Arte rupestre no Cerrado: Uma pequena reflexão –

Ainda estamos engatinhando na busca do que representa e do que significa toda esta arte do Brasil Central.

Claramente se percebe que os diferentes estilos são limitados localmente e que pertencem a tradições amplamente espalhadas pelos quatro cantos do país. Para cada um deles não há só conteúdos diferentes, mas também diferentes maneiras de representar as coisas e, em certo sentido, até lugares diversos para colocar as figuras.

Cada um dos estilos não é, em si mesmo, tão rigidamente padronizado como às vezes nos sugere o termo, mas pode usar extrema flexibilidade nos objetos representados, na maneira de representá-los e nos lugares para isso escolhidos. Dos estilos estudados, o de Serranópolis apresenta maior variabilidade, mas Caiapônia não fica muito atrás.

Algumas populações foram capazes de elaborar pinturas naturalistas com muito movimento e cenas de grande criatividade, como as de Caiapônia. Outras produziram cenas altamente estilizadas, mas muito sugestivas, como as de Jaraguá.

A maior parte não soube ou não quis dar movimento às figuras e simplesmente as justapôs ou distribuiu no espaço uma forma mais naturalista em Serranópolis, mais estilizada em Itapirapuã e na Bahia, ou simplesmente geométrica, em Formosa e também em Monte do Carmo.

Há as que usam só a pintura, como em Caiapônia, Formosa e Bahia; outras, a pintura e a gravura, como em Serranópolis;  e outras só a gravura, como as demais, mesmo se às vezes preenchem os sulcos com pigmentos, como em Monte do Carmo-TO.

O lugar das sinalizações costuma ser o próprio abrigo onde moram, ou um lajedo ou bloco de pedra na proximidade de uma aldeia, quando agricultores.

O que as figuras representam? A maior parte das cenas e outras figuras naturalistas parecem clichês ou representações da realidade cotidiana, como a caçada, o abastecimento, a família, as brincadeiras, os animais em movimento ou parados.

Jaraguá também? Ou temos aí algo diferente, como uma cena de sacrifício real ou mitológico? Os altamente estilizados de Itapirapuã, tão obscuros para nós e ao mesmo tempo tão sugestivos: imensas serpentes estendidas, enroladas, com perninhas; plantas com flores; pisadas dos mais variados animais do Cerrado. E a quantidade de figuras que classificamos como geométricas em todos os lugares?

Como eles se encaixam no cotidiano das populações? Certamente são excelentes marcadores de lugar. Qualquer morador indígena poderia identificar sem erro, nem problemas, o “paredão das araras”, onde existe o melhor material para fazer instrumentos de pedra; o imenso salão coberto da “mulher pintada”, onde cabia todo o bando para a estação das chuvas; a aldeia junto ao “lajedo das cobras”, onde o moço agricultor tinha de escolher a sua noiva.

Para esta identificação, poderia servir tanto uma figura isolada como um conglomerado sem sentido aparente, ou uma cena como a “ciranda dos macacos”. Poderia servir também para marcar e delimitar o território de cada um dos grupos nômades.

Mas seria só isto? Com certeza, não. A pintura “veste” os abrigos por mais inóspitos que eles tenham parecido inicialmente, tornando-os domésticos e hospitaleiros.

Isto é evidente nos grandes abrigos de paredes verticais, cheios de quadros muito elaborados, mas aparece mais ainda nas pequenas furnas, onde as irregularidades das paredes e dos tetos são cobertas por rudimentares volutas e arabescos, que decoram todo o espaço; ou em abrigos de tetos inatingíveis, contra as quais se jogam mãos cheias de tinta para que os seus respingos os transformem em verdadeiro céu estrelado.  Só os espaços decorados são habitados. Abrigos com pouca decoração eram poucas vezes utilizados.

E poderia servir, também, à competição e ao treinamento. As pinturas mais bonitas estão nos lugares de mais difícil acesso, obrigando o artista a subir na ponta de árvores, nas saliências perigosas das rochas, ou a armar um andaime primitivo. E os mais simples estão perto do chão, como se fossem produto de mão infantil, imitando o que o mais velho fazia mais para cima.

Os lajedos com gravuras à beira dos córregos e das lagoas, onde mora a sucuri, seriam excelentes lugares para os rituais coletivos ou para a meditação particular.

O que é certo é que as pinturas e gravuras representam algo de muito importante para os seus criadores: elas continuaram durante ao menos dez mil anos e foram respeitadas de tal modo que só raramente se encontram figuras sobrepostas, apesar de terem sido complementadas durante inumeráveis gerações.

Nelas certamente está representada parte da sua história, da sua sociedade, da sua cultura. E, ao mesmo tempo em que sucessivas gerações indígenas aprendiam através delas, como um patrimônio do passado, com satisfação as complementavam, aumentando o legado para as gerações futuras.

As gerações indígenas terminaram e as suas gravuras e pinturas foram abandonadas e esquecidas. Até que nós as encontramos. Hoje são patrimônio da humanidade e nossa responsabilidade.

Deixe uma resposta