O rio Orinoco, que drena 70% do território venezuelano, é um dos dois principais formadores do rio Negro e, portanto, do Amazonas. O canal do Cassiquiare, ligação natural do Orinoco ao Negro, descoberto em 1744, não é um simples canal, como se imaginava, e desempenha papel muito mais relevante na geografia da região.

O Cassiquiare é, isso sim, um defluente (contrário de afluente) do Orinoco. Ele se separa do curso principal desse rio para juntar-se ao colombiano Guainía e formar o Negro, próximo da fronteira dos dois países com o Brasil. E corre sempre no mesmo sentido.

A constatação é de membros da Expedição Humboldt Amazônia 2000, organizada pela Universidade de Brasília (UnB), após analisarem a geologia e o relevo da região e constatarem a direção do fluxo da água. O grupo foi  composto por 39 cientistas, que percorreram cerca de 7.000 quilômetros de rios amazônicos.

“É um caso único no mundo”, diz o hidrólogo francês Alain Laraque, autor das medições.  Com equipamentos de ponta, as aferições foram  as primeiras feitas no Cassiquiare em cem anos. São medidas de temperatura, condutividade elétrica, turbidez, pH, batimetria, velocidade da correnteza e localização por GPS (Sistema de Posicionamento Global).

Ao deixar o Orinoco, ele atinge velocidade e profundidade maiores que as do rio principal. Ali, sua largura é de 50 m e sua água é marrom. Depois de percorrer 320 km e receber inúmeros afluentes de água escura, o Cassiquiare vai mudando de cor, e atinge uma largura de 500 m ao encontrar-se com o Guainía, também preto.

Ambos são rios de planície, que retiram pouco sedimento de seus leitos. A cor escura de sua água deve-se à decomposição de matéria orgânica da floresta. São verdadeiros xaropes de plantas, com elevada acidez. Daí a escassa presença de peixes nessas águas.

Daí, também, a diferença em relação aos rios de montanha, como o próprio Orinoco e, depois, o Solimões. Este vem dos Andes peruanos e forma o Amazonas, ao encontrar-se com o Negro, gerando o famoso “encontro das águas”, na altura da cidade de Manaus (AM).

A região cortada pelo Cassiquiare é de planície, um enorme vale entre os Andes e o maciço da Guiana, onde estão as serras do Imeri, Parima, Pacaraima e Tumucumaque. É um parque nacional venezuelano, de selva amazônica, habitado principalmente por índios das etnias iecuana e ianomâmi.

A floresta, praticamente intocada, ocupa as margens do canal em toda a extensão. Como a maioria dos rios da região, o Cassiquiare é navegável na maior parte do ano por embarcações grandes. No período de menos chuvas na região (dezembro a março), sua profundidade diminui, dificultando a navegação. De qualquer modo, ele quase não é usado como meio de transporte entre Brasil e Venezuela.

Humboldt barrado
O viajante alemão Alexander von Humboldt percorreu a região e transpôs o Cassiquiare em 1800, chegando até a fronteira com o Brasil, já no rio Negro. Ali, foi detido pelas autoridades portuguesas e impedido de entrar no território brasileiro.

A expedição da UnB, 200 anos depois, prestou homenagem ao cientista, percorrendo o trajeto que ele fez e o que pretendia fazer. Seus dois coordenadores, o historiador Victor Leonardi e o biólogo Cezar Martins de Sá, ambos da universidade, afirmaram, à época,  que não esperavam resultados tão positivos no que se refere ao verdadeiro papel do canal do Cassiquiare na região.

Na parte venezuelana, a expedição contou com a participação da Universidade Simón Bolívar, uma das principais instituições universitárias da Venezuela. Um grupo de seus pesquisadores acompanhou as medições.

Até l950, o rio Orinoco era navegado apenas até poucos quilômetros acima do Cassiquiare, onde está a vila de La Esmeralda. É uma mistura de aldeia iecuana com missão religiosa católica e base militar. Acima dali, o rio tem muitas corredeiras, o que fazia supor que suas nascentes estivessem bem próximas. A rigorosa legislação venezuelana sobre a entrada de cientistas estrangeiros limitou pesquisas naquele país,

Foi só em 1951 que uma missão venezuelana localizou a nascente do Orinoco, 350 km acima de La Esmeralda, próximo à fronteira com o Brasil. Ela está a cerca de 200 km a leste do pico da Neblina. Nos dois lados da fronteira, há cerca de 15 anos, ocorreu um surto de garimpo, hoje bastante reduzido.

A última povoação não-indígena na entrada do Cassiquiare é uma missão da entidade norte-americana New Tribes. Há muitas aldeias indígenas, inclusive ianomâmis, em toda a extensão do parque. Só depois do seu encontro com o Guainía, formando o rio Negro, é que surgem povoações maiores.

As primeiras são as cidades de San Carlos de Rio Negro, do lado venezuelano, e de San Felipe, no colombiano. Menos de cem quilômetros rio abaixo, está o povoado de Cucuí, a primeira localidade brasileira, pertencente ao município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Há uma estrada de terra, com 240 km de extensão, ligando Cucuí à sede do município. Mas o rio continua sendo a principal via de transporte por ali.

Foto: Fatos Desconhecidos

ANOTE AÍ:

Este é um excerto do artigo publicado pelo jornalista Jaime Sautchuck no jornal Folha de São Paulo logo após a expedição, no ano 2.000. Os dados continuam desconhecidos, fascinantes, e atuais.

Foto: www.minube.com.br

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