos. Depois da Conferência, e especificamente em função da referida reunião, desenhou-se a pauta por um espaço de discussão na qual os povos indígenas tenham realmente voz e espaço para dialogar sobre “o que fizeram e o que faremos com nossos conhecimentos ancestrais”, como sintetizou de forma perfeita o parente Daniel Iberê.

Não tenho dúvidas de que essa conversa precisa urgentemente ser feita, e, como eu já comentei em outros momentos, o que talvez tenha restado de bom dessa conferência foi despertar para os povos indígenas a percepção do ‘tamanho do problema’, bem como da necessidade de tomar lugar nesse debate.

Pois o que me parece muito claro, é que o debate em si está posto. A ‘ayahuasca’ vem sendo esquadrinhada e debatida nos mais diversos seguimentos e cenários, e sob as mais variadas óticas. No entanto, ainda falta à conversa a voz indígena, que não é nem de longe uníssona e unívoca neste tema, pois que como você bem apontou, existem diferentes percepções acerca do tema, e que têm a ver com o lugar de fala de cada interlocutor (tanto no contexto indígena quanto no modo como cada um se relaciona com o mundo não indígena), e que passa pelos interesses específicos de cada uma dessas vozes nos usos, nas consequências, e nas possibilidades de que algo a que ela se relaciona venha a ser inserido na esfera do patrimônio cultural.

Importa esclarecer: o que eu disse acima pode ser lido com um ‘está vendo só, nem eles conseguem concordar entre si sobre o assunto’. Não, não é disso que se trata. O fato de dizerem coisas diferentes, não quer dizer, necessariamente, que os indígenas, discordam entre si. Quer dizer apenas que têm coisas diferentes a dizer. Até porque não estamos falando sequer de um povo único, nem tampouco de opinião uniforme para cada povo. (Talvez não seja pedir demais que os raion superem a visão de que os indígenas são algo como um coletivo que partilha um mesmo cérebro e dizem todos em monocórdio sempre a mesma coisa tal qual os etezinhos de brinquedo do filme Toy Story que uma leitura bem ruim e uma interpretação ainda pior de Marcel Mauss possa produzir!)

Eu venho já de três conversas preliminares realizadas no contexto das Assembleias de organizações regionais indígenas, da OPIRE e da OPIRJ, e estive também discutindo isso em uma rápida participação no curso de hãtxa kui que está se realizando na TI Praia do Carapanã.

Participei desses eventos operando dentro de dois registros: o de registrar esses eventos sob a forma de relatoria, e o de apresentar as informações referentes aos processos atualmente em curso no Iphan que tratam de temas ligados a conhecimentos tradicionais indígenas, a saber, o registro dos padrões gráficos kenê kui do povo Huni Kui, e o processo de registro do ‘uso ritual da ayahuasca’.

É interessante notar que em cada um desses espaços, a minha exposição foi praticamente a mesma, mas desdobrou-se em discussões diametralmente opostas, o que me serviu especialmente para ver de forma ainda mais clara a vastidão desse tema dentro do mundo indígena.

Em todas essas ocasiões, eu tenho acompanhado a enunciação desses distintos lugares de fala, e esta experiência me faz ver de forma cada vez mais premente que todas essas vozes precisam ter seu espaço, com todo o respeito e condições para que seus pontos de vista sejam expressos.

Assim como acho fundamental que também sejam respeitadas e consideradas todas as opções pelo silêncio. Porque sei, desde as escamas e poros que cobrem minha pele, que existe um ponto para além do qual o olhar do raion não pode ir, e não irá, e para além dele está o Segredo que contém a possibilidade da própria ‘eficácia’ daquilo que é sagrado.

E, ciente que sou de tudo isso, penso que somente um espaço construído e pensado para atender às necessidades de interlocutores indígenas pode ser capaz de abarcar essas dimensões que não são passíveis de virem a ser tangenciadas dentro de quinze minutos de fala contados em uma mesa de uma conferência acadêmica.

Como alguém que está participando da idealização desse espaço de discussão, eu espero de coração que esse seja um espaço distinto daquele da Conferência, e que seus resultados que daí advenham sejam muito mais positivos para os povos indígenas do Acre do que aqueles que se desenham a partir do horizonte sombrio das coisas que são pensadas desde gabinetes, sem participação, consulta e diálogo com os grupos diretamente interessados no tema.

Agora, Samman, para ilustrar e responder às suas demais suas perguntas, ao mesmo tempo que dou fechamento a este texto, de citar algumas impressões, não todas, da participação especificamente na Assembleia da OPIRJ. Primeiramente, é importante citar o local – lindo! – na qual o evento se deu: a Terra Indígena Puyanawa.

Cito-a não apenas por ser uma das mais belas terras que já visitei no Acre, mas também por que esta terra tem uma história específica, e que felizmente é vitoriosa, de luta contra as consequências funestas que o mundo não-indígena gera, quando ele começa a invadir os territórios sagrados indígenas. Essa vitória tão cara foi conquistada após uma intensa batalha, e hoje se espelha na beleza e força do terreirão sagrado, se eleva em cantos que ecoam a tradição, e se derrama na placidez do igarapé de águas aprazíveis e santificadas dos silêncios musicais da luz do sol brincando por entre as folhas das árvores.

Neste belo espaço, pela primeira vez me permiti participar de uma rodada de ‘ayahuasca’ realizada durante o evento. Explico-me: em geral, dada a responsabilidade de ter de acordar cedo e estar desperta o suficiente para acompanhar e registrar todas as falas, geralmente não me vejo em condições de tomar parte no ritual.

Desta vez, decidi pelo contrário, e confesso que nem de longe me arrependo, seja por ter vivido uma das melhores experiências de minha vida neste campo até agora, seja porque dessa forma sinto que me é possível diminuir um pouco a distância de interlocução que a posição de ‘representante dos nawa’ me impõe.

Em segundo lugar, preciso ressaltar a beleza que é para mim acompanhar e registrar a maturidade de discussões consistentes e deliberações proferidas ao seio de uma Assembleia Indígena. E, dentro dela, acho muito pertinente registrar uma cena em particular que para mim serve para sintetizar o que tentei expressar aqui ao longo deste texto: na rodada de fechamento da Assembleia, foi aberta a fala para as lideranças de cada terra apresentarem suas considerações sobre o evento do qual haviam participado, bem como para fazer as despedidas formais. Um dos últimos a falar foi Ingo, representante dos Ashaninka do Breu.

Ao tomar a palavra, ele disse que pretendia fazer a sua fala em sua língua e que, depois que ele terminasse, o Francisco Piyãko, “se quisesse, e como quisesse” poderia fazer a tradução. Penso ter compreendido a sutileza contida nessa sentença específica. A mesma sutileza, por exemplo, presente no fato de que figuras como Raoni Txucarramae, que compreende total e claramente o português recusa-se terminantemente a se expressar nessa língua: existem coisas que não devem ser ditas para ouvidos que não saibam ouvir.

Enquanto ouvia as palavras de Ingo, minha cabeça retornou outra vez à já citada reunião da White Conference, ao momento específico em que o ProfDr Joaquim Maná Kaxinawá levantou-se para fazer sua fala, e a fez, é claro, em hãtxa kui. Lembrei-me disso porque enquanto ele falava, uma senhora norte-americana atrás dele, tentou por diversas vezes interrompê-lo, inclusive puxando-lhe a camisa para avisá-lo de que não estava entendendo coisa alguma.

Aquele foi para mim talvez o melhor momento do evento inteiro. Talvez o único bom de fato, no qual eu sorri feliz e contemplada, ante ao lindo revide àquele conjunto infinito de violências e desrespeito. Aquele foi, sem dúvida, um momento de revanche a tudo o que vínhamos sofrendo, sobretudo ao colonialismo que chegou ao cúmulo de pensar em tradução simultânea para o inglês, alemão, espanhol, etc, mas não para o português, limitando ainda mais as possibilidades de comunicação por parte dos participantes indígenas. Diferentemente do que ocorreu na Conferência, não passou pela cabeça de ninguém interromper Ingo. Porque, ainda que muitos na Assembleia não fossem falantes da língua Ashaninka, todos compreenderam.

Por essas e outras, meu caríssimo amigo, é que eu finalizo aqui, dizendo que tenho a expectativa, o desejo e a vontade de que, desta vez, nesta conversa que estamos desenhando, se produza um resultado muito distinto daquele visto na White Conference. Afinal, como foi repisadamente dito e rememorado pelos senhores de Ibiza, aquele evento ‘não era indígena’; Se tudo correr bem, esse será.

ANOTE AÍ

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Raial Orotu Puri – Indígena do povo Puri. Graduada em Direito. Doutoranda em Antropologia. Chefe de Divisão no IPHAN/Acre. Assessora jurídica da Federação do Povo Huni Kui do Acre (FEPHAC). 

Puri –  Segundo Jairo Lima,  o nome Puri é uma designação de cunho pejorativo, que teria sido atribuído pelos vizinhos, não necessariamente amigáveis, os coroados o significado da palavra seria algo como ‘gentinha, gente miúda, povo fraco’. Apesar desses significados depreciativos, Puri acabou sendo o nome assumido como etnônimo, sem grandes recalques daí derivados. (Minha avó costumava dizer que era ‘pura intriga da oposição’…)

Samman potéh – Esta matéria responde ao indigenista Jairo Lima em suas reflexões sobre a Conferência da Ayhuasca, realizada em Rio Branco, Acre, neste segundo semestre de  2016. Sobre este tema, há vários artigos de Jairo Lima publicados neste site e no blog do autor.

Ilustrações desta matéria: quadros  selecionados por Jairo Lima http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/: 1)  Ana Martins; 2)Agenda Digital; 3) Toni Galeria.

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Raial Orotu Puri

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