O frango Voador da Aeroflot

Por Maria Prestes/Portal vermelho

Chegamos! Ao descer a escada do avião com meus filhos fomos recebidos por um grupo de funcionários do Departamento da América Latina do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), liderado por Victor Guguchkin, que eu já conhecia quando estive em Moscou em 1964. Ele falava um bom portunhol. Tudo muito formal. De imediato nos conduziram para o micro-ônibus. Era uma noite de verão de junho de 1970. Chegamos com fome! A comida que nos serviram no avião da Aeroflot tinha um arroz sem qualquer tempero e o frango voador. Ele era pálido, seco, com pontos com resto das penas e, como diziam os meninos, só faltava cacarejar. Ninguém comeu nada.

Atravessamos a estrada Cheremétiev, cercada de florestas escuras, e depois entramos na larga avenida Leningrádsky, que tinha as laterais floridas. O ambiente externo era escuro, quase nenhum estabelecimento comercial tinha sua fachada colorida, as lâmpadas iluminavam discretamente. Éramos dez: Pedro (19 anos), Paulo (18 anos), João (16 anos), Rosinha (14 anos), Melinda (13 anos), Carlinhos (10 anos), Mariana (9 anos), Zoia (7 anos) e Yuri (5 anos). Eu estava nos meus 40 anos iniciando uma nova etapa da vida.
Estacionamos no pátio interno do edifício nº9 da Rua Gorki, hoje Tverskaya. No térreo, um elevador bem velhinho deixou os menores curiosos. Cercado por grades, ele tinha portas metálicas bem pesadas e barulhentas que, após serem fechadas, acionavam a porta pantográfica móvel. Nunca tinham visto! Os mais velhos diziam que estavam entrando no Túnel do Tempo. Subimos para o quarto andar, a viagem foi lenta até o apartamento nº69. Agora vamos jantar!
Após alguns cascudos e beliscões todos lavaram as mãos e se ajeitaram em volta da mesa. A presença dos funcionários do PCUS inibia. Na mesa: caviar; arenque; salada de repolho; gelatina de frango com cenoura e verduras; pão de centeio; salada de beterraba com alho; pão com recheio de repolho e carne; cogumelos silvestres frescos marinados; cogumelos gratinados em cebola e com creme de leite; e sopa de beterraba. Para beber: suco de pão preto; chá de frutas, chá preto e um refrigerante local gasoso, exageradamente doce.

Caviar Russo – Preto e Vermelho
Nada se parecia com o que estavam acostumados: macarronada ou feijão com arroz, bife acebolado e batata frita. Na sobremesa nos ofereceram maçãs, geleia de smorodina e panquecas doces. Meus filhos comeram de tudo um pouco naquela noite silenciosa de Moscou, quando adentramos pela primeira vez no amplo apartamento que ocuparíamos por nove anos. Quatro quartos, sala, escritório, cozinha e um banheiro para todos.
Estávamos num edifício histórico, construído a mando do secretário-geral do PCUS, Josef Stalin, após a II Guerra Mundial. O mármore que reveste a sua fachada foi trazido até a periferia da Capital russa em 1941, quando o exército de Hitler acreditava numa vitória rápida sobre o exército Vermelho. Com o mármore os alemães pretendiam erguer na Praça Vermelha um monumento ao triunfo do nazismo. Por ironia do destino, a obra do prédio foi executada por centenas de militares alemães que foram feitos prisioneiros pelas tropas soviéticas na Batalha de Stalingrado. Foram nossos vizinhos neste prédio o revolucionário chileno Luis Corvalán; o célebre diretor de cinema Serguei Bondartchuk, autor de filmes como “Guerra e Paz”; e o grande poeta soviético Robert Rojdestvenski. O compositor Dmitri Chostakovitch residia num prédio ao lado.

Edifício nº9 na rua Tverskaya (antiga rua Gorki), Moscou, Rússia
Os talheres e as tigelas coloridas de porcelana fina, os copos e as taças de cristais, as branquíssimas toalhas de mesa e os guardanapos não nos fizeram esquecer do frango voador da Aeroflot.
Receitas:

Frango Voador
No avião da Aeroflot conheci o Frango que apelidamos de Voador. Mas foi nos restaurantes populares que constatei que esse modo de preparo era muito difundido e aceito.
Ingredientes: Um frango inteiro limpo com ossos, sem miúdos; folhas de louro, alho, sal e pimenta do reino a gosto.
Modo de Preparo: Em uma panela com água fervente cozinhe o frango durante 45 minutos.
Observação: Servir sem o caldo.

Gelatina de Franco – Rolodéts
Foi a querida amiga Valentina que teve a paciência de me ensinar a preparar rolodéts durante o verão de 1971.
Ingredientes: Meia dúzia de pés e pescoços de frango; gelatina sem sabor; salsa; pimenta do reino; cebola; sal a gosto.
Modo de Preparo: Cozinhe todos os ingredientes juntos até se desmancharem. É importante manter grande quantidade de caldo na panela, não deixar secar. Retire os pés de frango e pescoços para desfiar. O restante passe por uma peneira. Junte a carne desfiada e os ingredientes peneirados ao caldo quente da panela e acrescente gelatina sem sabor.
O caldo gelatinado pode ser despejado integralmente num tabuleiro grande ou em pequenos recipientes. O mesmo deve descansar na geladeira por cinco horas. Antes de colocar o rolodéts no tabuleiro ou nos recipientes, coloque no fundo cebolinha picada e rodelas de tomate. Dessa maneira, o prato ficará com ótima apresentação quando retirado da forma.
Observação: Este prato é servido como entrada com mais frequência no verão e também pode ser feito de peixe fresco ou de carne bovina.

Salada de beterraba
Muito popular na Rússia, esta salada pode parecer um pouco estranha para os brasileiros (beterraba com alho?!). Mas é uma entrada bem saborosa.
Ingredientes: 3 beterrabas; 4 dentes de alho;  meio limão; uma colher de sopa de vinagre; azeite de oliva, sal e açúcar a gosto.
Modo de Preparo: Cozinhe as beterrabas, rale todas elas e acrescente uma colher de chá de sal. Pique bem a cebola e deixe descansar por 15 minutos na água com vinagre. Misture a cebola com as beterrabas raladas. Acrescente os dentes de alho bem picados e uma colher de chá de açúcar. Para finalizar esprema meio limão e acrescente uma colher de sopa de azeite de oliva.
Observação: Em muitas casas russas essa salada é servida como pasta para passar em fatias de pão.

Conserva de tomates ou pepinos
Visitando as casas de veraneio, as famosas dachas de várias famílias russas, pude apreciar o preparo destas conservas. Foram a Tamara Starostina e a Irina Poloiko que me ensinaram o preparo.
Ingredientes: 1 kg de tomates ou pepinos pequenos; 1 colher de chá de sal; 1 vidro de vinagre; endro, salsa, louro; ½ litro de água morna.
Modo de Preparo: Lavar bem os tomates ou pepinos, em um vidro grande fazer uma salmoura com o vinagre, endro, salsa e folha de louro. Acrescentar água morna ao vinagre, colocar nesta salmoura os pepinos ou tomates. Em seguida tapar bem o vidro e deixar por alguns dias em local fresco. Está pronta a conserva.
Observação: Essa conserva pode ser feita com cenoura, repolho cortado em tirinhas ou maçã. Nas aldeias preparam essas conservas para durar todo o inverno. São acondicionadas em vidros hermeticamente lacrados. Frequentemente, nas casas russas as conservas são guardadas em lugares frios.

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Cogumelos ao creme de leite – Julién
Após o verão, as famílias russas guardam grande quantidade de cogumelos secos, que ficam em vários pontos das casas, pendurados em barbantes. Também produzem cogumelos em conservas. O creme de leite é um ingrediente muito usado – mas não pensem que é o nosso creme de leite enlatado! Na Rússia ele é inigualável, o que faz o prato em questão ter um sabor diferenciado. Nos banquetes do governo soviético, no Kremlin, nos congressos do PCUS, sempre serviam esse julién. Ainda guardo na memória os garçons, com bandejas enormes, adentrando pelos salões dos palácios a servir esta iguaria russa.
Ingredientes: ½ kg de cogumelos frescos; 500gr de creme de leite fresco (nunca o enlatado); 1 colher de manteiga; 1 cebola pequena.
Modo de Preparo: Lave bem os cogumelos e deixe-os de molho por uma hora. Pique bem a cebola. Numa frigideira, com 1 colher de manteiga, deixe os cogumelos dourarem. Em seguida, acrescente a cebola que também deve ficar dourada, sempre mexendo para evitar que queime. Acrescente o creme de leite e, quando engrossar, coloque o conteúdo em pequenas tigelas refratárias ou metálicas. Cubra com lascas de queijo mozarela e coloque no forno por 30 minutos.
Observação: Na Rússia, o julién frequentemente acompanha uma salada de batatas cozidas.

Sopa de beterraba – Borch
Aprendi a preparar esta sopa em dezembro de 1970, na casa da amiga Helena Ivanova, em Moscou. No exílio, ela foi nossa primeira tradutora de russo. A Borch é um prato habitual nas mesas das famílias daquele país. É quase o feijão com arroz dos brasileiros. Aqui apresento o borch russo, que é diferente do borsh ucraniano.
Ingredientes: 4 Beterrabas médias; ½ kg de peito de boi; 3 dentes de alho; 1 cebola; 2 cenouras; 1 pimentão; ½ repolho; louro, pimenta do reino, salsa e cebolinha a gosto.
Modo de Preparo: Em uma panela cozinhe as beterrabas com casca. Quando estiverem cozidas, retire as mesmas, rale-as e as deixe descansar à parte com uma colher de vinagre. Na mesma panela funda cozinhe a carne junto com a cenoura picada e os temperos. Quando a carne estiver bem macia, retire-a da panela e a corte em pedaços, voltando com a carne à panela em seguida. Acrescente o repolho picado em lascas. Dez minutos antes de servir, junte a beterraba ralada ao caldo.
Observação: Esta receita pode ser servida com creme de leite – é comum ter um potinho com creme de leite na mesa para que cada um se sirva. No inverno é muito saboroso degustar essa sopa.

Salada de repolho
É muito solicitada nos restaurantes de Moscou, até mesmo nos mais populares, frequentados pelos trabalhadores. Foi no verão de 1971 que aprendi a preparar esta salada com a querida amiga Valentina.
Ingredientes: 1 repolho pequeno; ½ kg de músculo; 1 folha de louro; 3 dentes de alho; 1 cebola picada; 1 pimentão em lascas; salsa e sal a gosto.
Modo de Preparo: Numa panela, tempere o músculo com louro, alho, cebola, pimentão e sal. Deixe cozinhar até a carne ficar macia. Em seguida, corte o repolho bem fininho. Assim que a carne estiver cozida junte com o repolho e deixe cozinhar por mais 20 minutos. Por ultimo coloque a salsinha.
Observação: Repolho é um dos produtos mais frequentes na cozinha russa.

Bebidas:
Suco de pão preto – Kvás
Julgo que depois da vodca, o kvás é a bebida mais popular na Rússia. Como é preparado artesanalmente, ele é de difícil engarrafamento. Claro que existe a produção industrial, mas não chega aos pés do kvás fresco. Infelizmente, até hoje não aprendi a receita.

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Kvas é servido nas ruas de toda Rússia

Fonte: Cate

Block
UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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