Gomercindo Rodrigues, desde o Acre:  Soube, com enorme tristeza, que, aos 93 anos, deixou-nos o lutador/poeta, poeta/lutador Elias Rosendo.

Conheci-o mais “de perto” quando, já advogado, no meu primeiro ano como tal, lá por 1998, assumi, junto com os colegas Emanoel lMessias e Genésio Natividade, a defesa dos trabalhadores rurais de Brasiléia acusados da morte do “Nilão”, um capataz de fazenda, tido por fazendeiro, suspeito de mandante do assassinato de Wilson Pinheiro, assassinado em julho de 1980, na cidade fronteiriça.

O processo correu por longos 19 anos até que parte dos 27 acusados da morte do “fazendeiro” fossem levados a julgamento. “Seu” Elias Rosendo, como tinha mais de 70 anos à época e transcorrera mais de 10 anos entre a última causa de interrupção da prescrição, não foi a julgamento pelo Tribunal do Júri de Brasiléia em 1999.

Quando assumi o processo e o li inteiro (acho que eram 3 volumes), “descobri” uma história dentro dos autos que a polícia “deixara de lado”: no dia do assassinato do Nilão, um dia após o sétimo dia do assassinato de Wilson Pinheiro, de cujas homenagens participaram o então presidente do PT, Lula, o Jacó Bitar, o José Francisco, da CONTAG e Chico Mendes, então vereador pelo PT em Xapuri, enquadrados na “Lei de Segurança Nacional” porque Lula, no ato público, à noite, dissera: “está chegando a hora de a onça beber água” e, no outro dia, Nilão foi assassinado.

Durante o Ato Público em homenagem a Wilson Pinheiro foi avisado que na manhã seguinte o caminhão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia iria até Assis Brasil levar os trabalhadores que tinham vindo daquela região.

Um trabalhador rural, filiado ao Sindicato, mas que não contava com a confiança dos seus membros, exatamente porque era visto muitas vezes andando junto e até dirigindo a caminhonete do NIlão, Jesus Matias, na madrugada, FRETOU outra caminhonete e teria ido até o Km 84 da estrada onde, pela manhã, o caminhão iria gratuitamente.

Esse fato me causou estranheza. Jesus Matias foi ao 84, onde estava a sede de uma das fazendas que Nilão gerenciava e voltou até o Km 75, onde ficou esperando o caminhão do Sindicato e, quando este chegou, avisou a todos que “Nilão” iria fugir, sugerindo que ali ficassem para “prender o Nilão”. Um grupo considerável topou.

Entre eles, Elias Rosendo. Quando Nilão chegou em sua caminhonete, foi parado e retirado da mesma, começando no meio da estrada um “interrogatório”.

Nilão, além de não responder às perguntas era sarcástico. A certo momento, sugeriu que os seringueiros o amarrassem e o levassem à Brasiléia, em sua caminhonete que poderia ser dirigida por Jesus Matias.

Elias Rosendo, que comandava o interrogatório, concordou, quando voltou-se para pegar a corda que estava na carroceria da caminhonete, Jesus Matias e dois desconhecidos que o acompanhavam, dispararam e mataram Nilão no meio da estrada.

Ressalte-se que Jesus Matias e os dois desconhecidos eram OS ÚNICOS QUE ESTAVAM ARMADOS, pois os demais estavam VOLTANDO DA CIDADE, desarmados, portanto.

Quando li isso tudo, convoquei uma reunião com TODOS OS ACUSADOS – e só com eles e o então presidente do STR de Brasiléia, o saudoso companheiro Chicão – em uma colocação lá dentro do seringal, para que eu pudesse saber deles qual era a história do fato.

Tinham se passado 19 anos. Pedi que cada um fosse contando o que se lembrava do dia. Vários dos acusados nem estavam no local do crime no momento em que ocorreu, ou porque tinham descido antes ou porque não tinham ficado para “prender” o Nilão, por medo, conforme alguns admitiram.

Depois de ouvir a todos e ver que a história dos autos “não se encaixava”, perguntei a eles se, alguma vez, tinham pensado na hipótese de o JESUS MATIAS ter sido “peitado” para matar o Nilão e “puxar a responsabilidade” para os trabalhadores rurais.

Disseram que nunca tinham pensado nisso. Aí fui, com eles, analisando os detalhes: quem eram os dois acompanhantes do Jesus Matias? Eles não conheciam.

Podiam ser pistoleiros? Sim, podiam, mas o Jesus Matias dizia que eram “operadores de motosserra” que iriam trabalhar para ele. Quem estava armado? Só os três: Jesus Matias e os dois desconhecidos. Por que alguns que nem estavam no local “assumiram” o crime?

Alguns foram barbaramente torturados e relataram isso, inclusive, constando no processo que seus Laudos elaborados pelo IML de Rio Branco tinham sido enviados, MAS NÃO ESTAVAM NO PROCESSO, outros disseram que, como todos suspeitavam do Nilão e o Jesus Matias tinha morto o cara que eles acreditavam ter mandado matar o Wilson Pinheiro, não o deixariam sozinhos. E os dois desconhecidos? NUNCA FORAM OUVIDOS pela polícia.

Um motorista de caminhão boiadeiro, parado pouco antes da chegada de NIlão ao local, relatou em seu depoimento à polícia que uma das pessoas que ameaçavam tinha “sotaque paraguaio”. Nenhum dos acusados tinha tal sotaque, nem de boliviano.

Era comum na região, à época, pistoleiros paraguaios ou da fronteira do MS com o Paraguai. Ninguém pensara que a morte do Nilão fora “organizada” para, primeiro, “desviar o foco” do assassinato de Wilson Pinheiro, diga-se de passagem, NUNCA ESCLARECIDO e, segundo, “puxar a culpa” para os seringueiros, criando uma possibilidade de repressão maior.

Para apurar o assassinato de Wilson Pinheiro não fora enviado nenhum delegado especial, para a de Nilão, houve toda uma mobilização, delegado especial, enfim, uma grande “mobilização” dos órgãos de segurança do Estado.

Seu Elias Rosendo, na reunião, foi o que mostrou grande capacidade de compreender no que tinham sido “jogados” 19 anos antes.

Depois disso, encontrei com ele várias vezes. Sempre que produzia um novo livro de literatura de cordel, procurava-me para me dar um exemplar.

Seu Elias Rosendo foi um lutador o tempo todo. Grande perda. Vai-se o companheiro, perde-se um pouco mais da poesia em um momento em que está fazendo tanta falta a humanidade.

PS! Os trabalhadores levados a julgamento em quatro sessões do Tribunal do Júri de Brasiléia foram todos absolvidos.

ANOTE AÍ:

guma

 

Gomercindo Rodrigues é advogado,  inscrito na OAB/AC sob o nº 1997.

 

 

 

Matéria do AC 24 Horas:

Morreu nesta segunda-feira, 08, aos 93 anos, de causas naturais, em sua residência, no bairro Tucumã, em Rio Branco, Elias Rosendo, fundador do PT do Acre e um dos militantes históricos da sigla no estado.

Elias Rosendo era natural do Piauí. Seringueiro, foi fundador, ao lado de Chico Mendes e Wilson Pinheiro, do histórico Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia em um período de enormes conflitos entre moradores da floresta e fazendeiros.

Em nota, o PT do Acre lamentou a morte de Elias Rosendo e lembrou do militante como “revolucionário que participou dos grandes empates e foi candidato a vice-governador pelo Partido dos Trabalhadores em 1982, ao lado de Nilson Mourão, obtendo a maior votação proporcional já registrada por uma sigla de esquerda à época”.

Em sua conta no Twitter, o governador Sebastião Viana lembrou que Elias Rosendo foi “exemplar militante e corajoso defensor do direitos sociais”.

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