Árvore com maior folha do mundo tem nome científico registrado.  Botânico Cid Ferreira, primeiro a descobrir a espécie há 37 anos, quer espalhar a árvore em parques e alamedas de Manaus.

Trinta anos após entrar para o “Guiness Book”, o Livro dos Recordes, a árvore de maior folhagem já registrada no mundo tem agora seu nome científico referendado. A novidade abre caminho para uma série de pesquisas que podem ajudar a entender toda a magnitude da Coccoloba gigantifolia, registrada pela primeira fez em 1982 pelo botânico Carlos Alberto Cid Ferreira, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Raríssima, a árvore das folhas gigantescas foi encontrada até hoje apenas na bacia do Rio Madeira, nos estados do Amazonas e Rondônia, no centro e sudoeste da Amazônia brasileira. Ferreira agora articula para dotar as praças e alamedas de Manaus com a planta – ele já doou mais de 300 sementes para a prefeitura e instituições de ensino.

“A Coccoloba gigantifolia é a maior dicotiledônea do mundo. E só encontrei poucas árvores na bacia do Madeira, em quatro localidades. A maior [folha catalogada] está no herbário da Casa da Ciência, em Manaus, e mede 2,5 por 1,44 metros. Não conhecemos uma planta com essa envergadura toda no Mundo”, diz Ferreira, que assina artigo científico na revista Acta Amazônia, em 4 de novembro, com Efigênia de Melo (Universidade Estadual de Feira de Santana-BA) e Rogério Gribel (Inpa).

A maior folha catalogada está no herbário da Casa da Ciência, em Manaus, e mede 2,5 por 1,44 metros. Foto Divulgação

Árvore chega a 13 metros de altura

Tecnicamente a Coccoloba gigantifolia não está ameaçada, mas pode ser considerada bastante incomum. Menos de uma dezena delas foram encontradas por Cid Ferreira, em diversas expedições pela selva amazônica. O pesquisador é um incansável caçador da planta de folhas gigantes: chegou a pegar o carro e dirigir mais de 4 horas de Manaus até Itacoatiara depois que circulou a informação de que a árvore fora encontrada na cidade. Alarme falso.

“A Coccoloba tem uma importância enorme. Seria ótimo que fosse plantada em praças e alamedas de Manaus. Doei centenas de sementes para a prefeitura, universidades. Cada planta tem 3 mil sementes, de germinação simples. A questão agora é colocar isso em prática”, diz o botânico. “Plantei no quintal da minha casa e em cinco anos ela já está com 6 metros de altura. Na floresta, a maior tem 13 metros. Todo mundo quer a folha, e eu vou doando para as escolas e diversas instituições. O conhecimento precisa ser distribuído, não é?”. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Manaus (Semmas) disse que trabalha com a Coccoloba ainda em fase de viveiro e produção de novas mudas, bem como na identificação de espaços adequados para o plantio da espécie, onde aja segurança ao seu desenvolvimento.

Uma das instituições que recebeu uma muda da Coccoloba das folhas gigantes foi o Jardim Botânico do Rio. A planta, porém, ainda está muito pequena e não pode ser vista pelo público. Pelo menos por enquanto. Quando crescer mais um pouco ela vai ser plantada no Arboreto, onde todos poderão observá-la.

Há um universo desconhecido sobre a Coccoloba gigantifolia. Já se sabe, por exemplo, que a planta realiza quimiofotossíntese – não necessita de luminosidade para ocorrer – e possui uma substância que pode ser considerada rejuvenescente. Seu fruto rende um saboroso suco, rico em vitamina C. Sobre a presença de menos de uma dezena de indivíduos na floresta, Cid Ferreira atribui o fato a uma renhida competição entre espécies.

“Ela ocorre na borda da floresta, em locais nos quais a embaúba (Cecropia pachystachya) é bastante comum. Como precisa de muito sol e não pode ficar debaixo de outras árvores, isso acaba sendo um dificultador”, comenta.

O pesquisador Cid Ferreira, do Inpa, e a Coccoloba gigantifolia que plantou no seu quintal. Foto Divulgação
O pesquisador Cid Ferreira, do Inpa, e a Coccoloba gigantifolia que plantou no seu quintal. Foto Divulgação

O biólogo Haroldo Lima, doutor em Ecologia e pesquisador do Jardim Botânico do Rio, explica que agora a Coccoloba gigantifolia se diferencia das outras 45 do gênero Coccoloba (pertencente à família Polygonaceae) existentes no Brasil – e 21 somente na Amazônia.

“Com o binômio, é como se agora a planta tivesse um código internacional, que vai possibilitá-la ser reconhecida pela comunidade científica internacional na China, na África ou no Reino Unido. O Cid Ferreira foi incansável neste trabalho que durou décadas”, elogia.

O botânico sueco Karl von Linné, ou simplesmente Lineu, desenvolveu, em 1735, a nomenclatura binomial, composta por dois nomes, cujo primeiro é escrito em letra maiúscula e define o gênero, e o segundo tem letra minúscula e define a espécie. A organização facilitou o diálogo científico pelo mundo.