Botos amazônicos apresentam alta contaminação de mercúrio. Mineração na região é apontada como responsável

Suzana Camargo

Conhecidos como os “Embaixadores dos Rios da Amazônia”, os botos são excelentes indicadores da qualidade da água e do equilíbrio dos rios. No mundo todo, há sete espécies deste animal. Mas é no Brasil que se encontra a maior população de botos do planeta.

A região da Floresta Amazônica é habitat de duas espécies destes mamíferos aquáticos: o boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis, também conhecido como boto-vermelho) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis)*.

Até hoje, sabe-se pouco sobre estas espécies. Elas estão entre aquelas de difícil monitoramento. Há bem pouco tempo, a metodologia utilizada para a contagem dos botos envolvia cerca de dez pessoas, posicionadas na proa de um barco que, com os olhos fixos na água, registravam os animais avistados em um raio de 180º. Só mais recentemente eles começaram a ser monitorados através de um sistema mais moderno, com uso de satélites.

E um novo estudo faz um alerta sobre a atual situação dos botos do continente. O primeiro monitoramento feito via satélite desde 2017, nos territórios do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, aponta que as hidrelétricas e a mineração ilegal são as principais ameaças à sobrevivência dessas espécies – a pesquisa avaliou duas delas: o boto cor de rosa e o bufeo boliviano (Inia boliviensis).

Realizado por um grupo de organizações sulamericanas, participantes da iniciativa Botos da América do Sul (SARDI, na sigla em inglês), formada pelas organizações Faunagua, Fundação Omacha, Instituto Mamirauá, Prodelphinus e WWF, o levantamento revela que, no passado, esses animais podiam nadar sem obstáculos pelas bacias do Orinoco e Amazonas.

No entanto, a operação de mais de 140 usinas hidrelétricas e a previsão de outras 160 no bioma Amazônia mudaram esse cenário e estão gerando consequências preocupantes para a conservação desses cetáceos.

“Barragens isolam populações de golfinhos, deixando-as desconectadas dos principais canais. Além da alta mortalidade de ovos e animais juvenis em turbinas hidrelétricas, a migração dos peixes – seu principal alimento – é interrompida, gerando uma ameaça significativa à sua reprodução”, explicam os especialistas.

O que acontece é que botos usam diferentes ambientes aquáticos para viver: áreas de confluência de rios, lagoas, rios e canais tributários e até, áreas rasas perto das praias, onde se acasalam. “Mas essas áreas estão mudando ao longo do ano em resposta ao nível da água e ao ritmo das inundações. Por esse motivo, o controle dos fluxos por hidrelétricas pode afetar todo o ciclo de vida da Amazônia, em áreas úmidas e florestas inundadas importantes para botos e peixes. A redução do estoque de peixes devido à transformação de seus habitats pode aumentar os conflitos entre pesca e botos e pôr em risco a soberania alimentar de milhões de pessoas que usam esses recursos”, ressaltam.

Contaminação por mercúrio

Todavia, o que chama mais atenção e gera preocupação entre biólogos, é o resultado da análise de amostras musculares coletadas de 46 botos. 100% delas apresentaram alto teor de mercúrio.

O mercúrioé usado durante a garimpagem para separar os metais preciosos de outras impurezas e em geral, depois é simplesmente jogado na água. Ele acumula-se em plantas e animais e, através dos peixes, ameaça espécies como os botos, bem como a saúde e os meios de subsistência de milhões de pessoas que habitam a Amazônia.

Em 2016, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA) mostrou que em aldeias da Terra Indígena Ianomâmi, em Roraima, 92% dos índios estavam contaminados por mercúrio.

“O que sabemos são os efeitos do metal em humanos, e como mamíferos, podemos inferir que haja alguma semelhança. Eles incluem danos ao cérebro, rins e pulmões. Contaminações mais elevadas são especialmente perigosas em crianças e mulheres grávidas. Má formação de fetos é um problema real”, afirma Marcelo Oliveira, especialista em conservação do WWF-Brasil e coordenador do SARDI.

“Por coincidência ou não, o filhote de uma das fêmeas analisada apresentava problema em um dos olhos, mas não temos conhecimento suficiente que possa ajudar a elucidar. O fato é que estudos direcionados aos botos precisam ser realizados para que possamos de fato afirmar os efeitos”, diz.

Próximos passos para a preservação dos botos

Para os especialistas envolvidos no monitoramento, é vital que os resultados sejam levados em consideração no desenvolvimento do Plano de  Conservação e Manejo (CMP) de botos de rio, apoiado pela Comissão Internacional Baleeira, e seja discutido em ações de conservação pelos governos dos países da América do Sul.

É urgente a implementação de acordos internacionais para a proteção da saúde humana, ecossistêmica e de espécies, como a Convenção de Minamata. Ela favorece a eliminação definitiva do uso de mercúrio e foi ratificada pela Colômbia, Brasil e Bolívia. Este é um passo muito significativo, pois os três países fazem parte da região amazônica, onde a saúde de milhões de pessoas foi afetada devido ao impacto desse metal pesado. Agora, os governos devem implementar ações para tornar esse acordo realidade, conclamam os especialistas.

Outro ponto destacado pelo estudo é a manutenção e a criação de novas reservas de preservação. “Precisamos manter áreas protegidas e até aumentar a proteção de mais ecossistemas aquáticos na região”, disse Fernando Trujillo, diretor científico da Fundação Omacha.

Em 2022, o programa de monitoramento – SARDI -, espera ter pelo menos 50 botos marcados com transmissores para ter evidência dos habitats de maior uso, essenciais para a conservação em todos os países onde se distribuem.

*Para a lista vermelha da International Union for Conservation of Nature (IUCN/RedList), o boto-tucuxi (Sotalia fluviatilis) é classificado como um animal com “dados insuficientes” e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) saiu dessa categoria apenas no final de 2018. Atualmente ele é considerado “em perigo”. Este é o segundo nível de ameaça mais grave para um animal e indica que a espécie pode ser extinta num futuro próximo.

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Fonte: Conexão Planeta

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