Por Altair Sales Barbosa

Estamos em meados de 2020. Salve a agricultura e a pecuária brasileiras, que mesmo na fase desta pandemia estão mostrando sua pujança e sustentando em grande parte a economia do país.

Parabéns aos empreendedores. Parabéns aos pesquisadores da Embrapa, que a cada ano desenvolvem técnicas mais sofisticadas para melhoria da fertilidade do solo, resistência dos plantios e o mais impressionante: a sofisticação dos métodos de irrigação. Parabéns, isso só demonstra a capacidade do pesquisador brasileiro quando se coloca à sua disposição treinamento adequado e recursos para alcançar seus objetivos.

Salve! Eu estaria muito feliz, se não estivéssemos atravessando uma pandemia, cujo enfrentamento se dá sem um mínimo de planejamento. Onde governadores, prefeitos, deputados e até jornalistas dizem agir em nome da ciência, mal sabendo eles que um dos princípios da ciência é questionar seus próprios resultados. E se apoiar na seta do tempo, de forma humilde e não demagógica. Aguardar a eficácia ou não dos resultados, para buscar de forma planejada e dialógica a solução para os problemas.

Conhecendo um pouco da história natural das endemias e pandemias, desde os primeiros registros da peste bubônica, que assustou o mundo, e a enigmática origem da gripe espanhola, que pode ter surgido tanto na China, como num  acampamento militar dentro dos Estados Unidos, durante a primeira guerra mundial, e que levou a óbito cerca de cinquenta a cem milhões de pessoas, conclui-se que todas elas foram e são frutos de entropias ou desequilíbrios ambientais e sociais.

Por isso, observo com receio esse alarde em torno dos resultados da agricultura e da pecuária. Parece que não aprendemos a lição. Os pesquisadores dos insumos que aumentam essa produtividade ainda continuam bebendo nas águas de um poço profundo e escuro, que lhes restringe a possibilidade de ver a realidade como um sistema dinâmico, cujas partes integrantes devem estar em constante interação de equilíbrio, para evitar as entropias, pois essas, uma vez desencadeadas, podem provocar situações incontroláveis.

Os resultados obtidos pela produção agropastoril já motivam a busca de novas fronteiras. Onde se encontram esses paraísos iluminados? Eles estão nos poucos relictos de interflúvios, situados nos chapadões centrais do Brasil, para cujos espaços já existem as tecnologias de ponta sendo aplicadas com êxito. As buscas das últimas fronteiras já tiveram início. Começaram a ressuscitar as ideias do MATOPIBA – como é curta e contraditória a ideia que temos da história, também como é curta a visão daqueles que nos representam e decidem por nós de enxergarem essa situação que caracteriza os meados do ano 2020.

Será que ainda não entendemos ou será que a ideia da pujança econômica, explicitada pelos resultados da agricultura, lhes apaga a ideia do futuro, e o desejo de pousar bem na efêmera fotografia apaga também a ética dos pesquisadores?

Para produzir de forma mais expressiva, é necessária a abertura de novas fronteiras, ou seja, conquistar novos espaços. Acontece que nesses espaços mora gente detentora de tecnologias simples, incapazes de provocar grandes transformações. E, mesmo mutilados, se constituem nas últimas reservas que ainda podem garantir um futuro sem convulsões sociais e desequilíbrios ambientais.

Para a irrigação, fator fundamental desse modelo agropastoril, não é somente a invenção de controles eletrônicos que é necessária, o mais importante é a água. As águas continentais são provenientes das chuvas, que se formam sobre os oceanos e são carreadas para o continente através de correntes aéreas. Parte da precipitação sobre a Terra evapora e parte entra nas correntes e volta aos oceanos pelo escoamento superficial. O restante penetra no solo.

À medida que essa água vai se aprofundando, uma pequena parte adere ao material, através do qual ela se move e interrompe a descida. Com exceção dessa água suspensa, no entanto, o resto penetra e se acumula até preencher todos os espaços e poros disponíveis. Dessa forma são definidas duas zonas, de acordo com o principal conteúdo dos espaços ocupados nos poros, pelo ar ou pela água: a zona de aeração e a zona subjacente de saturação. A superfície que separa essas duas zonas é o lençol freático.

A base de toda saturação varia de lugar para lugar, mas normalmente se estende até uma profundidade onde uma camada impermeável é encontrada ou onde a pressão de confinamento fecha todos os espaços abertos. Estendendo-se irregularmente para cima, de alguns centímetros até vários metros da zona de saturação, está a franja capilar. A água se move para cima nessa região por causa da tensão superficial, semelhante ao modo como a água sobe em uma toalha de papel.

Uma vez saturado o lençol freático, e dependendo das características das rochas, a água desse lençol penetra lentamente até encontrar impermeabilidade, formando ao longo de muito tempo os lençóis profundos denominados de lençóis artesianos ou aquíferos. Os aquíferos se localizam entre os poros das rochas sedimentares, mas também são localizados nas galerias cársticas que se formaram por longo tempo.

Seu deslocamento é lento, mas, mais dia menos dia, chega aos oceanos. São responsáveis pelas nascentes que dão origem à maioria dos rios da Terra. Sua existência está na dependência das águas precipitadas e de sua captação, principalmente pela vegetação de raízes profundas e de sistema radiculares complexos. Se a vegetação for retirada, ocorre considerável variação da quantidade de água contida nos aquíferos, o que pode culminar com seu desaparecimento

Com a retirada da vegetação nativa, cujo processo tem-se intensificado nas duas últimas décadas, as reservas subterrâneas chegaram ao nível de base e não são alimentadas, como vinham sendo, desde priscas eras. São essas reservas as responsáveis pela perenização dos rios.

Este ano podemos considerar neutra a ação de fenômenos como El Nino e La Nina. Isso permitiu um regime de precipitação excelente no centro-oeste do Brasil, fato que não aconteceu no sul do país. A consequência desse fenômeno foi a diminuição drástica das águas superficiais desde Santa Catarina até o Rio Grande do Sul. A vazão do rio Uruguai é a imagem emblemática dessa situação e pode ser explicada da seguinte forma: o que mantém a perenização dos rios são os aquíferos que os alimentam.

No caso do sul do Brasil, as águas superficiais dependem das águas subterrâneas do aquífero Guarani. Ele vem desde o centro do país, percorrendo no arenito Botucatu uma vasta região e aflorando em vários pontos, por baixo do tampão basáltico da formação Serra Geral. A forte estiagem que atingiu o sul do Brasil, neste ano, mostrou também a situação deste outrora grande aquífero.

Portanto, o avanço da fronteira agrícola sobre as poucas áreas ainda mais ou menos intactas dos chapadões centrais do Brasil certamente irá provocar desequilíbrios físicos, uma vez que, a exemplo do aquífero Guarani, os aquíferos Urucuia e Bambuí se encontram em níveis críticos, em função da retirada, indiscriminada e sem planejamento, da cobertura vegetal nativa, fato que impediu a preservação de áreas estratégicas de recarga desses aquíferos.

Certamente, também provocarão desequilíbrios bióticos, não só no que se refere ao quadro vegetacional, mas também ao quadro animal, levando muitas espécies à extinção e provocando a migração de outras, incluindo os insetos, que invadirão polos urbanos, assim como outros espaços. As consequências não temos como avaliar, mas sabemos, pelos exemplos de outras entropias, que podem ser danosas. O avanço desse modelo agropastoril sobre essas áreas sem dúvida trará, também, convulsões sociais de larga escala, com resultados inimagináveis.

Dessa forma, não devemos nos iludir: na hora em que um fenômeno natural provocar uma estiagem prolongada e as águas dos rios, bem como das represas, ou dos poços perfurados para irrigação, não tiverem mais volume suficiente para sustentar as grandes plantações, iremos colher somente os estilhaços de uma bomba. É isto que esse modelo efêmero de agricultura e pecuária está plantando para o futuro.

Altair Sales Barbosa

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