Quarentena: Experiências de Solidariedade para Compartilhar

Por Elvira Eliza França 

No dia 26 de fevereiro deste ano, os meios de comunicação informaram o primeiro caso de infecção do novo coronavírus no Brasil, em São Paulo, trazido da Itália por um homem de 61 anos. O vírus mutante, surgido na China, tinha atravessado o oceano e chegava ao nosso país. Eu vinha acompanhando sua trajetória pela televisão e redes sociais e também recebia informações de amigos que vivem na Itália, Espanha e Filipinas.

Uma idosa paciente de acidente vascular cerebral (AVC), com 96 anos, que eu acompanhava em visitas domiciliares, desde maio de 2017, faleceu dia 29 de fevereiro, três dias depois da chegada da doença ao Brasil. Passadas duas semanas, soube que a filha dela estava muito gripada e, no dia 14 de março, fiz uma visita para realizar um procedimento com aplicação de luz em pontos da face (técnica de colorpuntura) para ajudar na recuperação. Essa atividade de visitar algumas pessoas em domicílio faz parte de um projeto de terapia voluntária que coordeno na Unidade Básica de Saúde da Família do bairro de Aparecida, com acompanhamento da médica Dra. Tatiana Arruda.

Apesar de ter me preparado, devidamente, com máscara e uso de álcool gel, nos dias que se seguiram comecei a sentir sintomas de gripe. Por isso, pedi meu afastamento e entrei em quarentena no dia 16 de março. Temia contaminar as pessoas que atendo, e queria minimizar o contato delas com outras pessoas doentes atendidas no local.

Em casa, meus contatos passaram a ser por meio de mensagens escritas e gravadas pelo WhatsApp e internet, repassando as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), acerca do isolamento social para prevenir a contaminação do coronavírus. Mencionava os cuidados com a higiene, procurando ajudar algumas pessoas resistentes a se manter em casa, especialmente as do grupo de risco. A amiga e doutora em biotecnologia Lídia Medina, professora de química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), havia me explicado que a camada de lipídios (substância gordurosa), que protege o vírus (aquela bolinha) é dissolvida pela ação do sabão, álcool ou água quente e isso desestrutura o vírus, que não consegue encaixar as proteínas (aquelas espículas pontudas) na célula, e assim ele não consegue se multiplicar dentro de nosso corpo nem nos adoece.

No dia 13 de março, o coronavírus chegou a Manaus, trazido por uma mulher com 39 anos que havia vindo de Londres. No dia 20 de março, recebi uma mensagem da missionária Nádia Vettori, ex-coordenadora da Pastoral da Criança da Arquidiocese de Manaus, que agora vive em Pistoia, na Itália, que dizia:

“[…] A natureza precisou de um aliado invisível, inimigo dos humanos, para ela mesma não morrer totalmente. A natureza, na sua sabedoria ancestral, nos diz que os mortos de agora são nada na frente da morte total dela, pois a morte da mãe terra levaria à morte a humanidade inteira. […] Ninguém corre mais, ninguém tem mais pressa…silêncio total…cidades, povoados, ruas vazias, casas fechadas quase a impedir a entrada do inimigo”.

Nádia relatava que a população italiana não tinha acreditado nos perigos do vírus. Por isso, os procedimentos tardios haviam afetado a saúde de muitas pessoas de seu país: “No início, ninguém acreditava, mas era, e é real. Somente neste dia de primavera, foram 793 os mortos. Mortos que serão cremados e os parentes não podem nem ver para a despedida final. Mortos que não são meros números. Mortos que são pai, mães, avós, filhos. Que são afeto, carinho, ajuda. Pessoas que saíram de casa, internadas e não foram mais vistas, não podiam ser visitadas e não voltarão para casa, a não ser numa pequena urna, pequeno punhado de cinzas. A dor de todos é grande demais! Nas cidades do Norte da Itália, os fornos crematórios trabalham 24 horas por dia e não dão conta. Por isso, os mortos são levados para outras cidades para serem cremados”.

A missionária ainda deixava um recado importante para os amazonenses: […] “Não se iludam: onde passa eles [os vírus] fazem suas vítimas. Parece que estamos vivendo num sonho preste a virar pesadelo e dos piores. Devemos nos manter fortes. Não podemos nos deixar tomar pelo medo, pois ele está na espreita para nos tomar a alegria e a esperança. Sobretudo ao entardecer quando, dos megafones das patrulhas que passam nas ruas, sai uma voz rouca, pedindo de não sair, mas ficar em casa. […] Manaus precisa de cada um de vocês, de sua fé, de sua esperança e vontade de vencer. Fiquemos unidos na oração e…SE CUIDEM! Estamos com vocês!”

Eu estava muito preocupada com a situação de outra idosa, paciente de AVC, que estava internada na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) de um hospital, devido a complicações renais e pulmonares. Ana Paula de Queiróz Hermida, 50 anos, sua filha, me mantinha informada e também transmitia gravações de áudio que eu enviava para sua mãe. Ele relembra:

“Eu parei de trabalhar no período de fevereiro, porque ia todas as tardes, do meio-dia até às 19 horas no hospital, porque minha mãe estava internada por infecção urinária, mas depois complicou para pneumonia e edema pulmonar. Ela era paciente de AVC e estava em coma. Logo no início, não tinha o pico de isolamento social e lá dentro do hospital não era necessário usar máscara. A partir do dia 15 de fevereiro, eu levava máscara e na UTI tinha uma pia para lavar as mãos com sabão e álcool gel para a gente se proteger. Também tinha que evitar andar pelo hospital. Só foi bloqueada a entrada na UTI uma semana antes dela morrer, por volta do dia 23 e 24 de março, e os acompanhantes tinham que ficar bem protegidos, com máscara, luva, e a visita era bem rápida. Eu e meus cinco irmãos nos revezávamos para pegar o boletim médico. Na saída, eu descartava tudo e ia direto para casa tomar banho, lavar a roupa e higienizar bem as mãos. No início, eu nem tinha muita preocupação com o vírus, pois minha preocupação era ficar com minha mãe no hospital. Quando começou o pico de mortes, ficou mais complicado para mim ter que deixar minha mãe sozinha para me proteger e protegê-la também”.

Eu via, com preocupação, as medidas tardias que estavam ocorrendo em Manaus. Na quarentena e isolada em casa, não tive condições de ir ao banco nem de fazer compras, porque a preocupação com a contaminação foi maior. Uma semana depois de ter iniciado a quarentena, mesmo tomando os devidos cuidados de higiene, acordei à noite sentindo meu corpo queimando por dentro, como se tivesse uma fogueira interna. Não tinha febre, mas a sensação interna era horrível e eu sentia muita moleza no corpo, sem ânimo para fazer qualquer coisa. Sentia frio e a mesma sensação se repetiu alguns dias depois, quando a enfermeira e a técnica de saúde vieram me aplicar a vacina para o vírus H1N1.

Como não tinha febre, fui amenizando os sintomas com os conhecimentos da medicina tradicional; uso de chás de plantas medicinais e alimentos naturais. Mas após dez dias de quarentena, começou a preocupação com a escassez de alimentos. Não sabia para quem pedir ajuda, porque as amigas próximas estavam na mesma condição que eu ou até pior, devido à gripe ou problemas de saúde de seus familiares. Eu temia expô-las ao riscos de contaminação, pedindo para fazerem compras para mim. Como não uso cartão de crédito, sequer tinha condições de fazer pedidos de delivery.

Vinha no meu pensamento que eu tinha que confiar e então, numa quinta-feira, 26 de março, uma ex-aluna do curso de Educação Artística da Universidade Federal do Amazonas – UFAM, onde atuei como professora até 1990, ligou para mim. Disse que sairia de casa para ir à universidade alimentar animais no laboratório, e perguntava se eu estava precisando de algo do supermercado. Relatei minha situação a ela, que se prontificou a me ajudar.

Maria Ermelinda Oliveira, 57 anos formou-se em biologia e doutorou-se em zoologia depois de concluir o curso de educação artística. Atualmente, leciona Parasitologia na UFAM e às vezes nos encontramos para fortalecer a amizade. Ouvindo a oferta, me emocionei com a atenção dela e senti muita gratidão quando me entregaram, na porta de meu apartamento, duas caixas com mantimentos e produtos de limpeza que ela havia comprado. Segui à risca as recomendações sobre o processo de higienização, num ritual que me ocupou várias horas, entre a limpeza de tudo e do apartamento também.

Com luvas e máscara, passei álcool nos produtos ainda na porta de casa, colocando as compras em uma grande bacia para lavar tudo no tanque com água e sabão. Chorava ao realizar o procedimento, sentindo gratidão e, ao mesmo tempo, pensando nas outras pessoas que estariam necessitando de tudo aquilo que eu tinha em mãos. Eu não comia bananas há duas semanas e lavei as frutas como se fossem os dedos de uma mão: fruta por fruta. Quando olhei tudo, a fartura fazia parecer que eu estava no período das festas natalinas.

Depois, liguei para Ermelinda para saber o que a havia motivado a me ligar naquele dia e se oferecer para me trazer aquela compra. Ela disse: “Eu acho um absurdo as pessoas que estão no grupo de risco estarem saindo pela cidade. Eu sei que você está nesse grupo e eu quis ajudar, assim como fiz com outras pessoas. A quarentena fechada, sem sair de casa, não existe para mim. Eu saio uma vez por semana para fazer supermercado e também para alimentar animais no laboratório. Estou estressada, mas não é porque estou em casa. Adoro ficar em casa, mas estou fazendo curso de veterinária em faculdade particular e faço aulas à distância. Tem muitos trabalhos para realizar. É um estresse, porque tem agendamento e você tem que mandar os trabalhos no tempo estabelecido. Na próxima semana vai ter prova e por isso tenho que ficar na internet o tempo todo, e às vezes cai a internet e interrompe o estudo”.

Falei sobre o tempo gasto com a limpeza dos produtos e ela complementou: “Eu também: quando tenho que sair, eu gasto muito tempo higienizando tudo. Eu gostaria de ter tempo para ler, para fazer outras coisas, porque eu fico muito sobrecarregada. Como professora da UFAM, temos que manter os experimentos e continuamos a orientar os alunos pelas mídias disponíveis, elaborando plano de trabalho para expor para a instituição o que estamos fazendo na orientação à distância. A gente tem problemas, porque os alunos nem sempre têm internet em casa para manter os estudos, porque são carentes. Os que têm, precisam dividir o tempo com outras pessoas da família para fazer uso de um único computador. Isso estressa muito eles e a gente também. Quando chego em casa, tem todo o ritual de higienização, que tem que ser cuidadoso, porque também faço parte do grupo de risco: tenho um rim apenas, sou hipertensa e tenho cardiopatia congênita”.

Eu não me lembrava dessa condição de saúde de Ermelinda e senti ainda mais gratidão pelo que ela havia feito por mim e por outras pessoas a quem estava ajudando. Então, mais uma vez, ela repetiu ao telefone: “Não saia para fazer compras, por favor, porque é muito arriscado!”.

Fotografia do Ensaio Insulae de Raphael Alves sobre a crise da COVID-19, em Manaus

No início da campanha de vacinação da gripe H1N1, dia 23 de março, atuei fazendo apoio à distância, repassando informações às pessoas que atendo e dando orientações a pessoas amigas. Informava sobre as visitas que seriam realizadas na casa dos idosos da comunidade e sobre o cadastro no site da Secretaria Municipal de Saúde para visitas a outros idosos, assim como locais da cidade onde as vacinas seriam dadas para idosos em automóveis, além das datas para outras pessoas se vacinarem.

Quando a enfermeira Lusia Prado de Sousa, 55 anos, da unidade de saúde onde atendo como voluntária, veio me vacinar com a técnica de enfermagem Aline Passarinho, 43 anos, elas também vacinaram outras pessoas idosas do condomínio, com o apoio da subsíndica Eloíde Barbosa Cardoso, 63 anos, de porta em porta. Além disso, trouxeram várias sacolas de compras de supermercado para mim. Foi uma emoção intensa, ver a chegada delas, olhando pela varanda de meu apartamento e sentindo gratidão pelo que estavam fazendo pelos idosos da comunidade. Eu estava me sentindo triste por não estar atuando com elas como fazia em outras ocasiões.

A enfermeira Lusia é do Ceará e veio para Manaus em 2000, após um período de cinco anos atuando em área indígena no Acre, com povos Kulina, Ashaninka, Kampa, Kaxinawá e outros. É enfermeira obstetra intensivista e tem grande experiência no atendimento de mulheres e grávidas na unidade de saúde. Antes da vacinação, devido ao estresse no trabalho e falta de tempo para cuidar de si mesma, adoeceu, mas mesmo assim dizia que não poderia deixar sua missão de salvar vidas. Por isso, durante a vacinação estava ela lá, com as demais heroínas da equipe de saúde, imunizando a população de idosos da comunidade.

Ela conta como foi o desafio: “A campanha foi muito cansativa, batendo de porta em porta, nas casas das pessoas do bairro de Aparecida, atendendo aos idosos acima de 60 anos, depois as pessoas que fizeram agendamento no site da secretaria de saúde. Muitos idosos eram acolhedores, enquanto que outros eram muito arredios, sendo necessário falar sobre a importância da vacinação para convencê-los a se vacinar, o que demandava mais tempo. Nosso desafio maior foi andar em lugares onde tínhamos que passar por pontes de madeira lisas e escorregadias, becos estreitos com difícil acesso, andando na chuva, no sol quente, usando todos equipamentos necessários como: capote, gorro, máscaras, jaleco para identificação da equipe de saúde, o que nos deixa sufocados, porque ainda carregamos isopor com as vacinas, que é muito pesado, devido à quantidade de gelox para conservação”.

Esse desgaste e excesso de exposição às condições favoráveis para contaminação fizeram com que Lusia e outras pessoas da equipe adoecessem da covid-19. E como o trabalho era intenso em todas as unidades de saúde da cidade, não havia ninguém para fazer a substituição. Posteriormente, duas pessoas da equipe, que estavam no grupo de risco entraram em quarentena, para evitar adoecimento também.

Felizmente, os idosos da comunidade não saíram à rua para tomar vacina. Aleth Ramos Libório, 65, professora aposentada, a quem visitei antes de entrar em quarentena, conta como estava enfrentando a situação: “É difícil porque a gente não pode sair. Eu logo peguei a gripe e melhorei. Quando tomei a vacina em casa, não estava mais gripada. Aqui em casa não estamos saindo não, e só sai quando é necessário. A gente está lavando bem as mãos, tendo cuidado. Se alguém está meio gripado, então usa máscara e toma muito cuidado com a higiene. Eu até separei toda a minha louça e disse para minhas sobrinhas não virem aqui, porque não quero mais outras pessoas aqui em casa. Nós dispensamos até a secretária, porque ela anda de ônibus e sabe lá… Demos férias para ela”.

O irmão de Aleth tem um ponto de comércio no cômodo da frente da casa, que serve pessoas da vila onde ela mora. “Meu irmão vai no supermercado comprar as coisas e só compramos o necessário mesmo. Não se sai para ficar comprando toda hora. Emocionalmente está sendo difícil, porque não temos a liberdade de estar livres. Aqui na vila, teve uma moça que foi internada no hospital com Convid-19 e está há muitos dias. Eu ouvi dizer que tem mais pessoas doentes, mas não tenho certeza. Temos álcool gel no comércio e tem gente que quer ficar bebendo [cerveja]. Meu irmão vende as coisas pela janela e a gente fica preocupada, porque é um vírus e a gente não sabe quem está contaminado. Ele não aceita deixar a pessoa beber aqui.”

Pelo telefone, a amiga Lídia Medina, professora de Química da UFAM, que me deu muitos esclarecimentos sobre o coronavírus, também me relatou como estava realizando a quarentena: “Essa mudança de ficar trabalhando em casa, me deu possibilidade de colocar em dia as leituras e também passei a me dedicar à parte artística na execução do violão. Eu fui professora de violão, mas estava afastada da prática musical e então, na quarentena, voltei a estudar as músicas. Também tive mais tempo para realizar pesquisa bibliográfica dos trabalhos científicos da minha área de conhecimento. A internet não tem continuidade e tem muitas interrupções a todo momento e tenho que esperar, porque não tem como resolver”.

Lídia também exerce a função de síndica no condomínio onde mora, e encontrou dificuldades com alguns dos moradores. “Os desafios estão na falta de obediência às normas para ocupação da área de lazer: churrasqueira, piscina, academia. Todos os condomínios receberam orientação para interdição dessas áreas e os moradores estavam resistindo a obedecer à norma. Foi necessário acionar a parte jurídica para tomar as providências. O pessoal da área da saúde entrou em contato conosco e fizemos a lista dos condôminos com mais de 60 anos e eles vieram vacinar os moradores na porta dos apartamentos, o que foi muito eficiente.”

Ao ouvir a amiga falando sobre música, recordei-me do ex-aluno do curso de educação artística, o flautista Ederval Lima dos Santos, 59 anos, que desde 2016 trabalha no Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia do Amazonas (IFAM) de Maués, interior do Amazonas. No período em que eu dava aulas de flauta-doce na faculdade, ele fazia parte do grupo, tocando flauta transversal. No final de ano, saíamos pela cidade tocando músicas natalinas nas casas das pessoas, igrejas, praças e outros locais. Era uma experiência muito bonita fazer as pessoas pararem o que estavam fazendo para ouvir a nossa música e sentir o espírito natalino de outra maneira.

Eu havia reencontrado Ederval em fevereiro e havíamos combinado de tocar música novamente. Fazendo quarentena no interior, ao telefone ele me contou como estava: “Estamos em home office, trabalhando em casa, desde o dia 18 de março. Tem sido um bocado difícil, por causa da internet ruim e porque nem todos os alunos têm como acessar esse meio e então não tem sido muito fácil. Além de leituras, assisto filmes e preparo as aulas com os conteúdos da internet, de preferência para serem acessíveis aos alunos. Na realidade, tenho aproveitado bastante para estudar flauta e tenho me dedicado a isso e aproveitado para pesquisar e fazer arranjos para o projeto da Banda Musical do IFAM. Tenho muita coisa para fazer e não posso ficar só comendo (risos). Eu estou só e minha família toda está em Manaus. Vamos tocar flauta juntos quando tudo isso acabar”.

Durante a quarentena, muitas vezes me emocionei com a situação das pessoas desrespeitando as orientações do isolamento social. Meu principal desafio foi convencer meu pai, Nicola França, com 93 anos, que mora em São José dos Campos – SP, a ficar em casa. Eu ligava para ele e quando ele atendia eu ouvia barulho de rua. Ele pegava o carro e saía como se nada estivesse acontecendo. Foram necessárias várias ligações e muita conversa para convencê-lo sobre os riscos que estava correndo. Minha irmã, a esposa dele e outros parentes também conversaram com ele sobre os riscos de se contaminar e adoecer. Depois que um policial pediu para ele voltar para casa, ele sossegou. Nesse processo de monitoramento, nos reaproximamos mais.

Raimunda Mirtes de Lima, 63 anos, técnica de enfermagem na unidade Deodato de Miranda Leão, costumava ajudar o irmão no Café do Divino, no Bosque do Mindu, no Parque Dez, em Manaus. Agora, na quarentena, ela diz que se sente como uma “presa sem tornozeleira”.

“A gente está acostumada a fazer as coisas da gente, ver os amigos, parentes, e fica triste, porque não pode nem chegar perto das pessoas. A gente tem que se cuidar e nem os parentes querem ver a gente doente. Eu tomo direitinho insulina para diabetes e pra pressão só às vezes, porque às vezes a pressão é difícil aumentar e eu quase não como muito sal, tempero ou coisa oleosa. Como mais fruta, mas também evito, e tapioca eu como sem nada. Faço chá de noite e não como nada pesado. A gente fica com medo 24 horas, porque pode acontecer na casa ao lado, ou com um parente meu. Não é normal para ninguém; não é para o novo, e muito mais para o idoso. Isso é uma resposta de Deus que Ele está dando para a gente”.

“Lá no meu trabalho, eles ligam para saber como a gente está, mas fiquei triste porque uma doutora está internada. Ela trabalhava muito e a pessoa que é médico não pode adoecer. Só que as pessoas não aceitam que fiquem doentes. Quando o médico falta é porque não está podendo ir, mas tem muita gente egoísta e não aceita. Todos da área da saúde estão lá se arriscando. Mandaram os mais idosos para casa e estão lá no dia-a-dia. Se não tiver médico para atender, vai morrer todo mundo.”

Fotografia do Ensaio Insulae de Raphael Alves sobre a crise da COVID-19, em Manaus

Dentre as pessoas mais próximas, a religiosa católica, Irmã Maria Alzira Fritzen, 77 anos, da Congregação de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, também enfrenta o desafio da quarentena. Ela trabalha com o povo em situação de rua, com as pessoas mais pobres da nossa sociedade, que estão mais ameaçadas com a pandemia. Irmã Alzira também atua como membro do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do Amazonas – CONSEA e não poder sair de casa passou a ser um grande desafio. Ela conta como se precaveu da contaminação, quando viajou de avião no começo de março, e como está ocupando seu tempo no tempo presente:

“Eu fui para São Paulo celebrar o aniversário da colega Irmã Anne Bribosia, companheira de trabalho em comunidade de Manaus por mais de 30 anos. De 9 a 19 de março, estava em Cambuí, Minas Gerais, ajudando no sítio Takahashi, uma comunidade religiosa. Na hora que eu ia sair de casa para o aeroporto, vi na internet como fazer máscaras e então peguei duas folhas de papel toalha, o grampeador e duas ligas e fiz a minha máscara. Imediatamente, uma amiga pegou uma caixa de máscaras, pela metade e me ofereceu. Lá no sítio onde eu fiquei em Minas, eu acompanhava, pela internet, tudo o que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Na hora que eu desci do táxi e entrei no aeroporto, eu coloquei a máscara. Eu estava consciente do momento que estávamos vivendo no mundo e a maioria das pessoas estavam usando máscara. Fiz o mínimo de trajetos no aeroporto e meu drama, na sala de espera, foi que eu estava com fome. Mas minha consciência dizia para não pegar dinheiro em troco, e aí eu lembrei do cartão do banco e eu coloquei e tirei da máquina; tomei o cafezinho com pão de queijo e fiquei aguardando a saída do avião”.

A religiosa conta que o avião não estava lotado e saiu na hora marcada. A empresa aérea deu orientações e não deixava embarcar quem estivesse com febre ou gripe. “No avião, ofereceram apenas um copo de água e só comi o que havia levado na bolsa e fiquei usando máscara o tempo todo”. Irmã Alzira não estava preparada com álcool gel na bolsa, mas assim que chegou na vila onde mora, uma vizinha entregou para ela uma embalagem com álcool gel.

“Eu sabia que ia ficar em casa e assumi ficar em casa. A primeira coisa que aconteceu foi ficar rodando em casa, sem saber o que fazer. Eu sou uma mulher que vive na rua e tinha que me conscientizar de que meu santuário era a minha casa. Eu cuidava de tudo e só saía para a taberna aqui pertinho e para jogar o lixo. Aí, minha irmã que é artesã em Esteio do Rio Grande do Sul, me ligou e disse que estava fazendo máscaras de pano e me enviou o modelo. Eu também pesquisei outros modelos e fiquei incentivada a produzir máscaras. Eu tinha muitos restos de pano em casa e também pedi dos vizinhos. Eu não tinha elásticos e ganhei de uma vizinha que é costureira”.

Foi assim que Irmã Maria Alzira passou a preencher seu tempo, produzindo máscaras de tecido. “Com tudo o que eu achei em casa, eu fiz 200 máscaras e 173 já foram entregues. As primeiras foram nas vizinhanças, depois para as secretárias das paróquias, para os padres e para os bispos. Fiz também para os colegas de trabalho com o Povo em Situação de Rua que continuam com essa população excluída e fiz também para comunidades religiosas. Eu não saio para entregar, mas o tempo todo tem gente que fica sabendo da produção vem pedir para si e para outros. As vizinhas e outras pessoas, que sabem que eu estou fabricando as máscaras, vêm aqui pedir e todo mundo recebe a sua. Eu me conscientizei que tinha que ficar em casa para o meu bem e para o bem das outras pessoas. No beco onde eu moro, tem uma mulher grávida, que está internada na UTI e entubada com o coronavírus há muitos dias. A caixa de máscaras que recebi em Cambuí Minas Gerais serviu para a família dessa vizinha, além das máscaras de pano que fiz e dei a eles”.

Acostumada a assistir à missa todas as tardes e nos finais de semana, Irmã Alzira passou a assistir à missa pela televisão e internet. “Hoje, o celular é uma riqueza, porque me acompanha em todos os cantos da casa, para não ficar depressiva e não me entregar no que estamos passando e que vai passar. Eu estou sem resposta até hoje, porque Deus não está respondendo para nós, e o planeta está gritando”.

A religiosa contou que os tecidos estavam no final e ela estava remendando os paninhos para fazer mais máscaras. Então, juntei várias peças de tecido e elástico que tinha em casa e, com o apoio do senhor João Carlos de Souza Pinheiro, 54 anos, trabalhador de meu condomínio, fiz o envio de uma sacola com tecidos para ela. Depois disso, ela produziu outras máscaras, numa produção que totalizou mais 400. Ao receber a sacola, também me enviou algumas máscaras para eu utilizar e foram muito úteis porque podem ser lavadas.

Depois de Ermelinda, outros amigos vieram à porta ou pediram a alguém para trazer seu apoio fraterno durante a minha quarentena: Dra. Tatiana Arruda, Nádia Saraiva, Iris Brasil, Brigitte Nichthauser, Paulo Benevides, Rosângela Alanis, Jefferson Rebello e Lídia Medina. À distância, Tereza Aiko Tanino e Vera Lúcia Marques Ferreira também me apoiaram. Outros amigos, até mesmo com quem eu não tinha contato há anos, me ligaram e enviaram mensagens e ofereceram ajuda quando eu precisar, mantendo-me conectada socialmente. Tudo isso me ajudou e continua ajudando, principalmente quando fico sabendo sobre os falecimentos. Nas minhas preces diárias, agradeço e peço saúde a todos os seres humanos, conhecidos e desconhecidos, e ofereço minha energia espiritual para que o planeta tenha saúde e que se multipliquem os compartilhamentos de solidariedade, principalmente para os mais pobres e os indígenas, devido à condição mais vulnerável em que se encontram.


Fonte: Amazônia Real 


Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, pós-graduanda em Neurociência e Comportamento pela PUC (RS), especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação Social pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP).  É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educacão: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).

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