Não frequentas mais
de corpo comovido
os espaços do mundo.
A medida do tempo não te alcança.
Já ganhaste a dimensão do sonho,
és luzeiro da esperança.
(…)
Chegado foste ao mundo,
De coração já acreano
_ a fronte estrelada,
o peito caudaloso_ ,
para que te cumprisses
na construção do triunfo
do que no homem é grandeza,
é orvalho indignado e lúcida bondade.
Atendias e atendes altivos chamados:
a floresta e os seus povos
e, deixa que eu te diga,
o povo geral do mundo,
precisava e precisam
constantes da esperança
com que semeavas e semeias
o poder da descoberta
de que o amor é possível.
[/wm_column]

Os inimigos da vida,
com medo da aurora,
ceifaram ferozes
o teu caminho escrito
por indeléveis letras.
Só porque tiveste
o dom de sonhar
como convém e é bom,
com os pés fincados
na verde verdade
do chão de cada dia.

Doidos por te dar sumiço
cuidavam que podiam
amordaçar a fé
no reinado da justiça
e converter em moeda
o esplendor da primavera.

Nem pressentir podiam
que és da estirpe de seres
destinados a durar
no caminho dos homens.
Agora inabalável,
prescindes do corpo
para prosseguir plantando
e repartindo sementes.
Perdura e és conosco.
Nos levas, te levamos.
Eis que a vida do homem
é o que ele faz e fala,
escreve e canta. Vives:
dás fundamento ao porvir.

 


 

A tua própria morte
nos alcança a fundura
mais azul do peito
com um brado companheiro,
que nos chama, nos clama,
é chama que nos chama
para amassar o barro,
preparar a pizarra,
aparelhar os esteios
de maçaranduba,
itaúba, pau d´arco
e, pacientes, construir
as esplêndidas cidades.

Com a mão da sagrada ira
escreves os algarismos sinistros
dos hectares de esmeraldas
devorados pela hedionda lâmina
de gás, fogo e ingratidão.
E logo nos atravessas
a espessura das cinzas
desviando os apelos
das veredas injustas.

Por isso te canto, irmão.
Tu nos fazes capazes
(do ferrão da fera dói)
de cuidar do chão e do céu
deste reino da claridão,
nosso berço e morada,
que nela e dela vivemos.

Avançamos pelas sendas
que ajudaste a abrir
e para que não os percamos,
cuidadosos dos atalhos,
deixaste candeeiros
da perseverança acesos
nos troncos das seringueiras,
nas sacopemas das sumaumeiras,
nas palmas das inajazeiras,
nas folhas das imbaúbas,
que guardam o segredo do sol
e até nas favas morenas
da acapurana menina,
tua companheira de empate.

É preciso dizer que às vezes
nos morde a sombra do desânimo
e nos estremece a fúria
dos terçados da opulência
que não dorme e é cheia de olhos.

É quando os pássaros da floresta
nos acodem confiantes
(as corujas prolongam
as suas despedidas das estrelas)
cantando as sílabas alegres
do teu nome de menino

Vêm no meu canto o rumor
dos remos dos pescadores
a alegria da palmeira
abraçada pelo vento;
o papagaio banda-de-asa
dos meninos da várzea,
barrigudinhos, magrelos,
mas que já estão na escola
(às vezes dormem com fome,
viva o chibé de erva-cidreira).
Trago o grito enlouquecido
dos pássaros de asas queimadas
pelas brasas dos desumanos;
o suor contente das quebradeiras de coco,
das fazedoras de farinha d`água,
das amassadoras de açaí.

E termino este aceno de mão agradecida
com o abraço das crianças amazônicas
que ainda vão nascer, abençoadas
pelo majestoso arco-íris de amor
que se ergue, úmido de seiva,
das terras firmes de Xapuri,
com as cores de todas as raças humanas.

thiagoThiago de Mello
Poeta maior do Brasil e da Amazônia.
Poema publicado no livro Vozes da Floresta, Xapuri, 2010.

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