Conheci Claudia Andujar  bem no começo dos anos 90, em New York,  com o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami. Claudia, a fantástica fotógrafa da floresta,  estava na cidade não para promover seu trabalho, mas para acompanhar o Davi, traduzir pro Davi, defender a causa do Davi, cuidar do Davi, como ela mesma definiu.

Ao longo das décadas seguintes, nos encontramos algumas vezes em espaços de defesa da Amazônia e dos povos da floresta. Com o tempo, sempre soube de Claudia, mas perdi o contato direto. Tempos atrás, Claudia me mandou uma foto antiga do nosso encontro em Nova York. Depois, perdi contato de novo.

Outro dia ganhei de presente um livro de Claudia: “A vulnerabilidade do ser“, um livro-espetáculo de fotos de Claudia, testemunho sobre a fabulosa  trajetória  de Claudia, entrevistas com Claudia.  Em um dos capítulos, já quase ao final, um depoimento de Claudia sobre os Yanomami na vida dela. O texto, publicado originalmente em 1998, segue vibrante, atual, essencial.

Minha relação com os Yanomami, fio condutor de minha trajetória de fotógrafa e de vida, é essencialmente afetiva. Esse sentimento, ao longo do tempo, levou-me a compartilhar meu tempo de fotógrafa com atividades em defesa dos direitos territoriais e de sobrevivência desse povo. Uma tarefa árdua e que requer muita perseverança.

Apesar disso, meu trabalho fotográfico continua. Nos anos 70 e 80 passei muito tempo com eles. Desenvolvi um trabalho intimista sobre seu cotidiano.

Agora, depois de duas décadas de empenho quase exclusivo na defesa de seus direitos, sinto a necessidade de me abstrair e sintetizar esse trabalho fotográfico que vivenciei tão intensamente. Procuro apresentar o sentido de compromisso e lealdade que perpassa toda a minha relação com eles.

Fotografo os Yanomami há mais de vinte anos. Tenho um acervo de vários milhares de negativos, que considero uma mina repleta de imagens sobre as quais construo uma memória que sigo atualizando.

De tempos em tempos me permito parar o tempo e, na contemplação das imagens, encontro uma nova expressão, um novo sentido visual, bem como incorporo imagens de novas viagens (agora não mais estadas, mas viagens curtas), as quais me possibilitam unir o passado ao presente, que já quase é o futuro da vida deles.

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A vida dos Yanomami já não se limita mais às longas estadas e viagens na floresta, noites repletas de conversas e discursos na grande maloca comunitária, sob o luar e milhares de estrelas.

Hoje incorporam à sua vida a escola bilíngue, as assembleias indígenas, os imensos problemas causados pela invasão garimpeira e suas consequências, as doenças.  Nos diálogos noturnos, no repensar dos valores da vida, eles estão se abrindo para uma nova visão do mundo.

claudia-andujar-e-ditoraeletronica-comFaço como os Yanomami, que estão elaborando seus mitos, justificando-os, retrabalhando continuamente a oralidade de sua história, para ajustá-la ao novo, aos tempos de hoje.

Uma bricolagem de adaptação e de atualização dos tempos dos mitos primordiais. Sem esse passado, sem a sua história, a bricolagem cairia no vazio.

E é por isso que a memória tem função vital no processo de no processo de adaptação e elaboração do novo. Do mesmo modo, consigo sentir um bem-estar muito grande e apreciar o privilégio de ter tido a oportunidade de vivenciar e documentar um passado que em muitos casos ainda é presente, um passado expandido.

A adaptação de uma cultura como aquela dos Yanomami, um povo de recém-contato com um mundo que não é deles, é um processo delicado e lento, é um repensar do sentido do universo e da vida.

Urna funerária yanomami, Roraima.

Urna funerária Yanomami

Meu trabalho ainda não encontrou sua forma definitiva, que creio que não existe. Como os mitos, adapta-se, incorpora novas imagens e toma novas formas, passa pela transcodificação (das imagens) para se atualizar, numa bricolagem virtual infinita. 

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Pequena Biografia de Claudia Andujar
A fotógrafa Claudia Andujar  nasceu em Neuchâtel, na Suíça, em 1931). Antes de chegar a São Paulo, em 1957,  viveu na Hungria e nos Estados Unidos.

Em São Paulo, dedicou-se à fotografia e trabalhou para publicações nacionais e internacionais, como as revistas Realidade, Claudia e Life. Foi também professora de fotografia em instituições tão prestigiosas como o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

Na década de 1970, compõe a equipe de fotógrafos da Realidade e realiza ampla reportagem sobre a Amazônia. Nessa época, recebe uma bolsa da instituição norte-americana Fundação Guggenheim e, posteriormente, uma outra da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para estudar os índios Yanomami.

Desde então, o tema central de sua vida e de seu trabalho, passou a ser o povo Yanomami. Entre 1978 e 1992, participou da criação Comissão pela Criação do Parque Yanomami, e coordenou a campanha pela demarcação das terras indígenas.  Entre 1993 e 1998, atuou  no Programa Institucional da Comissão Pró-Yanomami.

Claudia tem uma extensa lista de fotos e livros publicados, dentre eles:  Amazônia, em parceria com  George Love, pela editora Praxis, em 1978; Mitopoemas Yanomami, pela Olivetti do Brasil, em 1979; Missa da Terra sem Males, pela editora Tempo e Presença, em 1982; e Yanomami: A Casa, a Floresta, o Invisível, pela editora DBA, em 1998. Em 2005, é lançado o livro A Vulnerabilidade do Ser, pela editora Cosac & Naify.

Em 2015, inaugura a Galeria Claudia Andujar, um pavilhão dedicado à sua obra, no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Também em 2015, é lançado o documentário A Estrangeira, que traz sua vida enquanto artista e ativista, dirigido pelo curador de seu pavilhão, Rodrigo Moura.

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Foto: delcastilloencantado.blogspot.com

Referência bibliográfica: http://enciclopedia.itaucultural.org.br

 

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