De Tatu: Folgam muito no cio, os tatus – como os cachorros. E formam acompanhamentos. A fêmea vai na frente, cheirando matinhos, a tatua. Logo fica de joelhos para o amor e chora esverdeado.

Por Manoel de Barros

Em cima de sua femeazinha, o macho passa horas – como se fosse em cima de uma casa de tábuas. E ela fica submetida para ele, rezando naquela postura.

Protocolos que na natureza lhes deu para montar filhos são tântricos. A femeazinha espera paciente enquanto venta azul no olho dos patos.

Como certas dálias lésbicas, de estames carnudos, se entregam as tatuas ao gosto de filhar. Seviciadas e ávidas.

Reproduzem de cacho.

Daí já saem pelas campinas fazendo buracos. Há campinas furadas como ralos.

Na corrida, pega um buraco desses o cavalo – se ajoelha no vento. Roda por cima do pescoço. E frecha de boca na macega o vaqueiro.

– Por isso não dispenso tatu quando acho no campo. Nem guenta faca esse bicho deletério. É ente morredor à toa. Afogou nele um dedo só de aço, estrebuchou. Embolou. Não falou água. Cagou-se persignado; pedindo bênção. É bicho morredor à toa. Sem aras nem arres. E chia fino quando o vaqueiro grosa a vara dele com faca.

Nas águas o tatu desaparece. Entra de ponta no cerrado. Diz-se que caiu na folha. Que folhou. De fato, nas águas todos folham, esses tatus.

Manoel de Barros – Escritor pantaneiro. Em Livro de Pré-Coisas.  Editora Record, 1997.

Sobre a Autor


Salve! Pra você que chegou até aqui, nossa gratidão! Agradecemos especialmente porque sua parceria fortalece  este nosso veículo de comunicação independente, dedicado a garantir um espaço de Resistência pra quem não tem  vez nem voz neste nosso injusto mundo de diferenças e desigualdades. Você pode apoiar nosso trabalho comprando um produto na nossa Loja Xapuri  ou fazendo uma doação de qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Contamos com você! P.S. Segue nosso WhatsApp: 61 9 99611193, caso você queira falar conosco a qualquer hora, a qualquer dia. GRATIDÃO!


Revista Xapuri

Mais do que uma Revista, um espaço de Resistência. Há seis anos, faça chuva ou faça sol, esperneando daqui, esperneando dacolá, todo santo mês nossa Revista Xapuri  leva informação e esperança para milhares de pessoas no Brasil inteiro. Agora, nesses tempos bicudos de pandemia, precisamos contar com você que nos lê, para seguir imprimindo a Revista Xapuri. VOCÊ PODE NOS AJUDAR COM UMA ASSINATURA?

ASSINE AQUI

%d blogueiros gostam disto: