Depois da primeira chuva eu me renasço

Edival Lourenço

Eu não saberia, de forma alguma, dizer se o fenômeno acontece no espírito, na alma, no cérebro, no coração, no conjunto das percepções que meus sentidos captam do mundo.

Se seria em tudo isso ou em nada disso. Mas, numa outra realidade que se formasse a partir da emanação de todas as labaredas das reações químicas que ocorrem no interior de meu ser.

Ou nas franjas de algum mistério insondável que meu corpo é capaz de segregar. Mas por eu não saber como identificar a fonte, o centro gerador-sensitivo dessas coisas, vou convencionar que o fenômeno ocorre em minha alma.

Ou como diriam os pretensamente sabidos, ou os sabichões inaugurais, a nível de alma eu sinto essa coisa. Uma coisa boa, estupenda, grandiosa, como um quebranto universal.

O fenômeno ocorre, de ordinário, pela chegada da primavera, logo após a primeira chuva. Sinto como se e me umedecesse em todas as partes das entranhas e me enverdecesse, por dentro e por fora.

Como se os dutos vitais de minha alma retomassem o seu processo normal de evapotranspiração. Acho que minha alma é feito de raízes velhas, rizomas ressequidos, gravetos estalantes e que quando se embebe na umidade da primeira chuva, tudo volta a ter vida.

Retoma o processo da fotossíntese. Começam a irromper novos brotos, novos meristemas, novas gavinhas, como as heras pelos muros e troncos. Novas flores acenando com seus lenços de perfumes para as abelhas melífluas.

A fronde que desabrocha de minha alma após a primeira chuva é farta o bastante para dar guarida à revoada de sonhos e pensamentos bons, que nem a touça de bambu que abrigava os pássaros canoros, na casa de meu avô, em minha remota infância.

Apesar de não ser perceptível nos espelhos ou em fotografias, me sinto inteiramente renovado, como se eu fosse mesmo raiz, o bulbo de alguma tulipa misteriosa, que passou todo o período da seca prostrada, feito uma cebola na réstia pendurada num varal de casa humilde. No entanto basta que caia a primeira chuva e tudo se reanima em mim.

É como se eu nascesse todo ano, num processo de metamorfose comando pela oscilação climática. O cheiro da terra molhada, o olor das folhas secas do outono, agradecendo a primeira chuva, dão o tom das coisas que sinto.

E quando assim fico, nesse torpor meio vegetal, é só fechar os olhos, abrir as narinas num frêmito asinino, que minha alma e meu corpo, juntos, começam um exercício trêmulo de levitação.

Empreendem viagens estonteantes acima das casas, dos prédios, das montanhas, das nuvens, das estrelas e depois se dissipam no universo, feito uma bomba de paz, que só é capaz de sentir quem tem alma vegetal.

Dessas que hibernam no outono e renascem no início da primavera, logo depois da primeira chuva.

Assim renascendo todo ano, depois da primeira chuva, sinto que não vou morrer nunca.

Talvez um dia, nesse processo de diluição no espaço, minha alma e meu corpo não deem mais conta de se reunir novamente e vou ser apenas uma paz natural em todo o universo que brotou de um rizoma seco, depois da primeira chuva, no início da primavera.

Fonte: WhatsApp

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