Em dezembro de 1975, acompanhei [o mobilizador social] João Maia ao Seringal Carmem, na BR-317, entre os municípios de Brasileia e Assis Brasil, no Acre, onde aconteceu uma reunião na casa da seringueira Valdiza Alencar. Com uma história de vida na floresta, ela cuidava de um marido doente e, mesmo assim, decidira juntar outras famílias ameaçadas para resistir à expulsão da sua terra.

Àquela época, os seringueiros não tinham consciência de nenhum direito e se encontravam sem ânimo. Mas essa mulher decidida ouvira pelo rádio que João Maia estava no Acre para criar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

Com essa informação, andou a pé 80 km até Brasileia, daí pegou um ônibus para Rio Branco, encontrou João Maia e marcou a reunião para a sua colocação [lugar onde moram as famílias seringueiras, dentro da floresta].

Maia levou o advogado Pedro Marques, que tinha um jeito muito engraçado de falar do Estatuto da Terra, do Código Civil, de uma forma que os seringueiros se sentiam amparados. Eu também fui a essa reunião.

Dona Valdiza, que ficou conhecida como a “Mulher do Sindicato”, manifestou alegria enorme, sobretudo quando João Maia marcou a data para a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, o primeiro da região.

Em pouco tempo, e sob a liderança do líder seringueiro Wilson Pinheiro, assassinado em julho de 1980, o Sindicato mostrou força contra o desmatamento e a expulsão das famílias, organizando os empates [formas de resistência pacífica contra o corte das árvores da floresta].

Chico Mendes, que fora de Xapuri para Brasileia, tornara-se secretário-geral da entidade e braço direito de Wilsão, fortalecendo o Sindicato, que só veio a existir por conta da coragem e da persistência de Valdiza Alencar, a “Mulher do Sindicato”.

elson-martinsElson Martins
Jornalista

 

Publicado originalmente no livro “V0zes da Floresta – Biografia Coletiva de Chico Mendes”, lançado por Zezé Weiss (organizadora) no Acre, em dezembro de 201o.

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