A semana que passou trouxe perspectivas de mudanças.  As prosas nas rodas de conversas e nas mensagens “levadas pelos ventos“  sinalizam haver chegado o momento de discutir e implantar mudanças a partir das nossas vivências e do nosso cotidiano aqui no Juruá.

No Alto Juruá, a campanha do professor Isaac Toto, um líder Ashaninka,  ganha força. No Médio Tarauacá, os Huni Kuin da Terra Indígena (TI) Praia do Carapanã vão se reunir para discutir a cultura e, no Envira, os Shanenawa já sinalizam que os meses finais deste tumultuado ano de 2016 trarão mudanças sensíveis na organização de suas comunidades.

Na sociedade nawa (não-índia), ainda estamos numa encruzilhada de possibilidades que, à primeira vista, não são muito claras. Também, este período eleitoral em que estamos em nada contribui para certezas futuras.

Mas temos mudanças muito mais profundas que vem transformando nossa sociedade e cultura, consolidando novas dinâmicas “de vida” em nossa contemporaneidade urbana.

Não gostar de mudanças é uma característica humana. Claro que neste mundo diluído que vivemos hoje em dia, as mudanças ocorrem na velocidade com que somos bombardeados com novidades tecnológicas, novos paradigmas sociais e novas tendências culturais.

Não lembro onde li ou assisti, mas me veio à mente uma interessante colocação de que tudo na nossa vida é um retângulo: dormimos numa cama retangular, dentro de um quarto retangular, nossa casa é retangular; nosso carro é retangular; entramos em um prédio retangular onde sentamos em nossas cadeiras,  dentro de salas retangulares, e olhamos para a tela retangular de nosso computador.

Essa perspectiva de padrões e transformações sempre incomodaram em menor ou maior grau e, atualmente, nesta cultura touch screen em voga e que busca nos redimensionar ergonomicamente, este desconforto me faz desejar e amar os momentos em que entro num barco ou carro e sigo para alguma aldeia.

A sensação de subir um rio com a floresta nos cercando e sentindo a brisa em nosso rosto é algo maravilhoso.

E o que me anima a uma aventura dessas, ao contrário do que algum leitor possa pensar, não são as festas com danças, pinturas e demais atividades, comuns nos famosos festivais tradicionais nas terras indígenas acreanas.

O que gosto mesmo é do cotidiano, da velocidade natural e totalmente atemporal, que nos liberta dos ponteiros estabelecidos do relógio.

Gosto de conversar ouvindo a voz do meu interlocutor – ou interlocutores. De assuntos longos e que, nos “papos de índio” com suas hipérboles e histórias correlatas, dão sentido ao assunto que está sendo tratado.

São nessas conversas que ouvimos pérolas de ensinamentos de vida, que nos são dadas espontaneamente pelos mais velhos.

O mundo tá mudando txai, o nawa tá correndo demais e deixando de prestar atenção nas coisas. As coisas boas da vida passam por ele, que nem nota que está perdendo algo – me disse certa vez o velho e saudoso Inkamuru (Agostinho Huni Kuin), ensinamento lindo, devidamente registrado em meu diário de viagem de 2005.

Gosto de tomar o huni em rituais sem formalidades, adornos e gestos desnecessários, pois esses não serão vistos, já que, com os olhos carnais cerrados, somente os olhos do espírito enxergam no escuro da floresta, onde as canções tradicionais me embalam nos mistérios ancestrais da tradição.

As mutações e transmutações dos seres espirituais, que se apresentam nas ondas sagradas do chá mágico, nos ensinam e nos conduzem nas trilhas misteriosas da floresta ao redor.

O chamado “tempo indígena” de como ocorre o dia-a-dia e seus afazeres sempre me foi agradável e imbuído de uma lógica já perdida no caos urbano em que vivemos: fazer o que tem que fazer, no momento em que der pra fazer, para que seja feito com vontade e tempo disponível para tal.

Para quem vive nos grandes centros urbanos, onde o contato humano e a interação com a natureza estão cada vez mais restritas, minhas vontades podem parecer até “bicho grilo demais”, mas não são.

A passividade do rio, sempre ali, provendo a aldeia com o alimento saudável do pescado, propiciando o refrigério e a limpeza do banho que tem uma energia própria, que nos limpa o corpo e energiza o nosso yuxin, pois estão temperadas com as ervas e energias da floresta.

O crepúsculo e a aurora são sempre um espetáculo à parte, de cores e sons, onde o céu nos brinda com sua pintura de harmonia e o som dos pássaros e demais animais mesclam-se em uma sinfonia única, que muda a cada dia.

Gosto muito da simplicidade, tempero e filosofia da prática alimentar na aldeia, tão em contraposição ao tal do fastfood que cada vez mais toma conta de nossa dieta alimentar, bagunçando com nosso organismo. Comida caseira! Desconfie destas palavras quando as ler em letreiros dos restaurantes.

Até nisso temos ensinamentos. Lembro-me de uma conversa com o professor Chere Katukina, em 2004, durante uma de minhas pesquisas, em que conversávamos sobre os alimentos na aldeia e a prática de comprar alimento nos mercados:

Para nós, peixe, frango, essas coisas congeladas não sustentam nosso corpo enquanto povo Katukina. E a gente comendo coisa da floresta, coisas naturais, que são tiradas no mesmo dia, na mesma hora, a gente vai estar depositando o espírito da floresta dentro do nosso corpo. E aí, uma criança, um adulto, que tem o espírito da floresta, naquele espírito do animal, do peixe, essa pessoa vai estar ligada… (…) Se alimentando com os animais da floresta, o peixe está dentro d’água e aquilo para nós é uma coisa viva. Mesmo que ele esteja morto, mas o espírito não está morto, continua vivo, e incorpora na gente, e esse espírito chama a gente para continuar com a gente. Mas quando a gente come um animal que estava no congelador há vários dias, não tem mais espírito ali dentro, que possa ajudar. Quer dizer, que tem espírito da cidade, do mundo da cidade, tem hormônio que pode ficar mais tempo no corpo; e aí quando a gente come os produtos da cidade, a gente fica ligado nos produtos dos brancos, dos nawa.

Pois é… em nossa vida urbana, cada vez mais se perde mais espaço para criarmos animais, pescarmos e mantermos esta sinergia com a natureza. Uma coisa comum em minha infância era ver minha avó matando uma galinha no domingo para o almoço em família. Isso é tão raro hoje em dia…

Quando conhecemos e temos contato com este “mundo indígena” passamos a ter referências diversas que nos possibilitam uma leitura bem mais saudável da realidade que nos cerca.

A dinâmica como os povos indígenas vem se relacionando com esse mundo não-indígena, desde o contato, nos mostra como é possível equilibrar as transformações ao redor, neste planeta cada vez mais globalizado, com o nosso pequeno mundo familiar e, também, com nossa ligação com a natureza através de coisas básicas que, sem percebermos, estamos deixando para trás.

Claro que temos diferentes situações em que se encontram os povos indígenas em nosso país. Também não quero reproduzir a visão maniqueísta de Montaigne e o seu mito do “bom selvagem”, tão em voga nos extremismos vividos por alguns defensores e os muito detratores da cultura indígena.

Mas  aqueles que têm a possibilidade dessa vivência como venho tendo nos últimos dezesseis anos, com certeza irão entender e compreender o que aqui expus.

O que posso dizer é que essas experiências me fazem transpor esta minha existência retangular, que cada vez mais é regra no mundo moderno e, também, contribuem para o equilíbrio e controle da força do “tempo” cronometrado sobre meu cotidiano citadino.

Como bem observado pelo professor Leandro Karnal, em nossa vida urbana estamos cada vez mais dependentes da Tabela Periódica para termos felicidade e vivermos em um estado de existência adequada aos padrões geométricos e líquidos desse mundo.

Já citei em textos anteriores que algumas comunidades indígenas acreanas estão desenvolvendo as chamadas “vivências”, onde os visitantes podem vivenciar momentos de desenvolvimento espiritual e do cotidiano das comunidades.

É uma experiência ainda em estágio inicial, que precisa ser melhor analisada e devidamente normatizada, claro, mas que não deixa de ser uma oportunidade interessante.

É isso. Posso dizer que não conheço uma só pessoa que tenha experimentado esse cotidiano indígena e que não tenha sofrido alguma transformação em seu ser e em sua vida.

Enquanto termino este texto, atento para a data de aniversário do grande antropólogo e indigenista Txai Terri Aquino, sobre quem já escrevi antes e que na última sexta-feira completou 70 anos. Este indigenista foi quem me inspirou a trilhar o caminho do indigenismo e o Acre indígena tem muito a agradecer a este txai.

Infelizmente, enquanto se comemorava seu dia de aniversário, larápios invadiram e roubaram o Centro de Formação dos Povos da Floresta, que sedia a ONG Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC) – fundada por Terri Aquino no final dos anos setenta – e a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC).

ANOTE AÍ:

Huni – bebida sagrada dos indígenas, mais conhecida como ayahuaska na sociedade não-índia;

Yuxin – espírito/alma. Para muitos povos indígenas do Acre o ser humano tem dois espíritos, o yuxin e o yuxibu.

Jairo Lima é indigenista, Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano. Conheça mais sobre seu trabalho: http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br

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Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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