Brasil é o país mais perigoso do mundo para ambientalistas, diz El País – 

Francisco Alves Mendes Filho (1944-1988) é lembrado como um símbolo da resistência diante da degradação do meio ambiente.  Chico Mendes, como é conhecido, foi um humilde seringueiro em Xapuri, um povoado da Amazônia no Estado do Acre, que criou sindicatos para que trabalhadores rurais como ele pudessem lutar por uma vida melhor.

“Ele fez uma revolução no campo, organizou um movimento para que as pessoas se conscientizassem de que sua sobrevivência dependia da conservação das florestas”, diz sua filha Ângela Mendes.  Sua batalha contra a derrubada da mata, os incêndios propositais e a expulsão violenta das populações locais desatou a fúria de latifundiários e posseiros. Em 22 de dezembro de 1988 foi morto diante de sua casa a mando de um fazendeiro.

Chico Mendes provocou um despertar mundial sobre a importância de preservar o meio ambiente.  “Se um anjo baixasse do céu e me garantisse que minha morte fortaleceria nossa luta, seria um trato justo.” Uma das célebres frases do ambientalista se tornou premonitória. Se em vida Chico provocou o despertar mundial sobre a importância de preservar o meio ambiente, seu sacrifício chamou a atenção para as violações dos direitos humanos sofridas pelos seringueiros, os indígenas, os camponeses e os sem-terra.

No ano em que morreu foram registrados 104 assassinatos por conflitos no campo, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). No ano seguinte essa cifra caiu pela metade, e não variou muito nos anos seguintes.

No entanto, o cenário ainda é alarmante: segundo um relatório da ONG Global Witness, o Brasil é o país mais perigoso do mundo para os ambientalistas. O gigante sul-americano é “um caso extremo de concentração de terras em mãos de grandes latifundiários”, afirma Chris Moye, membro dessa organização.
A maioria dos assassinatos ocorre na região amazônica, principalmente nos Estados do Pará e do Mato Grosso. “Ali a impunidade prevalece, e a lei das armas está acima do Estado de direito. É uma região enorme, difícil de governar, com uma história de conflitos sociais derivados de uma desigualdade extrema”, diz Moye.

A taxa de impunidade pelo assassinato de trabalhadores rurais no Brasil alcança 92%.

Segundo a CPT, a taxa de impunidade por assassinato de trabalhadores rurais no Brasil chega a 92%. Entre 1985 e 2013, houve 1.678 mortes por conflitos de terra e somente 111 condenados. Para Ângela Mendes, a impunidade se deve à fragilidade do sistema penal brasileiro e “ao fortalecimento do agronegócio em detrimento dos usos tradicionais da terra, que ainda não dispõem de garantias”. A chamada “bancada ruralista”, os parlamentares que defendem os interesses dos fazendeiros, conseguiu a maioria absoluta na Câmara dos Deputados nas última

 Chico Mendes propôs a criação de “reservas extrativistas”, áreas públicas protegidas e cedidas às populações locais como um meio de preservar seu modo de vida e o uso sustentável dos recursos naturais. Depois de seu assassinato, em 22 de dezembro de 1988,  a proposta ganhou vida: as Reservas Extrativistas, administradas pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, ocupam extensas áreas na Amazônia brasileira.

“Foi o principal legado de meu pai, e a conquista mais importante para os que vivem dos recursos nacionais: ter a garantia de que não vão ser expulsos a qualquer momento pelos latifundiários”, diz Ângela Mendes.

 

ANOTE AÍ:

Esta matéria, de  DANIELE BELMIRO  (com edições)  foi originalmente publicada no site do jornal El País. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/14/politica/1415989498_987988.html?id_externo_rsoc=FB_CC As fotos são do acervo histórico do Comitê Chico Mendes.

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