Yuxin ou Alma?  A  dialética do sagrado em terras indígenas – 

Vivemos tempos confusos. As divergências políticas tendem a apartar os corações e a findar amizades , dando-nos a sensação de que vivemos num maniqueísmo ultrapassado, que está dividindo e transformando a sociedade numa caricatura atualizada e pândega da disputa entre guelfos e gibelinos.

Com as lentes, mentes e corações direcionados ao Planalto Central,  pouca atenção sobra para a periferia nacional,  onde minorias lutam e morrem a cada dia.

É impressionante a indiferença com que a imprensa e as autoridades políticas tratam as notícias de conflitos entre índios e fazendeiros por um naco de terra enquanto as redes sociais, programas de TV e jornais se regozijam e alardeiam as imagens de pseudo-celebridades que “quase mostraram demais” durante suas férias em Ibiza ou em Búzios.

Certo dia, deparei-me com uma notícia intrigante, que citava o desejo da chamada “bancada evangélica” de ter o poder de questionar o Supremo Tribunal Federal (STF) nas decisões tomadas por essa instância da justiça.

Essa tal bancada me lembrou que existem certos assuntos que vez ou outra precisam ser abordados a fim de que não os esqueçamos e inadvertidamente voltemos a trilhar o mesmo caminho e cair nos mesmos erros. Assim, trato hoje de um tema muito controverso, e que coloca mais um tempero extra nesse clima maniqueísta que vivemos: a presença e/ou entrada de missionários em terras indígenas.

O assunto é delicado porque envolve a intersecção entre a singularidade da cultura tradicional indígena, incluindo sua proteção e a não menos sensível “liberdade religiosa”, direito de todo cidadão brasileiro e de toda cidadã brasileira.

Eu, particularmente, acho surreal que em pleno século XXI ainda exista quem acredite ser necessário “levar a luz” para os “pobres e pagãos indígenas”,  ou que ache ser necessário “converter o próximo” como pré-requisito para ter pavimentado o seu caminho para o paraíso.

Mesmo sendo um admirador dos escritos de Santo Agostinho, acho difícil entender a que ponto a cegueira cultural e a miopia espiritual impelem alguém a tentar convencer uma aldeia indígena inteira que suas práticas e expressões da cultura tradicional são sinais de espíritos apegados às coisas do demônio e que suas almas estarão condenadas às danações infernais para sempre.

Somente o fanatismo fundamentalista é capaz de explicar isso. Fanatismo este perfeitamente descrito por Voltaire quando o conceitua como “uma loucura religiosa, sombria e cruel, uma doença do espírito que se pega como varíola”.

Quando comecei a atuar em comunidades indígenas, praticamente não havia mais missionários estrangeiros atuando no Acre. No entanto, tive a oportunidade (e o desprazer) de ver e vivenciar situações envolvendo missionários que me marcaram profundamente.

Experiências como em determinado ano eu havia chegado a uma aldeia (não citarei qual) exatamente uma semana após a saída de uma família de missionários do Novas Tribos do Brasil. A sensação de abandono era nítida, o olhar triste e desalentado de muitos na aldeia contrastava com a opulência e a majestade da floresta ao redor, com todas as suas possibilidades de acesso a alimentação, vestuário, medicina, etc.

Parecia que eu chegara em uma cerimônia fúnebre onde somente faltava o corpo presente e as lamúrias das carpideiras. Pouco tempo depois topei com estes missionários em outra localidade e que, impedidos de morar dentro de uma determinada terra indígena próxima, decidiram morar a menos de cem metros do seu limite.

Passei um tempo observando-os em sua rotina assistencialista nas aldeias e confesso que até me impressionei com a interação entre eles e os indígenas, assim como eram inegáveis os insumos (remédios, ferramentas, etc) doados para as famílias, as palestras e oficinas sobre o consumo de álcool, etc. Porém, ao analisar as motivações dos apoios às comunidades assim como o objetivo final desse altruísmo todo cheguei à conclusão que “o preço a ser pago” seria alto demais.

Em 2014, em parceria com a antropóloga e indigenista Ivanize Rodrigues, ajudei a construir um parecer sobre o assunto, em resposta a uma demanda do Ministério Público Federal do Acre. Destaco aqui um pequeno trecho desse documento:

“(…) Se por um lado, a presença dos religiosos provoca a redução de hábitos muitas vezes nocivos como a ingestão de bebidas alcoólicas e uso de drogas, por outro lado, há a gradual adoção de práticas culturais “ocidentais” em detrimento dos cantos, danças e demais costumes característicos de cada povo. Não raro, as pinturas corporais transformam-se em símbolos do “pecado” que deve ser cotidianamente combatido, assim como a prática da ingestão da ayahuasca (cipó) e do rapé. (…) Do tempo do barracão nos seringais à fase onde as igrejas estão sendo construídas nas próprias aldeias, os povos indígenas tem experimentado o constante assédio da sociedade envolvente, e poucas são as iniciativas que de fato buscam promover o fortalecimento das práticas culturais dessas populações, até porque o que está “em jogo” é justamente a sua conversão. (…).

Sintetizando a reflexão acima: parar de beber a partir de uma decisão consciente tendo como pressuposto uma questão de saúde e a estabilidade sociocultural da comunidade é uma coisa. Parar de beber por medo de estar pecando e por isso ter sua alma condenada ao inferno é outra bem diferente. Afinal, altruísmo verdadeiro é aquele em que não se espera pagamento de volta.

Os anos passaram e vejo uma nova geração de missionários que vem se instalando em algumas aldeias. Desta vez, no entanto, estes missionários são indígenas convertidos na cidade ou a partir da visita de “grupos evangelizadores” às aldeias.

Apesar disso não apresentar a peçonha igual ao que aconteceu em outras épocas, vem gerando conflitos em algumas terras indígenas onde os anciões ou os pajés locais sentem-se ameaçados ou veem com maus olhos essa “moda”. Concordo com eles.

É claro que a ação de missionários, de instituições filantrópicas diversas,  ou até mesmo de pessoas que se mostram interessadas em desenvolver projetos e trabalhos diversos em terras indígenas vem, muitas vezes, preencher espaços que poderiam ser ocupados pelo próprio Estado. O poder público deve voltar sua atenção para este fenômeno crescente, buscando efetivar a presença das políticas públicas de saúde, educação e assistência social junto aos povos indígenas.

Claro que não se pode cercear o direito e a autonomia dos povos indígenas na escolha de que fé ou caminho espiritual seguir, garantindo-lhes a liberdade de escolha baseada no pleno entendimento de onde estão se metendo. Ocorre que nem sempre a adoção de uma fé ocorre com a liberdade e o esclarecimento mencionado.

Infelizmente, de maneira geral o que impera é a intolerância e o preconceito para com a diversidade e a mística das crenças indígenas, inserindo-as num conceito ocidental que as vê como heréticas e blasfêmicas, o que, a bem da verdade, são conceitos inexistentes nestas culturas tradicionais.

Assim, a visão simplista de alcançar o céu através de um suposto combate ao pecado para não ir para o inferno subtrai o verdadeiro sentido filosófico em que se acredita ter a fé religiosa, segundo Santo Agostinho, um dos “pais da igreja”, chegado ao momento (isso ainda no século V) de diálogo com a inteligência humana. Posto isso, podemos entender que esse fundamentalismo, reinante e cego para a pluri diversidade, contrapõe-se a esta visão de fé.

Podemos então conjecturar ser este fundamentalismo fanático tão somente a união da mais pura fé religiosa com a mais repugnante ignorância humana. Isso explica muita coisa.

A beleza, profundidade, naturalidade e alcance filosófico das crenças indígenas nos remetem ao logos tão buscado pelos pensadores antigos, ao mesmo tempo em que nos mescla à natureza ao redor. Quem já teve o corpo pintado com os kene (grafia tradicional indígena) ou comungou de algum ritual tradicional indígena sabe bem do que estou falando. Assim, quando alguém ou alguma linha religiosa define como demoníaca estas expressões da cultura tradicional, além de se cometer um crime também demonstra a pequenez e a superficialidade do espírito e da própria crença que segue.

Aqui em nosso querido e por vezes esquecido Aquiry vejo que, de maneira geral, vem acontecendo um grande amadurecimento das comunidades no tocante à necessidade de fortalecer a sua cultura tradicional e o panteão espiritual que essa cultura traz sem criar espaços de atritos com outras crenças que “convivem” no espaço da aldeia.

Festivais, encontros e outros eventos de valorização cultural, como as pesquisas e o intercâmbio entre terras indígenas, vem crescendo exponencialmente em nossa região, o que nos traz outro grande desafio: garantir que essa expressão cultural também seja de livre escolha das comunidades, e não imposta pelas pressões institucionais ou ideológicas de grupos ou instituições.

Na contramão deste banzeiro judaico-cristão, vemos também crescer em muitas comunidades um movimento de uso da cultura tradicional por parte de grupos que descobriram ser esta a principal maneira de apresentar sua identidade étnica e trazer benefícios para seu povo.

No contra fluxo do movimento evangelizador “ocidental” tem crescido o movimento de lideranças e pajés que constantemente realizam eventos de curas e divulgação de suas crenças em diversas partes do Brasil e, em alguns casos, até em outros países.

Vemos como resultado imediato disso o aumento – pelo menos aqui no Juruá – de visitantes que procuram cada vez mais as comunidades indígenas em busca “cura” e de “autoconhecimento”. Em minhas andanças pelas aldeias já topei com monges budistas, judeus e até gurus indianos trocando experiências com lideranças e participando de rituais com pajés.

Estes visitantes participam de eventos diversos como as “vivências”, dietas, festivais e outros tipos de interações com os indígenas e os espíritos da floresta. Interação esta que é revertida, muitas vezes, em ganhos para a comunidade, seja em forma de projetos, seja em forma de doações; e o melhor de tudo isso é: não custa a alma de ninguém.

É bom frisar que não sou ateu, muito menos “anti” isso ou aquilo ou “anti” essa ou aquela doutrina religiosa. Acontece que faz muitos anos que descobri que minhas “verdades” não precisam ser as “verdades” do próximo para que eu trilhe o bom caminho e alcance a iluminação espiritual e filosófica da existência. É como diz a letra de uma das mais lindas canções de Bob Dylan: conhecerei minha canção antes de começar a cantá-la.

É isso…missionários em suas missões incoerentes, como Don Quixote em busca de seus gigantes. Finalizo por aqui até mesmo para não me estender em linhas que não carecem de novas sentenças.

Sei que o assunto flui. Flui mesmo, assim como as águas do meu querido Aquiry que serve de porta de entrada para os poderosos rios que banham a Amazônia. “Queira Deus” que continue assim, fluindo e levando vida ao Brasil Amazônico, como o Nilo sempre levou à terra eterna dos faraós, ou ainda como o Tigre e o Eufrates que banhavam o Éden.

Isso nos dá a sensação gostosa de que, na verdade, o paraíso é aqui, no éden indígena.

Naka ashitayene nowatha nokiriãtxari apanirõyne (meu espírito é livre para pensar…)

ANOTE AÍ:

 

Jairo Lima, indigenista acreano, publica seus textos no blog cronicasindigenistas.blogspot.com.br As imagens desta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de: 1) Ibã Huni Kuin, artista indígena Kaxinawa, finalista do Prêmio Pipa 2016; 2) autoria desconhecida; 3) Tiago Tosh, artista acreano; 4) autoria desconhecida.

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