Ararajubas ganham uma segunda chance em Belém

Por: Pedrosa Neto/amazoniareal

 Belém (PA) – Neste mês de maio, se tudo der certo, cinco ararajubas vão poder voar livres nos céus do Pará. Elas vieram do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Maranhão e, depois de um delicado processo para ensiná-las a lutar pela sobrevivência, estão prontas para ser soltas.

O aguardado momento coroa o Projeto de Reintrodução de Ararajubas na Região Metropolitana da capital paraense, também conhecido como “Belém Mais Linda”. Nos últimos dois anos, voltaram à natureza 21 de 35 animais que passaram pelos viveiros do projeto, que seguem sendo monitorados pelos pesquisadores. As aves eram consideradas desaparecidas da Região Metropolitana da capital, conforme registros científicos que datam de 1868.

As ararajubas (da espécie Guaruba guarouba) pertencem à família dos psitacídeos, e são facilmente identificadas pelas cores que remetem ao auriverde da Bandeira Nacional. Valorizadas no comércio ilegal de animais silvestres, e mantidas em cativeiro como exóticos animais de estimação, as aves também sofreram com a redução de seu habitat natural. Entre os anos 40 e 50 a população foi reduzida drasticamente na região metropolitana de Belém e tal ocorrência coincide com o arco de desmatamento da Amazônia – quanto mais desmatada a região, menor a incidência dessas aves.

Em pelo menos três listagens oficiais, a ararajuba figura entre animais em perigo de extinção: no Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas de Extinção – 2018, do Ministério do Meio Ambiente, no qual recebe a classificação de vulnerável (menos de 10 mil indivíduos em vida livre); na Cites (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção); e na da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em Inglês).

Ararajubas na sede do projeto (Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real)

A soltura das aves é um feito a ser comemorado, quase heroico. O projeto é fruto de uma parceria entre o Ideflor-Bio – uma autarquia do governo estadual pela gestão de áreas de conservação – e a Fundação Lymington, que se tornou fiel depositária de alguns exemplares de ararajubas apreendidos pelo Ibama e outros órgãos de fiscalização.

Parcerias desse tipo não são novidade, mas era incomum que a depositária estivesse localizada a 2.932 quilômetros, em Juquitiba, no estado de São Paulo. Nessa distância, os biomas são outros. Mas foi na Mata Atlântica que alguns indivíduos conseguiram não só se adaptar bem, como também procriaram no plantel (grupo de animais reservados e aptos para reprodução), montado pela Fundação Lymington, em 2014, com os animais apreendidos.

Com a progressiva recuperação das aves, a Fundação precisou buscar espaços na Amazônia para poder reintroduzi-las na natureza, segundo informou Nívia Pereira, bióloga e gerente de Biodiversidade do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio). No ano seguinte, foi assinado um convênio com o instituto, contando com o financiamento do fundo de compensação ambiental da exploração do minério de bauxita, por parte da multinacional Alcoa, localizada em Juruti (PA).

A informação sobre o abastecimento da produção de alumina da Alcoa para a mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena, como foi publicada anteriormente neste trecho, está errada; portanto, foi retirada desta matéria. Em nota enviada à agência Amazônia Real, a Alcoa diz “que não destina bauxita de suas operações para abastecimento da produção de alumina da Hydro Alunorte“. Leia a nota no final desta reportagem.

Vítimas de maus tratos

No início de 2016, foi decidido que o Parque Estadual do Utinga, localizado entre os municípios de Belém e Ananindeua, seria a base para a reintrodução das ararajubas. É nesse parque, fundado em 1993, que ficam os mananciais de Bolonha e Água-Preta, responsáveis pelo abastecimento de 70% da região metropolitana da capital paraense. Ele foi reinaugurado e reaberto para o público em 2018.

Em agosto de 2017, as primeiras aves chegaram ao parque estadual, enviados pela Fundação Lymington. Para acompanhar a última etapa, o biólogo Marcelo Vilarta mudou-se para Belém, onde ficou responsável pelo trato das aves e por administrar as adaptações climática e alimentar, a apresentação das aves aos perigos dos predadores naturais e finalmente pela soltura. Mestre em ecologia, Vilarta lembra que parte dos animais que chegaram à fundação vinham de um longo período de contato com humanos, alguns vítimas de maus tratos.

“Na Fundação, os animais eram alimentados com frutas como o mamão, a maçã, além de sementes de Girassol, alimentos característicos da mata atlântica”, lembra o pesquisador Marcelo Vilarta. “Quando eles chegaram aqui, começamos a introduzir o muruci, o açaí, e outros frutos da região amazônica que estão disponíveis tanto no parque, como em diversos pontos da cidade.” Só depois de assegurada a adaptação alimentar, foi possível soltar as aves.

A primeira experiência de soltura das aves no parque foi em janeiro de 2018, e a segunda em setembro. O fato ganhou destaque na mídia local, e a experiência estimulou as chamadas “entregas voluntárias” de animais ao Ibama e a outros órgãos de fiscalização ambiental.

Dos dois grupos de aves reintroduzidas no parque, um deles permaneceu nas redondezas. Esses indivíduos retornam ao espaço onde estão os viveiros para se alimentarem das frutas e de outros alimentos suplementares, deixados por Vilarta. Para os biólogos, esse alimento extra garantiu a rapidez incomum com que esses animais foram reintroduzidos na natureza. Foi desse grupo, acompanhado de perto pelos pesquisadores, que nasceu o primeiro exemplar de ararajuba totalmente selvagem. Nívia contou que o outro grupo vive de forma independente e passou a integrar os céus de Belém, e já foi avistado em diversos pontos da cidade.

O projeto das ararajubas em Belém tinha vigência de dois anos, e expirou em dezembro. A Amazônia Real acompanhou a despedida do biólogo Marcelo Vilarta da equipe. Ele será sucedido pela bióloga e mestre em zoologia Ana Paula Rodrigues, que contará com o trabalho de alguns estagiários contratados pelo Ideflor-bio para atuarem junto às aves restantes.

Os pesquisadores revelam preocupação com o encerramento do projeto, ressaltando que o monitoramento dos animais soltos pode ficar comprometido. Segundo Nívia, há um projeto pronto para ser apresentado para aprovação da nova gestão do Ideflor-Bio, que trata da reintrodução e manejo de três espécies de psitacídeos, e entre elas está a ararajuba.

O voo das Ararajubas (Foto: Marcelo Vilarta/Divulgação)

Este texto foi atualizado às 16h40 do dia 06/05/2019 para correção:

A informação de que “noventa por cento dos minérios explorados pela Alcoa são destinados ao abastecimento da produção de alumina da mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena” está errada. A correção foi solicitada pela Alcoa, que enviou a nota abaixo:

Nota de posicionamento

A Alcoa informa que não destina bauxita de nenhuma das suas operações para abastecimento da produção de alumina da mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena. A operação de bauxita da Alcoa, em Juruti, Oeste do Pará, é reconhecida por suas boas práticas socioambientais e a aplicação dos mais elevados padrões internacionais em todas suas atividades. A mineração está operando em capacidade máxima, sem nenhuma restrição por motivos socioambientais, como relata a reportagem.

Sobre a Alcoa Corp.

A Alcoa (NYSE: AA) é líder mundial no setor em produtos de bauxita, alumina e alumínio, e está construída sobre uma base de valores fortes e excelência operacional há quase 130 anos, desde a revolucionária descoberta que fez do alumínio uma parte vital e acessível da vida moderna. Desde a invenção da indústria de alumínio e no decorrer da nossa história, nossos talentosos Alcoanos têm apresentado incríveis inovações e melhores práticas que nos levaram à eficiência, segurança, sustentabilidade e comunidades mais fortes em todos os locais onde operamos.

Sobre a Alcoa Juruti

A Alcoa opera mina de bauxita no município de Juruti, oeste do Estado do Pará, desde 2009, como uma das principais unidades do negócio global de mineração da Alcoa. Composta por estruturas de lavra, beneficiamento, transporte através de ferrovia de cerca de 55 km e terminal portuário, a Alcoa Juruti emprega cerca de 1.700 funcionários direta e indiretamente, mantendo uma média de 80% do efetivo com origem paraense, e já gerou o montante de cerca de R$ 815 milhões em pagamentos de impostos e royalties da mineração de bauxita.

Com uma proposta de operações integradas com a comunidade, a Companhia promove iniciativas voluntárias de responsabilidade social pelo fortalecimento das infraestruturas, mão de obra e negócios locais, além de impulsionar a criação do Tripé Juruti Sustentável como modelo de desenvolvimento local, abrangendo fórum de discussão entre poder público, organizações sociais e iniciativa privada; fundo de financiamento de projetos de sustentabilidade; e ferramenta de indicadores socioeconômicos para adequada orientação das prioridades do município. Segundo pesquisa de opinião pública conduzida pelo Ibope, 91% da população de Juruti é favorável e apoia as operações da Alcoa na cidade.

Comunicação | Alcoa Juruti

06/06/2019

Fonte: Amazônia Real

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