Certo dia deparei-me com uma questão inusitada: uma autoridade quis saber se eu tinha conhecimento sobre os “brancos” estarem comprando rapé dos indígenas para  e misturar com cocaína a fim de vender nas cidades , assim, prender seus usuários no costume e, por conseguinte, aumentar as vendas.

Confesso que fiquei com vontade de rir da pergunta, mas, como não se tratava de uma conversa informal, e sim de uma reunião formal, controlei essa vontade minha. Tentei, em linhas gerais, explicar ao inquiridor sobre esse produto, que faz parte das chamadas “medicinas” dos povos indígenas, não só de nossa região como, também, de várias partes da América.

Expliquei, ainda, os diferentes “tipos” de rapé que hoje são vendidos por quase todos os povos indígenas de nossa região e também por algumas comunidades da floresta, como os extrativistas. Argumentei, ainda, sobre a impossibilidade de ser feito este tal batismo, haja vista a reação física que o uso do rapé me causa. E assim, dado por satisfeito com minhas explicações, encerramos o assunto.

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Dias depois, entendi qual a motivação da preocupação com o chamado “rapé batizado”. Disseminou-se na região do Juruá que os jovens estavam usando o produto misturado com folha de coca moída. Realmente não duvido que alguém tenha tido tal ideia, mas, achar que cheirar, beber, tomar banho ou qualquer outro meio de consumo da folha de coca seja a mesma coisa que usar cocaína, aí já é demais, certo?

Confesso que não sou adepto do uso do rapé, cuja designação francesa  diz muito pouco sobre sua verdadeira essência para os povos indígenas, e que, aliado com outras importantes medicinas naturais, como a sananga, o kambô, o Uni e o ananate, compõem a farmácia de possibilidades de equilíbrio, tratamento e cura do espírito e do corpo.

Minha indisposição para com seu uso em minha pessoa tem mais a ver com questões físicas. Sempre tive problemas com qualquer coisa que precise ser introduzida ou ingerida via nasal, de maneira que nem soro eu uso para me livrar de minha eterna sinusite.

No entanto, em caso de festividades nas aldeias  não recuso, quando conduzido por mãos leves à presença do tipi para receber minha dose tradicional, necessária para inserir-me totalmente na festividade.

O uso social do rapé há muito extrapolou as fronteiras das aldeias e os centros esotéricos, vindo a tornar-se cada vez mais o produto de uso social no meio urbano, devido às restrições quanto ao uso do cigarro. E vem se tornando moda principalmente entre os jovens.

Aqui no Juruá são muitos os relatos, inclusive em jornais locais, sobre estudantes que levam seu potinho de rapé e seu curipe para a escola tornando-se foco de discussões e preocupações entre os gestores, alguns destes já procuraram informações junto à FUNAI para que obtivessem mais esclarecimentos.

Esses batem na tecla, e com certa razão que, pela lei brasileira a venda e consumo de tabaco são vetados a menores de idade. E, sendo este produto oriundo do tabaco, o mesmo deve ser restrito ao uso de adultos.

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Muitos grupos ditos “alternativos”, como as comunidades esotéricas que utilizam o chá sagrado e demais pessoas que procuram trilhar caminhos mais naturais e alternativos, também estão no rol de usuários. Também entre os indígenas seu uso cresceu bastante nos últimos anos, tornando-se comum vermos nas aldeias os que andam sempre com um curipe  preso ao pescoço ou um tipi  sobressaindo-se de dentro de suas bolsas.

É indiscutível sua importância terapêutica, social e cultural para os povos indígenas, assim como não se põe em dúvida seu lugar de destaque para os usuários não indígenas que apreciam seu uso. O problema, a meu ver, é quando essa utilização torna-se um vício ou seu preparo passa a extrapolar o tradicional e entra na perigosa seara do experimentalismo.

Não se trata de defender falsamente que este só deveria ser usado em rituais ou seguindo as dietas e preparações espirituais dos povos indígenas. Eu não seria tão ignorante para achar isso. O foco de minha observação é outro.

O rapé, além de medicina tradicional, representa uma verdadeira ciência dos povos indígenas, tendo toda uma mística em seu feitio e aplicação. E até quando utilizado socialmente, não se desliga de sua natureza mística. Isso porque os indígenas quando o usam, atentam para algumas “regras” básicas que instintivamente seguem. É algo que está presente no momento em que pegam seu curipe ou o tipi.

Nessa ciência, as técnicas de uso vão desde o sopro até os pensamentos e energias que devem ser utilizadas no uso. Ou seja, não se trata só de “soprar com mais ou menos força”, e as consequências deste uso podem ser benéficas, quando bem utilizadas, ou altamente negativas para o yuxin do indivíduo, quando não se seguem os ritos específicos.

Mas, sabe como nós yurá, somos né? Como já citei em textos anteriores, na opinião de alguns velhos e sábios txai é impressionante, como a coisa banaliza-se ou torna-se totalmente superficial quando passa a ser praticado pela nossa sociedade. Ou seja, quando se torna a moda new age do momento.

Uma coisa que me chama muito a atenção nessa sociedade yurá é a eterna carência em se ter mestres ou gurus disso ou daquilo. Sempre precisando de um guia que instrua e mostre os caminhos a seguir. Já vi algumas figuras apagadas e confusas que andaram fazendo vivências nas aldeias daqui e que, tempos depois, passaram a ter seguidores e a serem chamados de “padrinho” ou mestre quando voltaram às suas cidades. Acreditem.

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E o que isso tem a ver com o rapé? Bem, creio que tem muito a ver.

Observo que estes ditos “mestres” sempre alardeiam o mesmo roteiro de vida: receberam o conhecimento milenar das mãos de algum grande xamã (ou pajé ou mestre) que revelou os segredos de seu povo e que o entregou. A partir daí tornam-se especialistas em uso, tratamento e cura com determinada medicina tradicional indígena. Claro que, por um preço, muitas vezes bem salgado e com resultados quase sempre duvidosos.

Se alguém tem dúvida do que estou querendo mostrar, basta fazer uma busca na internet usando a palavra “rapé”. Tenho certeza que irá encontrar um bocado de “mestre” oferecendo seus produtos, feitos a partir dos conhecimentos aprendidos junto aos “mestres guardiões indígenas” ou, ainda, promovendo eventos onde, entre os rituais, o rapé também tem destaque.

Não quero também dizer que só os indígenas sabem fazer e aplicar um rapé, ou que rituais com esta medicina só são verdadeiros se for um indígena a praticá-los. Nada disso. Só que, infelizmente, nos dias atuais, os conhecimentos e rituais tradicionais vêm se tornando cada vez mais “produtos de mercado” com um bocado de gente se dizendo “mestre”.

Assim, fica mais difícil atestar a veracidade ou qualidade dos mesmos, de maneira que, em caso de dúvidas, “fique com o original”, ou seja, confie mais na fonte do que no atravessador ou “discípulo” que se tornou mestre.

Na verdade, esse papo de guardião disso ou daquilo, “segredos milenares” guardados e “mestre do conhecimento tal”, nem faz parte da lógica espiritual dos povos indígenas. Essas palavras só são inteligíveis para nossa sociedade, fantasiosa e carente de heróis e de guardiões.

Para muitos dos povos do Acre os que dominam estas medicinas são chamados, tradicionalmente de “conhecedores de…”. Afinal, mestres (ou mestras) e guardiões (ou guardiãs) são os seres divinos e sagrados da floresta, como a jibóia Yube, a aranha Atxomongiro, o Inka, as cobras Nõki e Hampitõki, entre outros.

O rapé indígena, como qualquer outra medicina indígena, deve ser usado com bom senso, equilíbrio e parcimônia, afinal, mesmo quando usado socialmente, este não se desvincula totalmente de sua finalidade. Também é importante lembrar que a matéria prima de sua fabricação é o tabaco e, como tal, pode sim viciar e trazer problemas de saúde quando usado em demasia ou de maneira errada.

Os povos indígenas fazem diferentes tipos de rapé, com finalidades específicas. No entanto, já vi alguns casos bem esquisitos de misturas como o uso do kambô na receita. Claro que existem as receitas tradicionais de feitura, com seus ingredientes definidos e conhecidos ao longo de gerações, mas também, não causa estranheza haver variações destas receitas. O cuidado está somente em atentar para possíveis “restrições” de seu uso, caso o mesmo seja muito forte ou tenha mistura que não sejam para uso de todas as pessoas.

Quando ganho um pouco de rapé, sempre pergunto que tipo é, qual a sua finalidade de uso (se é medicinal, se é para uso diário, etc) e possível restrição que este possa ter, tipo: ei txai! Este é muito forte? Pois tenho problemas de pressão baixa e não posso usar rapé muito forte, pois passo mal.

A venda deste produto ao mesmo tempo em que vem crescendo, também vem gerando, além de certa riqueza para alguns poucos, bastante discussão em algumas comunidades que começam a se sentir incomodadas vendo o nome de seu povo utilizado para dar mais status e legitimidade ao produto. Explico: às vezes, um membro da comunidade produz e começa a vender muito rapé, não só em sua cidade como, também, fora do estado.

Na identificação do produto o indígena não usa o seu nome, usa só o nome do povo, de maneira que aquele produto passa a ser conhecido como um produto de seu povo, mas o lucro pela venda não é distribuído ou compartilhado, no entanto, o ônus que pode advir recai sobre toda a comunidade.

Uma estratégia começou a ser refletida por algumas comunidades que já procuram meios de “patentear” certos produtos tradicionais, como o rapé. Inclusive algumas já estão avançadas no estudo jurídico com este fim. Tenho discutido com algumas lideranças a ideia de, em vez de patente, constituir um “selo indígena” para seus produtos, como o rapé. De maneira que não só haja o reconhecimento da procedência do produto como, também, a proteção do conhecimento tradicional daquele povo.

Aqui, na terra de Galvez, este crescimento na procura e na venda vem gerando certos constrangimentos quando, por vezes, há a apreensão do produto nos aeroportos ou rodoviárias quando este é levado por indígenas para outras localidades ou outros estados.

Se por um lado o indígena justifica ser este um produto de uso tradicional e, por isso, tem o direito de levar consigo para onde for, por outro, as autoridades responsáveis pelo controle de circulação justificam que as quantidades que são embarcadas estão muito acima de um consumo particular e, por isso, quando localizadas, podem e devem ser apreendidas.

Essa situação vem se agravando e as comunidades estão estudando e desenvolvendo práticas de venda e envio do produto dentro das regulamentações hoje existentes, dando mais garantia e segurança tanto para o indígena que vende, quanto para a pessoa que mora noutro estado e que tem o interesse em adquirir o produto.

A prática comum por aqui é que, quando o indígena viaja para divulgar sua cultura, realizando alguns rituais tradicionais, costuma levar consigo sempre uma quantidade deste produto e de outras medicinas, para que possa vender e divulgar entre os interessados.

O rapé indígena do Acre vem ganhando muitos apreciadores pelo Brasil, que o consideram especial, forte e de efeito muito mais duradouro que o comumente vendido em tabacarias ou disponíveis em demais casas onde se vende este produto.

Este aumento na procura pelo rapé deve ser visto além de seu uso espiritual. É obvio que a qualidade e os efeitos do produto fazem com que haja este fenômeno de venda e seus usuários não se importam ou não se atentam para a questão espiritual ou os fins específicos a que este produto se destina. Querem usá-lo e pronto.

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Não se justifica criminalizar ou reprimir os indígenas por venderem aos interessados nos meios urbanos, pois, não cabe a estes fazer campanhas de informação sobre o uso de produtos oriundos do tabaco, assim como este, quando usado as receitas tradicionais para uso social, não possui restrições físicas que venha impossibilitar seu uso.

É válido deixar claro que nem todos os povos indígenas daqui o utilizam socialmente, mantendo seu uso restrito às práticas espirituais tradicionais, ligado diretamente a seus rituais de cura sob responsabilidade do pajé. O aumento de seu uso nas aldeias também não é nenhum fenômeno que traga preocupações para a manutenção da cultura, ao contrário, incorpora-se em sua dinâmica.

Por outro lado, seu uso ritualístico também vem ganhando espaço junto às irmandades e demais centros espirituais e esotéricos pelo Brasil e fora deste. Aí a questão é outra. Em minha opinião, para usá-lo tem sim que ser conhecedor de sua ciência, pelo menos no que diz respeito a suas regras básicas. Afinal, como qualquer medicina que vise o equilíbrio espiritual há de se ter muito cuidado ao manejá-la.

Também, para estar em sintonia com a mística indígena, não é obrigatório utilizar todas as medicinas tradicionais. Por exemplo, conheço um grande pajé curador que não usa rapé, mesmo sendo este muito usado e apreciado em sua comunidade. Eu, particularmente, prefiro um bom nixi pae (ritual do huni), sem ser necessário incrementar sua força e ensinamentos com o rapé, preferindo usar meu velho e companheiro cachimbo, com um bom dumê (tabaco).

Diferente do Dalai Ilama, que morre e reencarna sabendo quem foi no passado, nenhum indígena nasce pajé ou especialista neste ou naquele conhecimento, estando sempre em processo de estudo de sua tradição. Por isso, quem tem interesse em conhecer, é preciso “pegar leve” quando quiser experimentar uma aplicação ritualística desta medicina mesmo sendo um índio a aplicar e, principalmente se este for muito jovem. É o conselho que sempre dou quando acompanho alguém a uma aldeia e esta pessoa deseja experimentá-lo.

O excesso de uso no meio urbano, além de desaconselhável, cria situações desagradáveis, pois, assim como a fumaça venenosa do cigarro incomoda, e por isso não se pode usar em locais públicos fechados, os mucos e outros fluidos corporais expelidos quando se usa o rapé não são nada agradáveis de observar quando se está conversando com alguém, principalmente em uma sala fechada.

Os excessos nunca são bons, assim como nos ensina Aristóteles: O excesso e a deficiência são uma marca do vício e a observância da mediania uma marca da virtude.

 

ANOTE AÍ:

jairo-xapuri

Jairo Lima, o autor desta matéria, é indigenista, radicado em Cruzeiro do Sul, Acre. Além de parceiro da Xapuri, Jairo publica seus escritos em seu próprio blog: cronicas indigenistas http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/ 

Curipe – aplicador individual de rapé

Tipi – aplicador de rapé mais longo, para ser usado por outra pessoa

Rapé  – é uma palavra francesa, que significa “ralar”, “raspar”.

As fotos internas desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima, e são de:

  1. Assis Kaxinawa
  2. Tashka Yawanawa
  3. Tashka Yawanawa
  4. Autoria desconhecida

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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