Chamas de Esperançamentos

Imagina-te como uma parteira. Acompanhas o nascimento de alguém, sem exibição ou espalhafato. Tua tarefa é facilitar o que está acontecendo. Se deves assumir o comando, fazê-lo de tal modo que auxilies a mãe e deixes que ela continue livre e responsável. Quando nascer a criança, a mãe dirá com razão: nós duas realizamos este trabalho. (Lao-Tsé. Séc. V a.C)


Por Fátima Guedes

A casa de número 397, Rua Nações Unidas, na cidade de Parintins, no Amazonas, abriga um acervo humano de cuidados popular/tradicionais em saúde cujo reconhecimento à  significação político histórica para o contexto das Práticas Integrativas e Complementares do Sistema Único de Saúde (PICS), dedico parte de meu tempo e de meus múltiplos compromissos militantes no rascunho destas páginas.  É a chama do esperançamento ativa em minha prática socioeducativa instigando-me compartilhar com outros/as, sensíveis à moção em desenvolvimento, um dos últimos acenos de nossa ancestralidade de mulher negra.

O preâmbulo faz jus à personagem em destaque, a Parteira Tradicional – Dona Marina Assunção de Almeida: os quase cem anos somados em sua existência não afetaram a lucidez; não turvaram o brilho do olhar, tampouco o calor entusiástico quando é provocada a compartilhar as memórias de Dona Marina, a Parteira.

O calor da tarde daquele domingo inflamava meus ânimos a absorver fragmentos da sabedoria de Dona Marina. O sol em brasa sobre a Ilha Tupinambarana nos teimoseava reagir às iniquidades institucionais sobre as ameaças à saúde pública advindas dos altos índices de contaminação da rede pública de água e esgoto; da negligência à coleta seletiva; ao abandono e maus tratos de animais em via pública; ao silencio morno sobre os saberes popular/tradicionais em saúde; enfim, ao desmonte sutil do SUS… Sabia que o acolhimento e amorosidade da Preta Dona Marina, chegariam até mim como gotículas preciosas para saciar nossa sede de interlocuções libertárias – nutrientes para a construção da Justiça Social.

A expectativa daquele encontro não fora em vão… Lá estava a Parteira, aguardando-me no aconchego de sua rede. A dimensão do acolhimento fizera-se visível no sorriso e na ternura das mãos estendidas… Compensada a saudade, pedi permissão para me banhar nas águas de sua sabedoria; além de compensar a sede acumulada.

Demos início ao diálogo a partir de sua descoberta como Parteira:

Mana, tinha vinte anos quando tudo começou. Minha mãe que me ensinou. Mas o primeiro parto que acompanhei fui sozinha. Fui chamada às pressas, numa comunidade muito pobre, para socorrer uma mulher que já tava há dias com puxo e não conseguia ter o bebê. Aí, me peguei com Deus e falei para ela que também pedisse força a Ele. Fiz puxação para cá, prá lá… Aí, veio um puxo forte e a criança nasceu. Aí eu descobri que o trabalho da parteira tradicional é missão.

Com base neste e noutros fatos semelhantes, reconhece a importância do trabalho da parteira tradicional, principalmente entre as mulheres pobres das comunidades rurais, de difícil acesso, onde não chegam os médicos nem os serviços de saúde. Durante nossa conversa, perdera a conta dos partos a que assistiu: Pra mais de duzentos partos acompanhei e todos realizados com sucesso. Nas horas difíceis, Deus é quem guia nossas mãos. Acreditem ou não. Chamam nós de curiosa. Mas é curiosidade que vem de Deus.

Em meio a tantos valores humanos expressados na fala de Dona Marina, a solidariedade está em primeiro lugar na relação com as mulheres durante todo o trabalho de parto: Mana, a outra mulher que tá parindo é outra de nós. A gente tem que entender isso pra tudo dar certo. Também, às vezes, as mulheres não têm nada pra comer, nada… Aí, a gente leva um pouco do que tem. Só isso já dá uma força pra mulher recuperar logo.

E vai mais além: Onde não tem médico, tem sempre uma parteira. O parto em casa é mais tranquilo pra mulher e até pra família. Em casa ela recebe atenção, carinho, um remédio natural, uma puxação, um alimento pra espertar os puxos… Caribé com pimenta-do-reino é muito bom nessas horas… Tudo isso dá coragem e força. No hospital não tem isso. Ás vezes, a mulher pega até esculhambação quando grita ou reclama.

Das experiências como parteira, lembra um fato que considera um dos mais importantes de sua missão: A mulher que atendi era a Izabel, da comunidade do Aninga. Tinha uns vinte anos, acho. Era o terceiro filho. Parto seco. Ajudei daqui, dali e vi que o bebê tava laçado no cordão umbilical. Sentia ele já quase morto, mas conseguiu nascer. (– E agora, Meu Deus!). De repente, veio a luz: pedi uma pimenta malagueta, misgalhei bem e coloquei uma gotinha com a ponta do meu dedo no céu da boca do bebê. Aí, ele deu uma mexidinha no pé, deu um suspiro e começou a chorar… Chorei junto com ele. Hoje, taí. Uma mulherona de vinte e nove anos.

Um rasgo de luar no céu matiz nos anunciava o toque de recolher… Percebi que Dona Marina estava um tanto cansada. No entanto, ainda havia muita riqueza para absorver e ao mesmo tempo compartilhar com aqueles e aquelas que “tecem manhãs” independentemente de tempo e espaço…  Nesse vago silêncio dialógico, a Parteira procurava jeito de se acomodar na rede… A linguagem dos gestos afirmava que não queria interromper aquele momento… Último talvez… Certamente era cônscia das próprias limitações… Num impulso altivo, toma minhas mãos entre as suas e encara-me com doçura: Vamo logo terminá, Mana! Ainda aguento. Contagiada pelo vigor da Anciã esqueci a ansiedade e abracei literalmente aquele presente no presente.

Precisava ouvir a opinião da Sábia Parteira sobre uma saúde pública coletivizada, aberta ao diálogo entre os vários e diversos olhares na perspectiva da prevenção e promoção. A resposta à provocação me sugeriu que cultivava (talvez via inspiração mística) anúncios contidos nos princípios da Educação Popular semeados pelo Educador Paulo Freire. Na simplicidade de sua fala, deixa claro que acredita na possibilidade da saúde institucionalizada acolher os cuidados naturais e, assim, a população garantir qualidade de vida digna para todos e todas; um sistema público de saúde construído a partir do conhecimento acadêmico e do saber popular/tradicional: Os médicos precisam se aculiar com os curadores, com as parteiras, com as benzedeiras, com os puxadores, com os sacacas… Um ensina uma coisa, outro ensina outra coisa, vão se ajuntando até aparecer a saúde. A gente precisa entender que a saúde começa de baixo, pela natureza que Deus deixou e nos dá de graça. É assim que penso: ninguém sabe tudo sozinho.

Antes que os últimos raios de luz da sabedoria ancestral se apaguem, vale trazer à reflexão uma das questões, ultimamente, muito debatidas no confronto ao jeito natural de nascimento e a cesariana. Os quase cem anos de vida e experiência dedicados a auxiliar no nascimento de vidas humanas credibiliza Dona Maria opinar:   Mana, a gente é igual fruta: só tá boa quando amarela ou cai de vez. É o tempo dela. Se tirar antes, custa amadurar e, às vezes, fica até siíma…  Assim é as crianças que tiram antes da hora certa de nascer. Conheço algumas que custam crescer, têm dificuldade de aprender bem as coisasEssa gente tem que entender que a criança só nasce na hora certa. Essa coisa de adiantar o parto é negócio pra ganhar dinheiro.

A sabedoria da Parteira ultrapassa o padrão clínico tecnológico relativo ao tempo e modo de nascer. Comprova que a vida, independentemente da espécie, é única em sua diversidade. Qualquer interferência em seu desenvolvimento natural representa ameaça para um vir-a-ser independente, autônomo, equilibrado. A mística do tempo certo é, sem dúvida, acalanto cuidadoso e necessário para a livre manifestação do ser.  É trabalho natural do ato de nascer… A semente inquieta forja passagem. Destino em movimento. Hora de deixar a fêmea/abrigo; hora de soltar-se do galho; cortar os laços da incubação e realizar a expressão de ser.

Gostosamente, Dona Marina se espreguiça na rede e libera o primeiro bocejo. Antes, porém, do remate final, deixa seu clamor indignado contra a falta de reconhecimento ao trabalho das parteiras e demais categorias de curadores. A nosso pensar, é o memoricídio anunciado nos bastidores do mercado da saúde às nossas tradições de curandagem: Me dá uma revolta, Mana, quando ouço pela rádio que mulheres e bebês morreram na hora do parto ou foram maltratadas nos hospitais. Nós, as parteiras curiosas, estamos se acabando… Não existe reconhecimento pelo nosso trabalho; por tudo que nós já fizemos em Parintins. Muitos médicos e esse povo que tá aí, na saúde, acha que nós não sabe de nada. Mas…ai das mulheres pobres se não tivesse nós por perto.

Outras questões fluíram em nosso diálogo e merecem destaque – os remédios caseiros. São informações acumuladas na oralidade das populações tradicionais: apesar de todo o preconceito, tendências mercadológicas e indiferença institucional, a cultura dos chás, banhos, lambedores, unguentos e etc., se mantém viva entre as populações rurais e regiões periféricas onde o mercado da saúde ainda não contaminou na totalidade. Dona Marina comentara timidamente sobre alguns preparados utilizados pelas parteiras tradicionais durante o acompanhamento dos partos: para acelerar os puxos e facilitar o nascimento as parteiras dão às parturientes, chá de mangarataia com pimenta-do-reino. Também é comum o uso do caribé preparado com manteiga de garrafa e pimenta-do-reino. Ainda, o unguento de sebo de carneiro, andiroba usado para massagear o corpo da mulher em trabalho de parto.

A construção da Utopia – Saúde, direito de todos e dever do Estado – se reinventa diariamente, paralela a outro perfil democrático para o Estado brasileiro. A 16a. Conferência Nacional de Saúde, que aconteceu entre os dias 4 a 7 de agosto, em Brasília, se oferece o canteiro ímpar para o florescimento de Esperançamentos, em tempos de barbárie social. Ainda que falares de Marinas Parteiras, somados a outros gritos de indignação sejam abafados nos bastidores do fascismo republicano, o Poder Popular resiste e teimosia nas possibilidades de um Brasil alicerçado na Ética Universal dos seres Humanos legitimamente defendida pelo Patrono da Educação Brasileira, o Educador Paulo Freire.

Glossário

Aculiar – Do coloquial parintinense; o mesmo que fazer alianças.

Aninga – Comunidade Peri Urbana de Parintins.

Caribé – Caldo de farinha de mandioca temperado com alho, pimenta-do-reino, sal usado como energético; caldo da caridade.

Discunforme – Do coloquial parintinense: abundante.

Ética Universal dos seres Humanos – “[…] Do direito de ir e vir, do direito de comer, de vestir, de dizer a palavra, de amar, de escolher, de estudar, de trabalhar. Do direito de crer e de não crer, do direito à segurança e à paz”.  (Pedagogia da Indignação, página 130. Editora UNESP)

Mangarataia – Gengibre

Puxadores – Categoria de Curadores Populares; massagista popular.

Preparados – Coloquial parintinense: fórmulas naturais de cura. 

Sacacas – Categoria de curadores que recebem com dons espirituais de cura ainda no ventre materno.

Siíma – Do coloquial parintinense: sem sabor; insalubre

*Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta e Militante da Marcha Mundial das Mulheres. Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia e Algemas Silenciadas.

Fonte: Amazônia Real

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