Vozes da Floresta: “Aqui num cai um pé de pau!”

Por Zezé Weiss

Todo início do mês de dezembro, Jaime e eu trocávamos uns bons dedos de prosa até decidir a matéria de capa da Xapuri. Dezembro sempre foi nosso xodó, porque é nesta edição que reafirmamos o nosso compromisso com a defesa da memória e do legado de Chico Mendes.

Em quase uma década (estamos no oitavo ano!), definida a pauta – focada sempre em um aspecto da luta de Chico Mendes e dos povos da floresta –, Jaime “carcava porva” no texto arguto e limpo da capa, que puxava o resto da revista. Este dezembro, sem o Jaime, custei um pouco pra pegar no tranco.

Aí vem a Lucélia Santos, essa militante extraordinária que, há 33 anos, luta, com unhas e dentes, contra a violência do latifúndio que matou Chico Mendes e que insiste, entra ano, sai ano, em “passar a boiada” sobre o que resta da Amazônia. Lucélia queria um texto, tipo peça de teatro, que pudesse, como fazia o Chico Mendes, envolver corações e mentes com o destino da floresta.

Teatro, nunca escrevi, nem creio que siga escrevendo. Mas Lucélia, que nunca baixa guarda, tirou do fundo do baú uma meia dúzia de áudios, gravados em antigas fitas cassete, com entrevistas que ela mesma fez com o Chico Mendes durante sua primeira viagem ao Acre, a convite dele, em maio de 1988. É um material absolutamente extraordinário!

Nos meses que se seguiram, Lucélia e eu trabalhamos juntas para “dar um jeito” de construir um roteiro que contasse uma outra parte da história do Chico e, coisa inimaginável até bem pouco tempo, com as falas do próprio
Chico Mendes que a Lucélia tinha gravado.

O resultado dessa nossa invenção ganha concretude no dia 18 de dezembro, em frente à casa de Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, durante a Semana Chico Mendes, quando Lucélia, a única atriz da peça, se veste de Valdiza Alencar, seringueira do Vale do Acre; de Cecília Mendes, seringueira do Seringal Cachoeira; e dela própria, pra contar, pela primeira vez, a história de resistência do movimento seringueiro do Acre a partir do olhar feminino, do olhar das mulheres que fizeram e são parte essencial dessa luta.

O roteiro entremeia as vozes das mulheres com os áudios gravados por Lucélia Santos, em um esforço para relatar a luta de Chico Mendes, desde os empates de derrubada contra a devastação da floresta pelos “paulistas”
(fazendeiros do sul do País) em meados da década de 1970, até o assassinato de Chico Mendes, a mando do latifúndio, em 22 de dezembro de 1988.

Mais do que uma peça de teatro, “Vozes da Floresta” é um chamado à Resistência contra o passar de mais essa boiada que insiste na ameaça ao legado de Chico Mendes.  Confira abaixo o texto da peça na íntegra: 

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VOZES DA FLORESTA – Por Zezé Weiss

ATO I

VALDIZA ALENCAR

Seringueira e Sindicalista

CENA 01

VALDIZA – Aqui num cai um pé de pau!

JAGUNÇO – Tem prosa não, dona. Nóis tamo aqui pra dirrubá.

VALDIZA – Rapaiz, cata seus trem e vai imbora. Nóis aqui somo tudo siringuêro. Nóis  pesca no mermo rio. Nóis caça na merma espera. Nóis dança no mermo forró. Nóis somu irmão, contra essas dirrubada, nóis temu é qui si ajuntá!

JAGUNÇO – Tem prosa não, dona. Nóis tamu aqui pra dirrubá.

VALDIZA – Rapaiz, faiz isso não. Pra botá boi no pasto, us paulista manda ocêis dirrubá e  queimá: dirruba seringuêra, dirruba castanhêra; queima copaíba, queima cumarú,  queima tudo. Pode não, mano!

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JAGUNÇO – Tem prosa não, dona. Nóis tamo aqui pra dirrubá.  

VALDIZA – Pois intão vai tê empate di dirrubada! E é na paiz! As espingarda qui nóis  temu é só di caça, em genti nóis num atira. Mais seu patrão pode guspí fogo, qui aqui nóis tamu impatado. Aqui num cai um pé de pau!

JAGUNÇO – Dona, a ordi qui nóis temu é di isparramá u Tordon, é di disfoiá tudo cum essi veneno, pra tirá as imbira, tirá as planta piquena, deixá as capoêra limpa pras motosserra entrá i fazê a dirrubada.

VALDIZA – Rapaiz, tu tá avisado: Motosserra pra entrá aqui, só cum ocê e seus pistolêro  passano pur cima di nóis tudo, dus homi, das muié, das criança e dus véio, dus cachorro, e inté dus papagaio. Cê sabi qui é  dessi jeito: qui nóis junta  todo mundo, vai pra frente dus jagunço e  faiz um impate de dirrubada.

JAGUNÇO – Se acarma, dona, deixa qui nóis si ajeita entri us homi, brigo cum muié, não;  machuco minino, não; disrespeito os mais véio, não. Eu só priciso é fazê meu sirviço, e  é sobre isso qui eu mais os homi vamu tê qui pruseá.

VALDIZA – Rapaiz, agora é eu qui digo: tem mais prosa, não! Pra dirrubá essa mata, a  mando dessi povo, qui nóis nunca vimo nem as fuça, ocêis vão tê qui vivê nu remorso di matá gente du seu próprio sangue.

JAGUNÇO – Dona, joga essa praga, não!

VALDIZA – O pió di tudo é qui dispois di fazê o sirviço sujo, ocêis tamém vão sê  expulso daqui; ocêis tamém vão vê suas casa invadida; ocêis tamém vão tê suas colocação distruída; ocêis tamém vão amargá o disispero di perdê tudo…

JAGUNÇO – Dona…

VALDIZA – É isso mermo qui ocê tá escutano. Até essis paulista chegá, nóis vivia em  paiz nessi nosso pedaço de floresta. Agora é disgraceira pur todo lado, é violência na vida di todo mundo!

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CENA 02

CHICO MENDES – Ataque à Floresta (Áudio)

Essa luta da gente é uma história meio assim, meio comprida. Começou a partir de todo o  movimento dos empates pela defesa da floresta, principalmente em 76. Em 76, a gente  [es]tava no auge, no momento mais acirrado, no momento mais difícil, no momento mais  de desespero que já ocorreu nesse Acre. Na época que os fazendeiros começaram a  chegar, a partir de [19]70, começa então a expulsão em massa dos seringueiros. Os  seringueiros foram expulsos, [viram] seus barracos queimados, suas casas… de repente  os jagunços cercavam, tocavam fogo nos barracos. No Seringal Albráçia, em 72, tinha  nove pistoleiros. O seringal foi comprado por um paulista por nome Vilela, ele trouxe nove  pistoleiros, expulsaram todos os seringueiros dessa região. [E o que é que eles queriam,  eles queriam expulsar vocês da região, dos seringais, botar o que no local, eles queriam…]  Botar o boi [eles queriam destruir a floresta, desmatar pra botar o boi, é isso? Eles  conseguiram destruir a floresta, tirar o seringueiro, tirar a seringueira, a castanheira, as  riquezas que existe[m] lá dentro em troca do boi, [de] colocar o boi lá dentro. Ou seja, a  substituição do homem na floresta pelo boi. A Bordon nesse momento compra uma  grande área no rio Xapuri. A Bordon expulsou em massa e tocou fogo em barraco de  seringueiro, matou mulher de seringueiro, queimada. Os outros fazendeiros também  reagiram [da mesma forma] e toda a região de Xapuri foi bombardeada. Mais de 70%,  naquele momento, dos seringueiros, em desespero são expulsos dessa região aqui e se  mandam pra Bolívia e outros pra Rio Branco, pra periferia da cidade, lá. [É] um momento  de grande desespero. [Em] 76, eu assumo a diretoria do Sindicato em Brasileia, no Acre. Começa a primeira implantação do Sindicato lá. Em 76, nós sentamos e pensamos: como,  como vamos barrar esse processo de desmatamento? Apelamos pra justiça, pro  advogado, porque o Estatuto da Terra dá o direito ao posseiro lá na sua colocação não  poderia ser expulso. Mas isso, naquele momento, prevalecia a força e o dinheiro. A força  policial já vinha em cima do dinheiro do latifúndio. Naquele período de 70 a 76, eles  compraram aqui nessa região, seis milhões de hectares de terras, não tiraram um tostão  [do bolso], não venderam um boi no sul pra comprar essas terras… [A Bordon? ] A Bordon  e outros fazendeiros que vieram do sul do País. Essas terras foram compradas todas com  o apoio dos incentivos fiscais da SUDAM. O governo abriu as pernas pra esses  latifundiários e, nesses seis anos, nessa nossa região, foram destruídas 180 mil árvores  de seringueira, 80 mil castanheiras, e, entre madeira de lei e cedro, o abio, o cumaru-de cheiro, o cumaru-ferro, o amarelão, foram destruídas mais de 1 milhão e duzentas mil  árvores, fora as árvores médias que [es]tavam crescendo.

CENA 03

VALDIZA – Coisa abençoada qui é tê rádio! Inda bem qui passô u tempo du patrão proibí  o seringuêro di iscutá rádio, cum medo di nóis sabê u preço da borracha, ô di nóis tê  nutícia da ditatura deixano os fazendêro botá fogo nu Acre. Inda bem qui nóis demu conta  di tê rádio no seringal!

MARIDO – Que nuvidade é essa, muié?

VALDIZA – Tô escutano na rádio, tem um povo em Rio Branco qui ajuda seringuêro a  fazê sindicato. Só cum impate nóis num vamu segurá as dirrubada. Nóis precisa é di ajuntá  mais gente, di si organizá mió, di tê mais união. Nóis precisa de ajuda pra fazê um  sindicato aqui por Brasiléia.

MARIDO – Indoidô, muié, tu sabe lá u qui é sindicato?

VALDIZA – Sabê, num sei direito, não, mais hei de aprendê. Sei qui é um jeitu di uni os  seringuêro pra lutá contra as mardade dus patrão, seje us siringalista, qui já explorô  nóis dimais, seje us paulista, qui tão aqui pra ispulsá nóis das nossa colocação.

MARIDO – E tu vai fazê u quê?

VALDIZA – Cum as benção da mãe seringuêra, do caboquinho da mata, di tudo qui é sagrado  i que protegi nóis na imensidão dessa floresta, amanhã nu rompê da madrugada  eu vô di péis até Brasiléia, e di lá eu pegu um ônibus e vou atraiz dessi povo qui ajuda  a fazê sindicato.

MARIDO – E tu pelo meno sabi onde fica Rio Branco?  

VALDIZA – Sabê, eu num sei, não, mais eu haverei de achá.

MARIDO – Deixa disso, muié. Tu já tem qui cuidá de mim, qui só ando duente, tu já tem  qui cuidá da casa e dus minino, tu já tem qui cortá seringa pra sustentá nossa família,  inventa mais nada, não!

VALDIZA – Essa vida nossa é lascada. A gente só dormi cedo e acorda cedo pra cortá  siringa na luz da poronga. É correria o dia intêro, pra dá de comê pra família, é só andá  por essa mata, sujeito a uma onça cumê ô a uma cobra picá, pr’ainda tê qui sofrê cum invasão di paulista… Dá pra guentá mais não, eu vou atraiz de recurso!

MARIDO – Muié, tu tem ideia du tamanho da distança qui tu vai tê qui rompê sozinha nus varadôro?

VALDIZA – Andei assuntano. Daqui di casa eu pegu u rumo de Brasiléia. Na minha tuada,  são uns 3 a 4 dia. Vou beirano as istrada. Rompu no alumiá du dia, caminho até di tardi,  danu cansêra eu vô parano pra durmi nas colocação dus companheiro.

MARIDO – E tu vai sozinha, mermo?

VALDIZA – Vou mais Deus! E di lá eu só vortu cum arguém pra ajudá nóis a fazê u sindicato.

CENA 04

VALDIZA – Eita andança difícil… É passarim cantano, é onça esturrano, é pé inchano, é dia  acabano, é noite chegano, é mais dia, é mais noite, i nada di aparecê essa tar de Brasiléia…  

VOZ OCULTA – Deixa dissu, vorta pra casa!  

VALDIZA – É ruim, heim?! Eu daqui só andu é pra frente, eu só paro quando chegá em  Brasiléia, purque é di lá qui eu vô pegá u transporte pra Rio Branco.

VOZ OCULTA – Cê num desiste mermo! …

VALDIZA – E é pra disistí? Tem mais de 100 anu  qui nossos pais chegaru aqui, comeru u  pão qui o diabo amassô, aprendero a madrugá pra cortar siringa e a brigá pra num ser robado  nus barracão da borracha, e quando as coisa miora um tiquim, vem essa bordoada dos paulista  botano jagunço pra expulsá nóis tudo das nossas colocação…

VOZ OCULTA – Oia lá Brasiléia!

VALDIZA – Minha mãe seringuêra, qui trem grandi qui é essa Brasiléia! Aqui dentro deve di cabê muitas colocação, com as casa, us quintal tudo e us cercado com as criação!

VOZ OCULTA – Sim, sinhora!  

VALDIZA – Rodoviária… na rádio falaro qui ônibus pra Rio Branco a gente pega na rodoviária.  Bora achá essa danada!  

CENA 05

VALDIZA – Meu Jesuis, qui lonjura é essa … Dessi jeitu, num tem farofa qui duri. Ô nóis chega logo in Rio Branco, ô essa lata di carne frita finda, e aí vai sê só u chibé de farinha com  água, e oia lá…

VOZ OCULTA – Bem que eu avisei…

VALDIZA – Rio Branco! Qui lugar mais gigante dessi mundo! É luiz di deixá a gente tonta, é  casa dimais… Aqui deve di cabê os seringal du Vale du Acre tudo! Eu só num sei é ondi essa  gente vai encontrá caça pra alimentá essi povaréu todo…

VOZ OCULTA – Vai achar o povo como?

VALDIZA – Vou achá o bispo, ele haverá de me ajudá.

VOZ OCULTA – E bispo ajuda?

VALDIZA –  Tu num cunhece o Dom Moacyr. Tá sempre do lado do pobre. Num tem fraco qui  ele num defende. Si tem um qui pode me ajudá, esse um é o Dom Moacyr.

VOZ OCULTA – E acha o bispo como?

VALDIZA – Isso todo seringuêro sabe! Chegano na capital, é só acompanhá a torre da Igreja  qui vai dá na casa do bispo, num tem erro!

CENA 06

VALDIZA – Dom Moacyr, benzadeus qui eu achei o sinhô. Já tem é dias qui eu saí lá du seringal. Tenhu passado uns aperto danadu, sinhô bispo, mas vim atraiz de recurso.

BISPO – Dona Valdiza, por Deus, o que é que a senhora está fazendo aqui?

VALDIZA –  Vim buscá socorro. Lá pra nóis, chegaru os tar dos paulista e tão acabano cum  tudo. Tão botano us jagunço cum veneno e cum motosserra pra dirrubá nossas mata, pra botá  nóis pra fora do lugá onde nóis sempre vivemu. 

BISPO – Me conte mais sobre o que está acontecendo, minha filha.

VALDIZA – Nossa vida virou uma desgraceira danada. Tão botano fogo em casa de seringueiro  cum muié i minino dentru. Nós temu impatado as dirrubada, mais somu fracu. Eu vim atraiz de ajuda  pra fazê um sindicato.

BISPO – Minha filha…

VALDIZA – Dom Moacyr, u sinhô é u bispo, u sinhô é a ôtoridade, u sinhô impõe respeito, u  sinhô é du nosso lado i nóis sabi qui u sinhô num é frôxo, qui medo u sinhô num tem, intão  é cum u sinhô qui nóis têm qui si apegá, nóis precisa da sua ajuda.

BISPO – Minha filha…

VALDIZA – Dom Moacyr, u sinhô num se priocupe. Nóis sabemu qui vai tê perseguição, nóis  sabemu qui us fazendêro vão mandá a puliça prendê muitus di nóis, qui pode inté tê morte, nóis sabemu qui tem muita gente vendida, inclusive jagunço qui é parente nosso, mais nóis  num tem iscolha e eu daqui só vorto cum gente pra mi ajudá a fazê o sindicato.

BISPO – Pois então vamos lá, dona Valdiza, vamos lá falar com o pessoal do sindicato.

CENA 07

VALDIZA – Dotô, eu iscutei na rádio qui o sinhô tá no Acre pra fazê us sindicato. Lá na  nossa região tá bem difícil, é mata caino, é capim jogado na terra, e nóis seringuêro seno  ispulso sem tê lugá pra donde i(r)…

SINDICALISTA – Pois não!

VALDIZA – Nossa vida é na floresta, dotô, fora dela nóis num tem cumo vivê. Nóis precisa do  sindicato pra garantí os empate de dirrubada. Eu tenho fé in Deus qui u sinhô vai ajudá nóis a fazê u  sindicato.

SINDICALISTA – E como a senhora pensa que podemos organizar o sindicato?

VALDIZA – Dotô, nóis mais ou menu já pensemu numas coisa. O sinhô cheganu lá, nóis ajunta  os cumpanhêro e dicide junto cumo é que vai sê o nosso sindicato, nóis vamu ficá muito feliz  de criá um sindicato.

CENA 08

VALDIZA – O sinhô seje muito bem-vindu, dotô.

SINDICALISTA – Dona Valdiza, me conta um pouco sobre como é que vocês vivem por aqui.

VALDIZA – Nossas vida é vida de pobre, dotô. A seringueira é di onde nóis tira u nosso pão. Metade du ano, nu verão, qui pur aqui é  quando chovi pôco, de maio até novembro, mais ou meno, toda madrugada nóis sai de  casa, teno na cabeça essa lamparina qui nóis chama di poronga, corta as seringuêra da nossa istrada di seringa, dispois nóis vorta colheno u leite, pra defumá, fazê virá borracha i vendê pra sustentá as nossas casa.

SINDICALISTA – Hum…

VALDIZA – Em abril nóis roça as istrada, qui é pra facilitá nossa caminhada pra dá os corte nas seringuêra. Em agosto, quando a seringuêra troca as fôia, a gente diminui  o corte, qui é pra ela tê força pra produzi por muito tempo. É esse nossu jeitu de cortá, nunca  machucano a madêra, qui faiz cum que a seringuêra seje produtiva di avô pra neto e  di neto pra bisneto, inté us dia de hoje.

SINDICALISTA –  Então a economia de vocês vem da seringueira?

VALDIZA – É qui nem eu disse, doutô. Metadi du ano, nóis corta siringa, na ôtra metadi nóis colhi a castanha, qui cai da árvore nu ouriço da castanheira, nu começo du ano. Além do arroiz e do feijão, nóis também planta macaxêra e milho, pra gente cumê e dá pros bichos di casa. Cum essas duas árvore, nóis tira da floresta os recurso pra comprá  u querosene, o sal e tudo o mais qui nóis pricisa de lá de fora.

SINDICALISTA – Quanta riqueza! De fora, vem só isso?

VALDIZA – De fora, é só isso qui vem. O resto, a gente si ajeita por aqui mermo, tiranu u nossu alimento da caça, da pesca e dus roçadu. Até us paulista chegá, era assim qui nóis levava a nossa vida.

CENA 09

VALDIZA – Cumpanherada, bora cumeçá a nossa reunião, qui o dotô tá danu o nomi  di assembleia. Daqui hoje nóis sai com o sindicato formado!

SINDICALISTA – Dona Valdiza, primeiro vamos combinar: eu aqui não sou doutor, eu aqui sou só mais um companheiro. É muito bom ver essa união, é animador ver essa conversa bonita de  vocês. Agora vocês precisam  decidir como vão fazer para formar uma diretoria. Pra fazer um sindicato, a gente precisa de  uma diretoria.

VALDIZA – Nóis temu cunversado muito e decidimu que na diretoria  fica o Wilson Pinheiro, qui é cumpanhêro muito respeitadu aqui na região, i di secretário fica o Chico  Mendes, qui é bem informado i entendi dessa luta di sindicato.

SINDICALISTA – Então fica aprovada a diretoria com o Wilson Pinheiro e o Chico  Mendes? Fica criado o sindicato?

VALDIZA – Cum a força dus cumpanhêro!

SINDICALISTA – E eu muito me alegro de dizer que neste mês de dezembro deste ano  de 1975, na varanda da casa de paxiúba da seringueira Valdiza Alencar, no Seringal  Carmen, na estrada 317, entre os municípios de Brasiléia e Assis Brasil, foi criado o  Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, pra fortalecer a resistência dos  seringueiros do Acre e de todos os povos extrativistas da Amazônia! Viva os povos da  floresta!

VOZES – Viva! Viva a nossa Luta! Viva o Sindicato! Viva Wilson Pinheiro! Viva Chico Mendes! (Coro pode ser engrossado pelo convite da atriz à plateia para repetir as palavras  de ordem).

CENA 10

CHICO MENDES – Mutirão Contra a Jagunçada  (Áudio)

Os fazendeiros reagem e dizem que nós [estamos] trazendo dinheiro de fora pra comprar  armas, para organizar a guerrilha. Aí chega a polícia federal, o SNI. Mas nós resistimos, a  gente insistiu. [Você se lembra, houve mortes, nesse período? ] Sim, eu vou chegar lá.  Nesse período então, se organizam várias frentes de luta. E em 79, o maior movimento  rompeu-se no Acre, no município vizinho do Acre, fronteira com o Acre, no município de  Boca do Acre, do estado do Amazonas, um grupo de seringueiros são ameaçados por  jagunços, por pistoleiros, e o Acre, aqui, nós mandamos 300 homens pra cercar o  acampamento dos pistoleiros, tomamos todas as armas, eu não fui, mas o companheiro  Raimundo, meu primo, foi, e foi o primeiro movimento mais forte que se rompe, que cresce  no Acre, liderado pelo companheiro Wilson de Souza Pinheiro, presidente do Sindicato de  Brasileia. Isso deu uma repercussão muito forte, e como naquele momento Wilson  Pinheiro era a figura principal, nos empates de derrubada, em todo o Acre, os fazendeiros,  no mês de junho, todos os fazendeiros da região fazem uma reunião e decidem pela morte  de Wilson Pinheiro e de Chico Mendes, que também estava começando a crescer naquele  momento. No dia 21 de julho de 1980, eu estava numa Assembleia Sindical no Vale do  Juruá, no outro lado do Acre e Wilson Pinheiro estava na sede do Sindicato, assistindo  uma televisão com seus companheiros. E nessa noite, um pistoleiro se deslocou pra  Brasileia e outro aqui pra Xapuri. O que chegou aqui em Xapuri, perdeu a viagem porque  aqui eu não estava. O de Brasiléia acertou em cheio no Wilson Pinheiro. Por ali, no canto  da casa, deu três tiros e matou o Wilson Pinheiro. [1980?] 1980. Aquele momento,  taticamente, os fazendeiros avaliaram que o Sindicato de Brasileia apesar de ser forte mas  ele tava centralizado numa liderança que era o Wilson Pinheiro e que ele deveria morrer,  porque matando o Wilson Pinheiro o Sindicato recuaria e eles conseguiriam com isso seu  trunfo principal, que era o domínio sobre a terra.

ATO II

CECÍLIA MENDES

Seringueira, Matriarca do Seringal Cachoeira

CENA 11

DONA CECÍLIA – De certa maneira, os fazendeiro acertaram. Aquela morte foi muito  violenta, assustou todo mundo. Armaram tocaia no Sindicato e pegaram o Wilson Pinheiro de jeito. Foi morte na hora, sem chance de defesa.

JORNALISTA – Esse assassinato ocorreu como?

DONA CECÍLIA – Os companheiro contam que o Wilson Pinheiro tava lá no sindicato assistindo a uma novela, parou pra jantar e quando voltava pro salão, viu um banco  atravessado. Mal ele virou de lado pra ajeitar o banco, já recebeu os três tiro. Um na virilha,  outro no braço, outro na nuca.

JORNALISTA – Quanta violência!

DONA CECÍLIA – Violência demais, maldade demais, crueldade demais! O corpo do  Wilson Pinheiro foi caindo por cima da mesa do Sindicato. O sangue dele se espalhou pela  mesa toda. No dia seguinte, o filho dele encontrou os cartuchos das três balas, junto  daquela faixa de sangue quase seco.

JORNALISTA – Foi esse assassinato que desmobilizou o Sindicato?

DONA CECÍLIA – A morte e o que veio depois dela. Na missa de sétimo dia, veio gente  do Brasil inteiro, veio o Lula, veio muito sindicalista, veio imprensa. Foi nessa missa que  o Lula falou que tava na hora da onça beber água. Os companheiro, é claro, estavam  revoltados.

JORNALISTA – O discurso que acabou em processo na Justiça?

DONA CECÍLIA – Os fazendeiro aproveitaram esse clima de revolta pra queimar seu  próprio arquivo. Na madrugada, mataram um capataz de fazenda que todos pensavam que  era o mandante do crime, e a culpa caiu nos seringueiro.

JORNALISTA – Como assim?

DONA CECÍLIA – Dessa morte em diante, foi desgraça em cima de desgraça. Prenderam  as liderança, quebraram os dente, arrancaram as unha deles no torniquete. O Lula, o  Chico Mendes, todos foram julgados e condenados. Lei de Segurança Nacional.

JORNALISTA – Então tudo acabou, mesmo?

DONA CECÍLIA – Em Brasiléia não teve jeito, o Sindicato teve que recuar por muitos  anos. O que os fazendeiros não contavam é com a Resistência, que veio forte, com o Chico  Mendes, a partir do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri.

CENA 12

JORNALISTA – Dona Cecília, a senhora sabe de muita coisa!

DONA CECÍLIA – E eu não sei? Eu vi como a luta começou. Desde que o Chico passou a  ser liderança, eu fui acompanhando tudo bem de perto, ele andava sempre aqui pelo  Cachoeira, era muito forte a presença dele aqui nessa região de Xapuri.

JORNALISTA – O Chico Mendes?

DONA CECÍLIA – Sim, era meu sobrinho. O pai dele era irmão legítimo do meu esposo.  O Chico pra mim era como um filho, ele me considerava muito. Eu tive 15 filhos, já perdi a  conta dos netos, passo o dia inteiro e não termino de contar. Mas no meio  dessa gente toda, quem me faz mais falta mesmo é o Chico.

JORNALISTA – Então a senhora viu o Chico Mendes crescer?

DONA CECÍLIA – Vi sim, meu filho. Desde muito pequeno que o Chico já era diferenciado.  Ninguém nunca entendia aquele doidura dele por café, aquela vontade de saber ler, nem  aquela coragem pra se embrenhar sozinho pelo mato quando ficava aborrecido.

JORNALISTA – Desde pequeno?

DONA CECÍLIA –  Desde muito pouca idade. O Chico nunca foi de briga, só que de vez  em quando ele enfezava. Mas depois que ele cresceu, ele ficou tão calmo, tão bom, tão  tranquilo… Quando as  pessoas ficavam nervosas, ele acalmava todo mundo.

JORNALISTA – Mesmo?

DONA CECÍLIA – Ele  começava dizendo: “Não, assim a gente não resolve nenhum problema. Vem cá, vamos acalmar,  vamos conversar…” Quem diria que aquele menino enfezadinho fosse se transformar  nessa grande liderança que virou o Chico Mendes!

JORNALISTA – E de onde ele tirou essa capacidade de liderança?

DONA CECÍLIA – Eu tenho pra mim que o Chico já nasceu pra ser líder, ele chegava  assim, no meio de uma reunião e logo ele já estava coordenando tudo, era um dom  que ele tinha.

JORNALISTA – Mas teve alguém que ajudou na formação política dele?

DONA CECÍLIA – O Chico gostava de dizer que o grande professor que ele teve nas letras e na política  foi um homem que a gente conhecia como Pranchão. Eu acho que foi do Pranchão  que ele tirou aquela ideia de ensinar o povo a ler, para dar força pro Sindicato.

CENA 13

CHICO MENDES – Euclides Fernandes Távora (Áudio)

Aqui, o patrão não deixava o filho do seringueiro ir pra escola, [era] radicalmente proibido  escola em seringais. Eu, por exemplo, comecei com nove anos, engatinhando,  aprendendo a andar na mata pra cortar seringa pra ajudar meu pai, por eu tinha que  contribuir para o aumento de produção do patrão. Se eu fosse pra escola, se fosse criada  uma escola o que que acontecia, a produção ia diminuir porque os filhos dos seringueiros  iam ter que ir pra escola (perfeito), iam perder tempo, então o patrão não deixava. O que  que acontece, 99% dos seringueiros, dos filhos dos seringueiros, [eram] todos [eles]  analfabetos. (Você estudou, né Chico, como é que [vo]cê estudou? ] Bom, eu… o meu  professor, (porque você fala muito bem, você estudou… como que você estudou,  sozinho? …) Olha, a minha história… (você leu o que, como é que a sua história de  conhecimento) A minha história do meu estudo parece até subversão. Eu vivia nessa  época nós, muito jovens, juntos, que não sabíamos de nada. Eu tive a sorte, meu pai sabia  um pouquinho, o ABC. A minha sorte foi que, no seringal que eu trabalhava, na região que  eu morava naquela época, tava a 5, 6 quilômetros da fronteira da Bolívia, [lá] eu descobri  um exilado político, companheiro de [Luiz Carlos] Prestes, que foi da Intentona  [Comunista] de 35 (riso), foi preso na Ilha de Fernando de Noronha, conseguiu fugir, veio  para o Pará, fugiu de Belém também num navio, de calção, foi pra Bolívia, envolveu-se nos  movimentos de resistência dos operários bolivianos, e também foi o tempo de repressão  na Bolívia, ele não teve como escapulir, ficou encurralado, ele preferiu a opção pela mata,  pela floresta. Então ele tinha um barraco (em que local, na fronteira com a Bolívia?)  Aproximadamente 7 quilômetros da fronteira com a Bolívia. Então um dia, uma tarde,  quando a gente chegava do mato, esse companheiro chegou na nossa casa, a gente tava  defumando, ele se agradou de mim, fez um pacto com meu pai para, nos finais de semana,  eu caminhar 3 horas de pés numa varação, na selva, pra chegar no barraco dele, que ele  interessava em me ensinar a ler. Bom, minhas aulas foram feitas através de recortes de  jornais que eu não sei como é que ele recebia. Ele também tinha um rádio e as minhas  aulas, parte das aulas, era o seguinte: uma noite, se ouvia os comentários em português  da Voz da América, eu não tinha conhecimento com os noticiários internacionais até essa  época. Eu não entendia, igual aos outros meus companheiros também. Aí, ele começou a  me explicar aquela ideia. Ele começava a me explicar o que que significava aquela  ideologia dos americanos e tal. No outro dia, ele me fazia ouvir os comentários da BBC de  Londres (no rádio) era o rádio, minhas aulas eram essas. No outro dia, ele ouvia o  comentário da Rádio Central de Moscou. Na Rádio Central de Moscou, era na época de 64,  tempo do golpe militar, dizia o seguinte: olha, tantas lideranças sindicais no Brasil tão  sendo torturadas, a nossa solidariedade internacional aos patriotas brasileiros, que tão  sendo torturados, vítima da repressão, da ditadura militar que foi articulada pela CIA, (você  pode falar pra gente o nome desse companheiro que ensinou a você ler?) Eu posso, no  final eu vou falar. Aí, então, ele me ensinava. A Voz da América dizia, olha, a Revolução  Democrática e Popular no Brasil (as duas versões) o perigo do comunismo. Aí ele tirava  uma noite pra me explicar… (a situação) a situação, a posição desse aqui, a posição desse  (nessa época você tinha nove anos, dez anos?) Não, nessa época eu tinha 19, quase 20  anos já. Mas a gente começou 62, 63. A BBC de Londres fazia um paralelo, ela dava a  notícia de um lado e outro, então ele dizia, ó: A BBC de Londres é uma rádio mais ampla,  ela não defende a ideologia dos ingleses, do governo, ela divulga o que acontece no  mundo, então ele me orientava a ficar mais sintonizado com a BBC. Aí ele me explicou que  durante aquele período que a gente tava enfrentando, ele me explicou o que tava  acontecendo, apesar de tá isolado, mas que, quem sabe, Chico daqui a cinco, dez, oito  anos o movimento de resistência dos trabalhadores vai começar a surgir, vão criar novos  sindicatos, a ditadura vai ter que aceitar, agora, vai ser controlado pela ideologia militar, todos esses sindicatos vão ter intervenção (e foi o que houve, mesmo). Agora é o seguinte,  você não pode deixar de entrar nesse sindicato, vai chegar, mais hoje, mais amanhã,  chegará o sindicato para os seringueiros e você entra, você não pode deixar de entrar no  sindicato porque é lá que você vai montar suas raízes, que vai enraizar e eu lhe garanto que, um dia, se eles não te matarem, você vai conseguir ser uma grande força para os  seus companheiros. Eu fiquei com aquilo na cabeça, será que isso vai acontecer… O nome  dele era Euclides Fernandes Távora.

CENA 14

DONA CECÍLIA – Tem muita coisa da luta que o Chico aprendeu com o Pranchão. Mas  tem muita coisa da vida que ele aprendeu foi por aqui, na convivência com o povo dele,  aqui no Seringal Cachoeira e nesse mundaréu de floresta,  mesmo.

JORNALISTA – Por exemplo?

DONA CECÍLIA – O Chico tinha um respeito danado pelos seres mágicos da mata, ele  sabia que, desde que o mundo é mundo, os índios já eram tementes de Mapinguari, o monstro de um olho  só, e os seringueiros, depois que chegaram, passaram a adular a ‘Mãe Seringueira” pra  garantir a fartura da borracha.

JORNALISTA – Mas ele acreditava nisso, mesmo?

DONA CECÍLIA – Ele tinha respeito. O Chico era muito bom caçador, mas, antes de entrar  na mata ele sempre pedia licença pro caboquinho da floresta, pra abater o alimento que ia sustentar sua família.

JORNALISTA – E dava certo?

DONA CECÍLIA – Ele tinha lá os causos dele. Um que ele contava sempre era o do dia em  que ele se encontrou com um ser encantado na forma de veado. Ele na espera, cansado.  De repente, aparece um veado. Ele aponta a espingarda. O veado vai crescendo,  crescendo, até ficar da altura dele na forquilha da galha de árvore de onde ele tentava  atirar.

JORNALISTA – E aí?

DONA CECÍLIA – E aí que foi uma correria só. Esbaforido, naquele dia o Chico voltou pra  casa sem a comida pros filhos, mas com mais um causo de tirar o fôlego para contar.

JORNALISTA – Um bom contador de causos…

DONA CECÍLIA – Ele sempre tirava um causo desses da cabeça quando queria chamar a atenção  de uma visita que pudesse ajudar na luta do Sindicato. Era também o jeito dele de arrumar aliados pra defender essa floresta, que sempre deu sustento pro povo dele.

JORNALISTA – E deu certo?

DONA CECÍLIA – Foi dando. O Chico começou organizando os seringueiros aqui mesmo, pelo Vale do Acre. Depois, ele passou a viajar e a andar com os índios, a falar que todo mundo tinha que se juntar, que era preciso fazer uma grande aliança.

CENA 15

CHICO MENDES – Aliança dos Povos da Floresta (Áudio)

Xapuri, que [es]tava caminhando, engatinhando naquele tempo, retoma o movimento (com  força) retoma com força o movimento com uma experiência diferente: a liderança, nós não  devemos ter uma liderança única, mas todos os trabalhadores devem ser líderes. Agora,  como sempre acontece no movimento dos trabalhadores no Brasil, o pessoal começa a  centrar força mais num nome, e esse nome ou por sorte ou azar caiu em cima de mim. É  o Chico Mendes que começa a liderar o movimento. Então, nós começamos a pensar o  seguinte, começamos a montar as escolas, começamos a construir novas lideranças, com  as escolas, em cada escola começam a surgir lideranças porque o seringueiro começa a  ter uma visão e começa a participar mais ativamente do movimento. Isso começou a  chegar lá fora, a imprensa começa a dar um maior destaque nessa luta de Xapuri. E aí nós  pensamos numa ideia, ora, o seringueiro não é reconhecido como classe, poxa, então nós  vamos ter que encontrar uma forma de pressionar as autoridades federais, lá em Brasília,  que tá o foro das decisões, o seringueiro nunca foi a Brasília e nós vamos ter que defender  agora uma forma do seringueiro ir a Brasília e contar a sua história lá. A Mary [Allegretti]  começa a articular com algumas entidades, me chama, eu vou a Brasília em maio de 85, e  se começa a articular então o Encontro Nacional dos Seringueiros em Brasília. E aí em  outubro de 85 a gente marca na história da luta do seringueiro da Amazônia o I Encontro  Nacional dos Seringueiros da Amazônia. E isso foi um encontro que ficou histórico na luta  dos seringueiros, em toda a história desde 1870 pra cá, aí começa a aparecer os aliados,  começa a engrossar a luta nos empates, começamos a ter vitórias. Com essa experiência  de Xapuri em realizar esse Encontro Nacional em Brasília, aí nesse encontro se começa a  descobrir outras lideranças que viviam isoladas, que desperta a sua consciência e começa  então a se expandir pra toda a Amazônia essa luta. E surge a proposta de aliança com as  principais lideranças indígenas, a partir daí pra se unificar essa luta dos seringueiros. E aí começa então, com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, se pensa numa  possibilidade de manter contato com a direção da União das Nações Indígenas. Se faz um  contato através do Ailton Krenak, a partir com Biraci Brasil, a discussão começa a se  ampliar e hoje começa-se já a acontecer os encontros dos índios com a participação dos  seringueiros e a Aliança começa a se ampliar. A nível de cúpula ela está ampliada, só falta  agora se estabelecer essa Aliança nas bases dos índios com os seringueiros. Denomina se com isso a Aliança dos Povos da Floresta Amazônica.

CENA 16

DONA CECÍLIA – A vida do Chico era só luta e conflito. Mas no meio daquelas ameaças  todas, o tinhoso do meu sobrinho conseguiu romper uma inimizade histórica dos índios com os seringueiros e juntou todo mundo  pra  defender os povos da floresta não só aqui no Brasil, mas no mundo inteiro.

JORNALISTA – O tempo inteiro teve ameaça?

DONA CECÍLIA – Pois não teve? Da morte do Wilson Pinheiro, que ele também era pra  morrer no mesmo dia e só não morreu porque quando o pistoleiro chegou pro ataque ele tava de viagem,  até o 22 de dezembro, quando por fim deram conta de tirar a vida  dele, o Chico sempre foi um cabra marcado para morrer.

JORNALISTA – Marcado pra morrer?

DONA CECÍLIA – A cada luta, era mais um risco. A cada viagem, era mais um perigo. A  cada vitória do movimento, o Chico ficava mais perto da morte, e ele sabia disso, mesmo  não querendo, ele sabia que ia ser morto.

JORNALISTA – Ele sabia que ia morrer…

DONA CECÍLIA – O Chico sabia que o latifúndio não deixaria ele  vivo.

JORNALISTA – O que mais irritava o latifúndio?

DONA CECÍLIA – Tudo era motivo de violência.  O latifúndio atacava o Chico por tudo: pela resistência dos empates, pelo sucesso das Reservas Extrativistas,  pelas viagens internacionais com a volta pra  casa cheio de prêmios, pelo apoio que o movimento ganhava no mundo, pela luta toda.

JORNALISTA – Mas houve algum momento, alguma situação em que a situação ficou  mais grave?

DONA CECÍLIA – Eu acho que a gota d´água foi o empate do Cachoeira, porque com esse  empate os assassinos do Chico se viram obrigados a ficar de fora do seringal da família Mendes, que é esse mesmo Cachoeira onde todo mundo vive até hoje. Isso já era demais pra cabeça deles.

JORNALISTA – Foi mesmo?

DONA CECÍLIA – Uns dias antes do Chico morrer, ele veio aqui e falou comigo: “Tia,  agora acabou, agora o Cachoeira é nosso, mesmo. Agora todo mundo vai ser dono de sua  colocação, todo mundo vai ser dono do seu lugar, só que essa luta vai custar sangue, e o  sangue que vai derramar é o meu.”

JORNALISTA – Nossa, dona Cecília…

DONA CECÍLIA – Eu dizia: Deixa disso, meu filho. “Mas ele me dizia: “Não tia, não tem  jeito: o seringal é nosso, mas eles vão cobrar o meu sangue por isso.” Ele sabia do que ia  acontecer… Eu me lembro muito bem do empate do Cachoeira. Foi o último empate com  o Chico em vida.

CENA 17

DONA CECÍLIA  – Eu me lembro de cada minuto daquela luta. Era maio de 1988. O dia começou quente e tenso. Estava previsto o confronto final na disputa  decisiva pelos 25% das matas do Cachoeira. Elas tinham sido griladas pelo mandante do assassinato do  Chico Mendes, que você sabe quem é.

JORNALISTA – Um momento decisivo…

DONA CECÍLIA  – O empate já durava uns três meses. Do nosso lado, eram mais de 150  homens e mulheres, lutando contra a entrada dos jagunços que, inclusive, tiveram autorização do  Juiz de Xapuri para entrar no Seringal. O pessoal formou os batalhões em todas as  entradas pra não deixar entrar ninguém.

JORNALISTA – E ninguém entrou?

DONA CECÍLIA – A hora que foi de entrar, o pessoal falou: Não passa! Eles vinham  trazendo o oficial de justiça pra ver se assim passavam. Aí quando chegaram e viram  aquele montão de gente, o oficial de justiça falou: “quer dizer que não passa? ” E o Chico  falou: “Não passa, de jeito nenhum, não passa! ”

DONA CECÍLIA – Enquanto a gente estava empatando a entrada dos pistoleiros no  Cachoeira, começou uma derrubada no seringal Equador, que era vizinho. Empatamos lá  também, aí o Juiz de Xapuri autorizou a polícia a proteger o desmatamento.

JORNALISTA – O juiz autorizou?

LEIDE – Autorizava sempre. Pra enfrentar seringueiro, a jagunçada vinha com a retaguarda da polícia. Mas a gente resolveu que ia empatar assim mesmo, com o Chico no comando. Do lado deles, uns quantos jagunços, pistoleiros, e a polícia, com  ordem de fazer o enfrentamento e tirar a gente da nossa floresta.

JORNALISTA – E então?

DONA CECÍLIA  – A situação era tensa. O movimento já tinha feito uns 50 empates, tinha  ganhado uns 15. De vez em quando, a polícia parava o empate, pra dar tempo do Chico  ir a Xapuri, tentar algum acordo. Naquela madrugada, a gente estava firme dizendo “não  passa”, mas o Chico tinha notícia de que não ia ter jeito, ele foi informado que a polícia ia  garantir a derrubada.

JORNALISTA – E garantiu?

DONA CECÍLIA – Você sabe, nos empates a gente ia tudo junto, homens e mulheres  paravam junto na frente das motosserras. Naquele dia, a Marlene Mendes, que era prima do Chico e professora do Cachoeira, comunicou pra ele que o empate ia ser diferente. À frente  iam as mulheres com as crianças, depois os homens, os mais jovens seguidos dos mais  velhos.

JORNALISTA – E o Chico Mendes concordou?

DONA CECÍLIA – Não tinha do que concordar. Era decisão das mulheres, ele sempre respeitava.   Chegando no Recanto, que era onde estava sendo desmatado, uns 50 policiais estavam  no meio do ramal, armados para impedir o empate, a Marlene e  as outras professoras do  Cachoeira, todas elas seringueiras, começaram,  com as crianças, a  cantar o Hino Nacional.

JORNALISTA – Qual foi a reação?

DONA CECÍLIA – Aquele foi um dos momentos mais emocionantes da resistência nos  empates. Como durante o canto dos hinos pátrios os militares devem estar perfilados, o  oficial comandante deu uma ordem e todos os policiais se colocaram imediatamente em  posição de sentido para ouvir o Hino Nacional.

JORNALISTA – Que ousadia!

DONA CECÍLIA – A ousadia surtiu efeito. O comandante da operação concordou em  adiar o desmatamento. Em Xapuri, no dia seguinte, o Chico não conseguiu cassar a  licença do desmatamento, mas deu tempo de um técnico do órgão ambiental encontrar  uma irregularidade no tamanho da área a ser desmatada.

JORNALISTA – Que história!

DONA CECÍLIA  –  Com isso, o Cachoeira e o Equador continuam em pé. O  Cachoeira, de fato, depois virou Projeto de Assentamento Extrativista e está na nossa mão  até hoje. Mas o Chico tinha razão. Eles cobraram a vida dele por isso.

ATO III

LUCÉLIA SANTOS

Atriz, Diretora, Militante Socioambiental

CENA 18

CHICO MENDES – Reservas Extrativistas (Áudio)

A proposta das Reservas Extrativistas é o seguinte: as terras [es]tão supostamente aí nas mãos dos grandes latifundiários. Em toda a área do Acre, apenas dez donos dominam todo o poderio de terras no Acre. Dez mandantes. O que nós queremos é o seguinte: É que essas terras passem para o domínio da União, que o governo desaproprie essas áreas, que elas passem para o domínio da União, não do Estado, da União, e que elas se transformem em usufruto para os habitantes da floresta, ou seja, para os seringueiros. E aí nós estamos colocando como proposta [o] cooperativismo, nós estamos colocando como proposta prioritária uma melhor forma de comercialização da borracha, a comercialização da castanha; nós queremos criar indústrias caseiras para se dar prioridade às outras riquezas porque, veja bem, quando nós defendemos a Reserva Extrativista, e quando nós defendemos e que nós apostamos que a Reserva Extrativista é economicamente viável para o Brasil, para a Amazônia e para a humanidade, é que nós não defendemos simplesmente hoje só a economia da borracha, não só a economia da castanha, mas a copaíba, os produtos extrativistas que são vários em toda a região da floresta e que estão sendo destruídos: o coco da tucumã, o patoá, o açaí, a copaíba, outra série… falta pesquisa nessa Amazônia, as árvores medicinais que é impossível ser[em] contadas, falta pesquisa… Basta que o governo leve a sério e nos dê essa possibilidade que em pouco tempo nós vamos provar que é possível se conservar a Amazônia e transformar essa Amazônia numa região economicamente viável para o Brasil e para o mundo. (Perfeito!) Isso, nós temos clareza disso!

CENA 19

LUCÉLIA – (Depoimento escrito por Lucélia Santos)

Cheguei a Xapuri no dia primeiro de maio de 1988. Chico já estava em Rio Branco a minha espera no aeroporto. Ele me pegou na porta do avião, o que me deixou muito feliz e emocionada, eu senti por esse gesto um grande carinho. Me senti recebida!

Seguimos pra Xapuri no quatro por quarto do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, que havia sido presente da Embaixada do Canadá, me contou o Chico. E assim começou meu envolvimento com essa luta que dura até os dias de hoje. Cheguei no meio desse turbilhão  de violência  e resistência. O  convite era para participar do primeiro encontro de mulheres seringueiras do Acre.

Aconteceu dias antes no Rio de Janeiro, no Encontro Nacional do PV, do qual eu era vice presidente àquela altura, e que tinha partido de Alfredo Sirkis o convite a Chico para nos falar sobre o seu  projeto de Reservas Extrativistas. Foi a primeira vez que eu o ouvi e fiquei totalmente mobilizada.

Pensei: Esse é o projeto de reforma agrária mais bem equilibrado do qual jamais ouvi antes falar. E com a perspectiva mais visionária  de defesa da Floresta e dos povos da floresta, com  perfeita harmonia e sintonia entre meio ambiente e economia sustentável, entre os seres encarnados e os seres mágicos da Amazônia. Muito semelhante à questão das terras indígenas. Me lancei em apoio, sem rede de salvação, e foi com esse espírito de luta que cheguei ao Acre.

Lá estava eu cruzando aquela estrada de terra  vermelha , a BR364, que fazia parte também do conflito latifundiário que envolvia os fazendeiros locais e Chico Mendes, mais pontualmente o mandante do seu  assassinato.

O Acre naquela época era um lugar muito distante, fora da rota de referência do movimento socioambiental brasileiro e menos ainda do resto do planeta. Então resolvi não perder um segundo e perguntar tudo ao Chico, tudo o que pudesse nos atualizar e nos impulsionar na luta em defesa da Floresta.

Foi assim que surgiu essa entrevista que fiz com Chico num daqueles dias, aqui mesmo nesta casa, sentados em bancos de madeira numa mesa como essa e tomando café aguado e com muito açúcar em latinhas de leite moça recicladas.

Durante 33 anos guardei essa preciosidade gravada em fitas cassete, sem conseguir lidar com esse meu luto por muitos anos.

Meu coração seguia triste pela morte extemporânea do companheiro e pela ideia de Brasil que havia sido totalmente  transformada em mim. Acabou o romantismo sobre o Brasil que eu alimentava antes, desde a infância, a partir do assassinato de Chico Mendes.

Hoje compartilho as palavras de Chico com vocês sob forte emoção, na voz do próprio Chico, e reafirmo meu compromisso com essa luta e mais, faço questão de sustentar que a história do Brasil tem de ser reescrita do ponto de vista dos trabalhadores e dos oprimidos, dos sem-terra e de todos que não têm ainda suas terras garantidas pelo Estado.

Sua soberania respeitada.

Direitos humanos e direitos culturais respeitados.

Chico, diz aí, como é que você foi parar nos Estados Unidos?

CENA 20

CHICO MENDES – Estados Unidos (Áudio)

Bom, a minha viagem para os  Estados Unidos foi interessante. A partir desse Encontro, em janeiro de 1987 eu recebo  uma visita da ONU, representante da ONU aqui em Xapuri, da UNEP (a partir do Encontro  Nacional?) É, dos seringueiros, e essa pessoa fez questão de ir comigo ao seringal,  conhecer a experiência nossa. E quando foi em março, eu fui convidado pelas entidades  ambientalistas para uma viagem aos Estados Unidos, a Miami, e essa viagem de Miami  que começa então a pegar fogo, que começa então a história do reconhecimento  internacional da nossa luta. Daí, da minha participação na Conferência do BID, quando eu  denunciei os projetos de desenvolvimento para o Brasil, principalmente para a Amazônia, financiados pelos bancos internacionais, (Banco Internacional…) Banco Interamericano  de Desenvolvimento e Banco Mundial, denunciei, a primeira vez na história que um  seringueiro conseguiu ir nos Estados Unidos denunciar as políticas de desenvolvimento  (deles próprios) deles próprios, financiadas pelos bancos internacionais para a Amazônia.  E aí eu pela primeira vez (houve uma fiscalização, dos bancos) os bancos voltar atrás,  resolvem fiscalizar, com a minha participação numa audiência no dia 28 de março (deste  ano?) Do ano passado, com o chefe da Comissão da Operação de Verbas do Senado  Americano, inclusive a Comissão de Verbas do Senado Americano pediu que eu fosse o  interlocutor de todos os projetos que são desenvolvidos na Amazônia pelos bancos  internacionais, para avisar o que está acontecendo. (E agora me fala sobre essa vinda do  BID amanhã, é amanhã que cê vai ter um encontro com o BID, o que é se pretende desse  encontro, Chico?) O contato do BID comigo começa também na minha terceira viagem  internacional o ano passado, pra Nova York, eu fui levado a Washington, para uma  audiência com o BID, e mais uma vez, na sede do BID, eu coloquei a situação dos  seringueiros na Amazônia. E o BID, com a pressão das entidades ambientalistas e com o  apoio dos grandes jornais americanos, começa então a me reconhecer como uma pessoa  séria, como uma pessoa dedicada à causa da Amazônia. Então, o resultado disso tudo é  que agora o BID tá chegando no Acre, quer conversar comigo, quer ir comigo numa área  de reserva dos seringueiros, e, segundo o que se sabe, eles estão dispostos a acatar a  proposta do Conselho Nacional dos Seringueiros, que é criar-se Reservas Extrativistas  em todos os pontos estratégicos de conflito na Amazônia, principalmente no Vale do Acre.  Essa é a intenção deles: Acatar nossa proposta, e é exatamente isso que nós vamos  defender.

CENA 21

LUCÉLIA – (Depoimento escrito por Lucélia Santos)

O latifúndio não deixou  o Chico viver para ver implantado seu projeto de Reservas Extrativistas para a Amazônia. As quatro primeiras reservas extrativistas só surgiram depois da morte dele, em março de 1990 e foram criadas por decreto presidencial.

São elas: Alto Juruá e  Chico Mendes, no Acre;  Rio Ouro Preto em Rondônia; e Rio Cajari no Amapá. Hoje existem Reservas Extrativistas em todos os biomas brasileiros. Só na Amazônia, elas ocupam cerca de 25 milhões de hectares de floresta, onde vivem 1,5 milhão de pessoas.

Em 22 de dezembro de 1988, ao anoitecer, no quintal da sua casinha azul e rosa, nessa pacata rua de Xapuri, aqui mesmo, um tiro de escopeta disparado por um pistoleiro entocaiado, a mando do latifúndio, tirou a vida do seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, que acabara de completar, dias antes, 44 anos de idade.

Tiraram a vida de Chico e o arrancaram do nosso convívio; ele nem pode celebrar sua grande conquista junto à companheirada toda: os povos da Floresta. Chico havia afirmado em entrevista, dias antes, quando perguntado sobre as perseguições que vinha sofrendo:- “Eu quero viver. Ato Público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero viver.”

Chico Mendes, o maior líder ambientalista do Brasil, foi enterrado na manhã chuvosa do dia 25 de dezembro de 1988, o Natal mais triste que passei nessa vida! O enterro de Chico Mendes marcou o começo de uma nova etapa de resistência na luta para os povos da Floresta.

CENA 22

LUCÉLIA –  Discurso de Lucélia Santos  no velório de Chico Mendes (Áudio)

Você foi um dos companheiros mais iluminados que eu tive (…) e dos seres humanos mais  puros que eu conheci. Você era o verdadeiro homem da floresta. E a floresta taí, a tua luta  taí, o teu projeto social a gente vai continuar encaminhando. Em nome da tua obra, de  tudo o que você plantou, de tudo que você ensinou pra esse país e pra todo mundo que  te premiou, que te aplaudiu e que vibrou com o teu trabalho. Na terra, gente vai lutar pela punição de quem te matou. A gente vai pedir justiça, justiça pra quem mandou te matar. A  gente vai lutar pela Reforma Agrária, pra que outros assassinatos como esse não voltem  a acontecer. A gente vai lutar pra acabar com essa UDR nojenta. A gente vai lutar para  estabelecer uma democracia de verdade nesse país, que fica dizendo que é democrático  e continua matando no campo os trabalhadores no campo. Em maio quando eu vim aqui,  a pedido do Chico, pro Encontro das

Mulheres e pra que se tirasse a chapa [da] nova  presidência do Sindicato, eu disse, a UDR, nesse dia 1º de maio, eu quero dizer nessa  praça de Xapuri que a UDR tem que aprender a respeitar os trabalhadores. A UDR continua  não respeitando os trabalhadores. A violência, a brutalidade, a maldade no campo é uma  coisa horrível. As pessoas não têm noção do que fizeram matando Chico Mendes. Não  tem noção da burrice, da estupidez de matar um homem como Chico Mendes, não que as  outras vidas que foram tiradas não tenham o mesmo valor, mas só que o Chico era  conhecido no Brasil inteiro, amado no Brasil inteiro, conhecido fora do Brasil, foi premiado  na ONU, era um homem de uma luz pessoal extraordinária e que atravessava fronteiras.  Nós queremos Justiça! Hoje o Lula disse aqui: Um ministro da Justiça que não pune a  morte de 80 camponeses num ano, que se deponha! Fora! Trabalhadores do campo, nós  queremos uma Reforma Agrária no Brasil. Nós temos que reabrir esse Congresso, não  esperar um ano, nem um dia. Assim que estourar o novo ano, 1989, a gente tem que botar  uma campanha nas ruas, pedindo, exigindo, lutando por uma Reforma Agrária. A gente  vai continuar unido em nome da vida do Chico, da força do Chico, da luz, do seu brilho,  da sua gana, de tudo que ele representou pro movimento ecológico brasileiro e  internacional, ecológico e social. Cada gota de borracha que ele tira de uma seringa, que  ele quer preservar a árvore em pé, ou de uma castanheira, é cada gota de suor de um  trabalhador que tem que se transformar em pão, os trabalhadores têm direito a uma via  normal, decente, digna. Em nome de tudo o que o Chico defendeu e que eu tive a honra  de poder, humildemente, em algum momento, defender ao lado dele, em nome de todos o  sonho de Chico Mendes, em nome de todos os nossos sonhos que são um sonho só, é  um sonho de uma sociedade harmoniosa, justa, humana, com pão pro todo mundo, com  alegria no coração e o direito a um a Natal com amor e felicidade e alegria. Em nome de  toda a vida, de todo o amor, de toda a pureza do nosso companheiro, do nosso amado  Chico Mendes, eu abro esse ato, e não adianta a gente continuar repetindo o discurso  político, a gente tem que se juntar, se organizar e exigir uma resposta do governo  brasileiro.

CENA 23

LUCÉLIA  – CONCLUSÃO (Depoimento escrito por Lucélia Santos)

Há exatos 33 anos eu gritava e clamava por justiça pelo assassinato de Chico Mendes e por justiça social aos trabalhadores do campo. Por reforma agrária e respeito aos povos da floresta. Nesses anos todos sempre houve pressão sobre as Reservas Extrativistas e outras áreas de proteção ambiental guardadas por populações tradicionais. Mas nunca tanto quanto agora.

Existe uma articulação de destruição orquestrada pelo Governo Federal e Congresso Nacional, uma sanha criminosa que desmata e queima desbragadamente. Descontroladamente! São milhares de focos de incêndio que se transformam em cinzas dos troncos derrubados; já  se vê mais árvores a morrer do que a nascer… já se produz mais gás carbônico do que ela, a própria floresta, é capaz de absorver.

A Floresta sofre.  Os animais da Floresta sofrem. Os humanos habitantes da Floresta sofrem.

Os povos indígenas nunca foram tão perseguidos e mortos como agora. Nem as crianças eles poupam! Nesse exato momento em que toda a humanidade sofre junto por causa da projeção irreversível de super aquecimento planetário.

Desnecessário afirmar que a Floresta Amazônica, bem como o Cerrado e outros biomas brasileiros, são protagonistas absolutos no enredo desse embate sobre emissão e redução de gases de efeito estufa. O Brasil é a grande estrela! Os tempos chegaram. Se Chico vivesse ele teria apenas que repetir o que falou, escreveu e criou há 33 anos atrás. Ele estava à frente de seu tempo. Muito à frente!

Já nós, não. Nosso trabalho sem Chico, agora é dobrado, além de repetir, teremos de ensinar as crianças a sobreviver. As matas a sobreviver. Os animais a sobreviver. A nós mesmos a sobreviver.

Penso que a única coisa que nos resta a fazer agora é reflorestar incansavelmente sobre o que foi e vem sendo destruído. Através de muitos projetos de agro floresta; e gritar, espernear, continuar o empate das derrubadas que aumentaram quase que em escala industrial de lá pra cá. Só assim para estancarmos a destruição e a morte.

A própria Reserva Chico Mendes, o Seringal Cachoeira, onde até hoje vive a família de Chico Mendes, está ameaçada. A Resex sofreu um surto de invasão de grileiros, há 3 anos , e se mantém como a unidade de preservação mais desmatada da Amazônia.

Existem projetos no Congresso Nacional que defendem a liberação da criação de gado e exploração de madeira dentro da RESEX Chico Mendes. Regularizam as invasões e legalizam crimes cometidos dentro da RESERVA EXTRATIVISTA, favorecendo a pecuária.

Os criminosos têm nome,  sobrenome, CPF e agora, costas quentes! O próprio governo os apoia. Famílias extrativistas voltaram a ser perseguidas e expulsas de suas casas no meio da floresta, de suas colocações, como nos anos 70, pela presença de facções criminosas, pois há trechos na reserva propícios à rota de fuga de quem porta armas e drogas. Isso chama-se narcotráfico!

São tempos difíceis com os quais não contávamos, não sonhávamos, não queríamos jamais… Mas é o que temos pra hoje. E vamos continuar a lutar! E como somos jovens, somos jovens há muito tempo… né? temos de ressignificar a nossa forma de viver na Terra, despertando amor pela Floresta! Onde já há, propagando mais e mais, onde não há, fazendo aspirações e ações concretas para que surja esse amor e ensinando humildemente, mas firmemente, a RESISTIR. Dizemos:

  • Aqui não cai um pé de pau!
  • Não Passa, não passarão!
  • Ninguém abandona a defesa dos povos da Floresta!
  • Ninguém desiste do legado de Chico Mendes!
  • Ninguém solta a mão de ninguém!

FIM

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

 

 
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