Chico Mendes Vive Mais!

Por: Tião Viana

Na verdade quando o Chico construída esse movimento, transformando a defesa dos povos da floresta em uma ação de defesa do meio ambiente, em um processo de desenvolvimento compatível com a dignidade humana, com o respeito a todos os seres que vivem em torno de nós, eu estava lá na foz do Amazonas, em Belém, fazendo Medicina, militando no movimento estudantil, desde 1982, e já pensando como, na minha volta, fazer uma reforma sanitária aqui no meu estado [do Acre] . Eu acompanhava à distância esse conflito e essa agenda transformadora que o Acre vivia.

Do Pará, eu vivia aquele movimento que acontecia na minha terra como um movimento pelos direitos humanos em que o Dom Moacyr [Grecchi], que era uma espécie de pilar de sustentação dessa obra de uma geração inteira, colocava os fundamentos criando as Comunidades Eclesiais de Base, apoiando a criação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e estabelecendo os fundamentos éticos para a nossa geração, que era vítima, ao mesmo tempo, do que remanescia dos ciclos da borracha e de um processo migratório trazido por uma expansão econômica muito forte, que se chocava com a nossa identidade cultural.

Conheci o Chico Mendes em um dos muitos encontros sobre as eleições diretas; tive minhas primeiras conversas com ele no jornal Varadouro; e, juntos tivemos outros diálogos na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde também militava o Abrahim Farhat, o Lhé, no fortalecimento do Sindicalismo e de uma ação libertadora da Amazônia contra a opressão e a violência que estava instalada no campo. Outras vezes encontrei o Chico de forma rápida nas várias reuniões de militantes que à época aconteciam em Rio Branco.

A conversa mais demorada e profunda que tive com o Chico foi num voo de Rio Branco a Brasília uns dois meses antes dele morrer, onde pude ouvir mais sobre suas preocupações com o que estava acontecendo no Acre. Ele me falou da dificuldade porque passava a a atividade extrativista da borracha e da sua preocupação com a entrada da pecuária no nosso estado. Eu vivi aquele momento querendo aprender muito com o Chico, nesse diálogo forte que tivemos durante aquela viagem para Brasília.

Na nossa conversa havia por parte do Chico uma grande preocupação com a violência e com as ameaças que ele sofria naquele momento. Do meu lado, eu relatei pra ele a minha vontade de avançar mais na luta ideológica através do movimento estudantil. Expliquei sobre a minha vontade de finalizar o meu curso de Medicina para voltar ao Acre e fazer uma reforma sanitária no estado. Com aquele olhar diferente que o Chico passava, o tom da nossa conversa me marcou muito.

O diálogo com o Chico despertou muito a minha atenção porque o meu irmão Jorge Viana, que começou a militância dele no movimento estudantil em Brasília e já havia voltado para o Acre e se vinculado a esse processo de organização dos trabalhadores com uma visão de desenvolvimento diferente, com uma visão de que nenhum tipo de monopólio seria bom para o Acre, já era companheiro e já falava muito do Chico Mendes e das lutas dos seringueiros em Xapuri.

O Chico apresentou a revolução do simples, da humildade, a grandeza e a força dele estava exatamente na humildade, na simplicidade, mas com ideias capazes de chegar e tocar desde os mais simples os maiores dirigentes do país, porque ele mostrava uma ideia de felicidade pela atitude de organizar, de resistir, de defender e de acreditar na força e na grandeza humana. Então, no pós-Chico, tudo isso foi muito importante para a minha formação.

E ali já tinha um personagem fantástico que era o presidente Lula semeando a ideia da organização dos trabalhadores para um novo Brasil, um Brasil justo e verdadeiro em que a classe trabalhadora pudesse ter voz. Isso tudo contaminou a minha geração, que foi influenciada pela organização dos trabalhadores a partir do movimento intelectual que criou o PT, do movimento operário que criou o PT, do movimento das comunidades de base que criou o PT, e do movimento estudantil que eu ajudei a edificar na transição da ditadura para a redemocratização do Brasil.

Então eu sou personagem e aprendiz dessa história.  Esse foi o lado fantástico da minha vida, e esses fundamentos estão definitivamente incorporados aos meus valores humanos, aos meus valores éticos e ao meu sonho de viver com felicidade na Amazônia e no nosso Acre, onde eu sei que ainda vamos construir os melhores indicadores de vida do Brasil, porque para os problemas nós também temos ao alcance das mãos as lições aprendidas do Chico Mendes.

Hoje, como governador do Acre, ao registrar essa data marcante do assassinato do Chico, estou certo de que expresso a opinião do meu estado, que meu deu o privilégio de fortalecer a proposta para que o  nome do Chico Mendes [nos 25 anos] fosse inscrito no Panteão dos Heróis Brasileiros: Chico Mendes Vive Mais!

ANOTE AÍ:

Tião Viana, o governador do estado do Acre, concedeu este depoimento jornalista Zezé Weiss, por ocasião dos 25 anos do assassinato de Chico Mendes. O depoimento foi incluído na 2a edição do livro Vozes da Floresta, publicado pelo Senado Federal no ano de 2015.

Foto: UOL

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