Um pouco da luta secular dos seringueiros nas florestas do Acre antes das lutas de Chico Mendes…

 Por Gomercindo Rodrigues

A Amazônia sempre foi objeto de cobiça, desde o “descobrimento” do Brasil. Ainda no século dezesseis, espanhóis fizeram as primeiras viagens pelo rio que ganhou o nome de Amazonas porque, segundo contam, enquanto subiam o rio, encontraram populações indígenas que seriam de mulheres cavaleiras, e passaram a denominá-lo “rio das amazonas”.

A imensidão da floresta e seus segredos despertava a cobiça porque todos imaginavam que numa região tão rica de árvores, maiores riquezas estariam escondidas em seu subsolo. Estavam certos, como prova a atualidade (ouro na terra dos Ianomami, em Serra Pelada, na serra de Carajás, onde além de ouro existem dezenas de outros minerais, alguns, inclusive, importantes para a fabricação de combustíveis nucleares; manganês, caulim, bauxita, etc.

Praticamente tudo saqueado, especialmente durante o governo militar, continuando nos governos civis pós-ditadura). Começava aí o mito da “Amazônia, o grande eldorado”, que foi cultivado por todos os séculos seguintes, até chegar ao século XXI, cada vez mais forte.

A história da ocupação da Amazônia pelos seringueiros tem cerca de um século e meio. Nas muitas viagens exploratórias que foram feitas pela região amazônica, um produto de grande elasticidade, usado pelos seus habitantes milenares, os índios, chamou a atenção dos aventureiros: era a borracha natural, produzida a partir da extração do látex de uma árvore regional, que mais tarde passou a ser chamada de seringueira (Hevea brasiliensis). Os exploradores pensaram que aquele produto poderia ter algum valor comercial na Europa, onde estava em curso a “revolução industrial”.

A borracha, descoberta e enviada para a Europa, passou a ter múltiplos usos, e cada vez mais, na medida em que novas tecnologias eram descobertas: a vulcanização (por Charles Goodyear), os pneumáticos (descobertos por acaso por Dunlop, um veterinário), entre outras.

Essas descobertas, aliadas à necessidade da indústria nascente no continente europeu, de correias de transmissão que tivessem maior durabilidade e resistência e, mais especialmente, de uma matéria prima com múltiplos usos, criou um mercado muito grande para a borracha produzida na Amazônia, só que, aí, os índios não a produziam em escala comercial, como exigia a indústria. Era preciso, então, que houvesse uma população que se dedicasse exclusivamente à sua produção, de forma a atender às exigências do mercado consumidor.

Foram, então, incentivados os primeiros fluxos migratórios de populações do nordeste brasileiro para a Amazônia e foi montado todo um sistema de trabalho comercial, o “aviamento”, para financiar a instalação dessas populações.

Já em meados do século XIX era grande a quantidade de migrantes nordestinos estabelecidos na floresta amazônica, mas a “história oficial” ensina que o grande responsável pelo fluxo em massa de nordestinos para esta região foi a grande seca que assolou o nordeste brasileiro por volta de 1877. Nada mais mentiroso.

Isso foi, apenas, um motivo a mais. O que incentivou o fluxo migratório foi o interesse industrial, especialmente inglês. Aliás, interesse que está por trás de grandes catástrofes na América do Sul no século XIX, como, por exemplo, a Guerra do Paraguai e, que, como veremos um pouco mais adiante, não mediu as consequências de sua ganância, com o plantio de milhares de hectares de seringueiras no sudeste asiático, com repercussão funesta para as populações amazônicas até os dias de hoje, o que se configurou na primeira grande ação de biopirataria na Amazônia brasileira.

Os seringueiros, por sua vez, quando saíam do nordeste, vinham com a promessa de enriquecimento rápido, pois a borracha era o “ouro branco”, e a vontade de voltar o mais depressa que pudessem para sua região, ricos, para não enfrentarem mais o problema da seca.

Quando chegavam à Amazônia eram selecionados pelos seringalistas, ou “patrões” que detinham a posse de imensas áreas de floresta. Eram os famosos “coronéis de barranco”, pois os seringais eram distribuídos, normalmente, ao longo dos rios, único “caminho” para penetrar no seio da floresta.

Desde o momento em que eram escolhidos, praticamente comprados, passavam a dever ao seu novo “patrão” da passagem da saída de seu local de origem até a chegada ao seringal, bem como todos os utensílios necessários para a sua instalação na colocação e o início do “fábrico”, ou seja, da produção de borracha.

Os seringalistas, por sua vez, eram “aviados” (financiados e abastecidos) pelas “casas aviadoras”[1] (em grande parte ligadas ao capital industrial inglês) e tinham de, anualmente, entregar sua produção a esses financiadores.

A relação entre o seringalista e o seringueiro era escravista, pois o seringueiro somente poderia vender o fruto de seu trabalho, no caso a borracha que produzisse na colocação, ao dono do seringal e deste tinha de comprar tudo o que necessitasse para poder continuar vivendo na floresta, do alimento à munição e o querosene, passando pela cachaça e o vestuário.

Era proibido ao seringueiro desenvolver qualquer atividade de agricultura, para que não perdesse tempo mantendo seu trabalho unicamente voltado para a produção de borracha e continuasse dependente do “barracão” [2] em tudo, inclusive na alimentação.

Periodicamente o seringueiro era visitado em sua colocação pelo “noteiro”, que era enviado do “barracão” para fazer a lista de compras que o seringueiro precisava. Ressalte-se que o fornecimento de mercadorias estava diretamente relacionado com a produção do seringueiro. Se este estivesse doente ou produzisse pouco, quase nada lhe era fornecido.

A decisão do fornecimento ou não era do gerente ou do próprio patrão. Essa situação repetia-se no caso do seringueiro que estivesse devendo muito no “barracão”. O importante a frisar aqui é que quem estabelecia o preço da mercadoria e do produto (borracha) era, única e exclusivamente o patrão.  Depois do “noteiro”, o seringueiro recebia a visita do “comboio”, que vinha trazer seu pedido e levar a borracha que tivesse produzido.

Além desses, vinha o “fiscal” para verificar se o seringueiro não estava cortando de forma a matar a seringueira ou escaldá-la, ou seja, torná-la improdutiva. O seringueiro, ao cortar a seringueira tinha de seguir um “regulamento” (talvez a única coisa efetivamente positiva, pois evitava a destruição das seringueiras), que fixava desde a profundidade do corte, que não poderia atingir o lenho da árvore, até a altura – cada um deveria cortar desde uma altura que alcançasse sem tirar os pés do chão – bem como o formato do corte: era proibido o corte em forma de “espinha de peixe”, o mais difundido nas ilustrações sobre seringueiros.

O seringueiro deveria cortar uma “bandeira”, ou seja o risco deveria ser de forma inclinada e ter a extensão de um palmo e polegada a um palmo e meio, deixando sempre, entre uma “bandeira” e outra à distância de, pelo menos, uma bandeira.

Depois de mais ou menos três anos, que era o tempo que o seringueiro levava para “arriar uma bandeira”, ou seja cortar do alto, de onde alcançasse sem tirar o pé do chão, abaixo, ele pegava exatamente a “bandeira” que estava livre e começava a cortar.

O tempo de três anos provou, secularmente, ser suficiente para recuperar a área anteriormente cortada, de forma a que uma mesma seringueira produza por mais de cinquenta anos. Aí está a sustentabilidade da atividade. A circunferência de uma seringueira era fornecida pelo número de “tigelas” (os utensílios utilizados para a coleta do látex) que se fixava nela.

Assim, a seringueira, ou qualquer outra árvore, tinha a circunferência de, por exemplo, seis tigelas, considerando-se que cada “tigela” é afixada a mais ou menos três palmos de distância uma da outra.

Ao final do “fábrico” (período de produção que vai mais ou menos de abril/maio a novembro/dezembro), com toda a borracha armazenada no barracão, era feito o acerto de contas. Nessa época, claro, a borracha já tinha perdido todo o excesso de umidade, estava seca, não tendo, portanto, nenhum risco de “quebra”.

Mesmo assim, na pesagem, o patrão cobrava a “tara”, ou seja um desconto do que ainda a borracha iria, teoricamente, “quebrar” equivalente a dez por cento do peso. Sem contar que as balanças dos barracões eram, normalmente, “preparadas” para que, em cada pesagem, roubassem vários quilogramas do seringueiro.

Os preços da mercadoria e da borracha eram fixados pelo o patrão. Deve-se ressaltar, ainda, que a maioria dos seringueiros não sabia ler, escrever ou fazer contas, ficando sujeito ao que o gerente apresentasse. Assim, o seringueiro estava sempre devendo para o próximo fábrico. É o que os estudiosos atuais convencionaram chamar de “escravismo pela dívida”.

O sonho de voltar para o nordeste era, então, apenas um sonho, cada vez mais distante de se realizar. Apesar de tudo, muitas vezes, a custa de um trabalho sobre-humano, alguns seringueiros conseguiam “tirar saldo”. Quando pensavam que estavam livres e que poderiam voltar para sua terra natal, não raramente eram assaltados e mortos por empregados dos próprios barracões, de forma que enterravam seus sonhos na floresta.

Havia, neste último caso, exceções, mas poucos eram os coronéis que não se utilizavam deste expediente para não deixar sair o dinheiro do seringal.

A vida em uma colocação de seringa era extremamente solitária. Os seringueiros somente se encontravam nos finais de semana, às vezes a cada mês, na sede do barracão. Essa era, também, uma forma de o patrão manter o domínio e o absoluto controle sobre todo o seringal.

A dispersão dos seringueiros e o fato de que somente podiam encontrar-se sob as vistas do patrão e de seus seguranças, fazia com que não pudessem articular nenhum tipo de revolta. Mulheres, no seringal, havia poucas. Sorte (ou azar?) daquele seringueiro que conseguisse arrumar uma porque sempre enfrentaria o risco de que um outro a “tomasse”, ou, simplesmente, “frequentasse” a sua casa na sua ausência ou, pior ainda, fosse morto para que lhe tomassem o “tesouro”.

Sem contar, claro, que os empregados do barracão sentiam-se, quase sempre, com direito sobre a esposa do seringueiro e coitada da mulher que ousasse não satisfazer as taras desses jagunços, normalmente perdia o marido.

O seringalista era a lei maior no seringal. Era ele que fazia casamentos, prisões, quando havia algum crime mais grave e, até, estabelecia os castigos a serem perpetrados contra os seringueiros faltosos.

Numa situação de tão grande exploração era lógico que alguns seringueiros procurassem uma saída e essa, muitas vezes, era vender a produção para o “regatão”[3] ou para um outro patrão. Mas, em caso de ser pego fazendo essa negociação, o seringueiro passava pelos mais violentos castigos, não raro sendo queimado vivo com uma pela[4] ou um “princípio”[5] de borracha presa às costas.

Outro castigo muito comum nos seringais antigamente era o de amarrar o seringueiro a um “tronco” próximo ao barracão para torturá-lo na frente de todos, como se fazia com os escravos negros quando da vigência da escravidão no Brasil.

Vender a produção fora do barracão envolvia altos riscos, pois o seringalista, como forma de melhor vigiar todo o seringal oferecia algumas “vantagens” para outros seringueiros, desde que estes informassem quaisquer “irregularidades” na região vizinha de onde vivessem.

Assim, o vizinho poderia ser um inimigo ou um espião. Isso fazia com que todos desconfiassem de todos. O que passou a ser um traço cultural do seringueiro. Ainda hoje a desconfiança está sempre presente no seringueiro, daí a dificuldade em unir-se e organizar-se.

[1] Grandes casas comerciais, geralmente situadas em Belém – PA e Manaus – AM, que forneciam todas as mercadorias para os seringalistas em troca da entrega da produção anual de borracha dos seringais.

[2]  O barracão era a sede do seringal tradicional, hoje praticamente inexistente na Amazônia, onde ficava, sempre o armazém principal -alguns seringais muito grandes tinham “depósitos” entre a sede e as colocações mais distantes – e onde morava, quase sempre, o seringalista ou, pelo menos, o gerente do seringal.

Ficavam aí, também, o “guarda- livros”, que cuidava da contabilidade do seringal e os empregados, estes divididos em gerente, noteiros, comboieiros, fiscais e os de segurança. Normalmente estes eram os responsáveis pela captura de seringueiros que tentassem fugir do seringal ou que vendessem borracha para “regatões” ou marreteiros e fossem descobertos. Eram os “jagunços” do “coronel de barranco”.

[3]  “Regatão” é o nome dado aos comerciantes que percorrem os rios da Amazônia em embarcações médias, levando mercadorias para serem trocadas por produtos. Até bem pouco tempo atrás, com a falência dos patrões, passaram a dominar o comércio com os seringueiros ao longo dos rios. Hoje, com a abertura de estradas em muitas regiões e o baixo preço da borracha, praticamente não mais existem.

[4]  “Pela” é o nome dado ao látex coagulado pela defumação produzido por vários dias, muitas vezes uma semana ou um mês, de trabalho do seringueiro.

[5]  Uma pela menor, o “começo” de uma pela. Alguns quilogramas de borracha “só pro gasto”.

 


Gomercindo Rodrigues -Advogado e amigo de Chico Mendes. Este texto faz parte do E-Book “Caminhando na Floresta”, disponível na Loja Solidária da Xapuri Socioambiental. O livro relata a experiência do autor com luta dos seringueiros do Acre nos tempos de Chico Mendes. Imperdível


 



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