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Jorge Viana: Chico Mendes, um visionário –

“O Chico foi, antes de tudo, um visionário que conseguiu colocar a luta sindical da época, que era por terra, pão e trabalho, dentro de um contexto moderno, contemporâneo, globalizado.”  – Jorge Viana

Para mim foi um misto de privilégio, de alegria e de tristeza ter vivido a fase mas delicada da vida do Chico – seus últimos anos, seus últimos dias – até aquele fatídico 22 de dezembro  de 1988. Porque vivíamos dois momentos: o de quase um consenso que o Chico tinha descoberto uma nova maneira de caminhar e o da insegurança por medo da violência.

Ao mesmo tempo em que o Chico, no seu jeito simples de ser, nos enchia de convicção de que agora tínhamos uma nova agenda capaz de ganhar o mundo, também vivíamos a ameaça da ruptura mais dramática e mais inaceitável, que é a perda da vida.

O nosso poeta Thiago de Mello, aqui da Amazônia, fala que nem sempre temos que buscar um novo caminho, que às vezes basta achar um jeito novo de caminhar. O Chico, era um grande articulador, estava descobrindo algo muito novo, que era colocar a Amazônia na agenda do Brasil sob a ótica ambiental — porque se era difícil por o tema ambiental na agenda brasileira, imagine juntar a Amazônia com o meio ambiente.

Para muitos, naquela época, o discurso do Chico parecia coisa de extraterrestre, porque a imensidão da Amazônia engolia seus problemas. Sem os recursos de hoje, sem a comunicação via satélite, a visão geral sobre a Amazônia era muito curta. Mesmo para nós, às vezes, parecia que o problema não era e nem nunca ira ser do tamanho que o Chico colocava.

Hoje o que mais lamento é não ter o Chico aqui conosco, celebrando as coisas boas que vieram depois dele e lutando para corrigir os erros, as distorções e aquilo que não deu certo – ainda. Porque nesse intervalo de 30 anos entre aquela fase tão interessante e triste, tão cheia de esperança e de fatalidade, tem um meio que tem uma substância.

 

Presidente do Sindicato dos Seringueiros de Xapuri.

Como falar de vitória com a perda da vida? Os ideais, os sonhos venceram; eles ganharam mais força do que a força da bala, da eliminação física; eles ganharam uma força eterna, que está sendo mais ou menos assumida pelo Brasil e pelo mundo, e pelo nosso próprio governo do Acre.

A nossa luta política no Acre foi precursora porque ela trouxe, com sucesso, para dentro dela, a responsabilidade de levar adiante a visão de mundo e de Amazônia que o Chico tinha. Eu, pessoalmente, sempre tenho o Chico como uma espécie de conselheiro dentro da minha memória, indicando a minha responsabilidade nesse processo. O legado do Chico sempre esteve aqui dentro da minha cabeça.

O Chico foi, antes de tudo, um visionário que conseguiu colocar a luta sindical da época, que era por terra, pão e trabalho, dentro de um contexto moderno, contemporâneo, globalizado. Ele vislumbrou, antes de qualquer um de nós, que o melhor caminho era fazer da luta local (que atraía pouca atenção, que agregava poucos aliados) uma luta grande, uma luta do mundo.

E ele deu esse imenso salto com simplicidade, nos convencendo de que não adianta lutar por trabalho se a gente não tem casa, de que  não adianta ter casa se a gente não tem o ambiente. O Chico viu, bem antes de nós, que a casa e o trabalho estavam dentro de um ambiente e que, sendo esse ambiente a Amazônia, o Brasil, o planeta, a gente estaria defendendo pão, terra e trabalho. O Chico estava fazendo todas as lutas dentro de uma visão que nenhum de nós tinha naquela época.

Levar adiante o legado de Chico Mendes nos impôs ser criativos, romper com paradigmas, nos desafiar a nós mesmos e pautar a temática ambiental sem a menor perspectiva de voto, porque na realidade ela tirava votos~sem a menor perspectiva de mandato, porque na verdade falar dos sonhos do Chico evitava ganhar eleição.

Mas aos poucos começamos a ganhar nossos mandatos: primeiro, a Marina. Depois, entrei na campanha para o governo em 1990, que não deu para ganhar, mas ajudou a avançar. Devagar, as coisas foram melhorando para o Acre e para o Brasil tendo, por exemplo, o próprio presidente Lula, que vem dessa trajetória de luta, se tornado o primeiro presidente operário da história do Brasil.

PREFEITURA DE RIO BRANCO/PARQUE CHICO MENDES 

Em janeiro de 1993 assumi o mandato de prefeito em Rio Branco. Mesmo sendo um espaço menor de poder, decidimos usá-lo para avançar. Começamos criando parques, como o próprio Parque Chico Mendes, porque Rio Branco não tinha nenhum parque ambiental.

O sonho era trazer para a realidade as ideias que o Chico tinha. Com esse espírito, implantamos o nosso programa de pólos agroflorestais, premiado pela Fundação Ford e pela Fundação Getúlio Vargas; com esse espírito, apostamos na inovação, apostamos na criatividade e na inovação, tendo o Binho, o Toinho Alves, o Edegard de Deus junto comigo, na linha de frente; com esse espírito, criamos a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, para colocar o legado do Chico nas nossas vidas e na vida do Acre de forma definitiva.

Hoje, olhando pra trás, não sei se o que fazíamos era para prestar contas ao Chico, ou para nos redimirmos da nossa impotência diante da fatalidade da morte dele, ou se era por conta do nosso aprendizado mesmo, de termos entendido o que o Chico achava que precisava ser feito.

Talvez pela soma de tudo isso, tivemos muito sucesso na Prefeitura, e mesmo antes da Prefeitura, na campanha ao governo de 1990, onde a introdução da ideia da floresta, da simbologia do hino e da bandeira do Acre ajudaram a provocar uma mudança radical de conceitos.

A campanha, marcada por dois pólos: de um lado nossa proposta para valorizar os locais, os índios, os seringueiros, a floresta, o meio ambiente; do outro, a reprodução do modelo centrado na substituição dos nossos costumes, da nossa cultura, das nossas práticas de convivência com a floresta.

Com a campanha, conseguimos resolver algo que sempre incomodava o Chico: ele não ser acolhido, não ser compreendido na terra dele. Às vezes, o Chico era entendido na Europa, nos Estados Unidos, mas não no Acre, não em Xapuri. E isso o deixava frustrado – não conseguir e casa a ressonância para aquilo em que ele acreditava e que defendia.


GOVERNO DA FLORESTA

Depois veio o Governo, e nessa fase a Marina já tinha sido eleita senadora (ela foi eleita na metade do nosso mandado de prefeito). Começávamos, no Acre, uma outra prática política que era novidade para o Brasil. Nós fomos pioneiros naquilo que estava fazendo as ONGs crescerem – o movimento ambientalista, crescendo e ganhando força no mundo inteiro -, mas, institucionalmente, dentro do Estado brasileiro era muito tênue. Nós, do Acre, quando chegamos ao poder, trouxemos essa visão para o governo.

Nessa caminhada tivemos perdas e distorções e erros, mas no geral acertamos. A primeira lei do nosso governo foi criada no dia 13 de janeiro de 1999, apenas 13 dias depois da posse. Era a Lei Chico Mendes, que inovava com um espécie de remuneração pelo serviço ambiental feito pelos seringueiros – a lei os remunerava através de melhor preço para os produtos extrativistas.  O termo, na época, correspondia ao que permitia a lei brasileira, que era considerar essa remuneração como subsídio, mas o nosso objetivo já era reconhecer o serviço ambiental.

Isso foi a chave para estancarmos a hemorragia da transferência em massa de extrativistas para as cidades. Os próprios índios de alguns povos estavam ficando mais na cidade do que nas aldeias. Buscamos, então, um caminho de volta par ao melhor lugar – a floresta. Entendíamos que as pessoas só podiam voltar se fosse assegurado a elas o componente da sobrevivência, caso contrário não funcionaria. E o atrativo de uma remuneração para os produtos extrativistas foi o nosso grande aliado nesse processo.

Outro acontecimento muito forte foi o próprio mandato da Marina, casado com nosso governo. Foi através de uma ação conjunta do gabinete da Marina com o Governo do Acre e com os movimentos sociais liderados pela CUT, presidida pelo Sibá Machado, que levamos o Banco da Amazônia a criar as primeiras linhas de crédito para as atividades extrativistas, em uma luta muito grande, grande mesmo. A própria presidente do Banco pediu a nossa ajuda para convencer a diretoria.

Na defesa, usei um argumento que deu certo. Eu falei: Olha, hoje vocês não são famosos (o Banco na época era BASA, e eu disse que o Banco não podia ser BASA, que tinha que ser Banco da Amazônia, porque Amazônia é que era o nome forte), mas se vocês aprovarem esse crédito, vocês vão ficar famosos, vocês vão ser matéria do New York Times. Agora, se vocês continuarem dando crédito só para a pecuária, só para as atividades insustentáveis, vocês vão continuar sendo só o BASA. Para se tornarem o Banco da Amazônia, vocês precisam começar uma nova jornada.”  Ao aprovar o crédito, eles saíram no New York Times. O BASA virou o Banco da Amazônia como resultado do investimento que seus dirigentes fizeram nas nossas ideias

No governo, ousamos desde o primeiro dia, nem sempre com a rapidez que queríamos, mas ousamos. Tudo tinha que ser muito rápido, mas demoramos três meses para definir a marca do governo, para escolher a nossa simbologia; eu, o Toinho Alves e o Binho, que era o nosso marqueteiro. Definimos: “Governo da Floreta” como marca de governo, em uma primeira quebra de paradigma, uma primeira escolha institucional pela floresta, uma opção que antes ninguém teve a coragem de fazer.

Também decidimos usar a árvore como símbolo do governo, e quem fez o desenho foi o Binho, com o Toinho melhorando. A opção da árvore representado a floresta foi minha. Havia outras propostas, e fui eu quem, usando da prerrogativa de ser o governador eleito, escolhi o desenho do Binho.

Em casa, fomos acusados de estar fazendo um governo para os bichos, para os macacos, para as onças. Mas a repercussão externa foi muito boa e depois, devagar, fomos vencendo a resistência interna. Mais da metade dos oito anos que passei no Governo tive que conviver com a mesma cobrança sobre o porquê de um Governo da Floresta. Mas esse era o sinal concreto do nosso compromisso permanente de trabalhar com a floresta como o nosso mais rico ativo, colocando a cultura regional e o conhecimento tradicional como vantagem comparativa. Isso não foi e ainda não é fácil em um processo que continua em curso. Mas nós não tínhamos dúvidas de que o caminho era esse.

De lá pra cá, as leis brasileiras vêm se ajustando cada vez mais nesse sentido. E nós continuamos lutando para que o foco na Amazônia seja cada vez menos a terra e cada vez mais a floresta, porque sabemos que enquanto o foco estiver na terra nós vamos ter problema, porque para chegar na terra tem que tirar o que está em cima dela. Com o foco na terra, vamos ter grilagem, especulação. Para nós, o foco tem que ser a floresta, sempre do ponto de vista econômico, a floresta com o que está acima, ou o que está abaixo dela. Sempre a floresta, não a terra.

O CONCEITO DA FLORESTANIA 

Foi para traduzir essa nova concepção que, quando assumimos o governo, criamos esse conceito da florestania. O Brasil tinha acabado de eleger seus primeiros governadores depois de mais de 20 anos depois de mais de 20 anos de ditadura; a palavra mágica era democracia, como um instrumento importante para se alcançar a cidadania. No Acre, fomos além. Inventamos a florestania como uma forma de cidadania para os povos da Amazônia.

Também pensamos que quem governa a Amazônia não pode trabalhar com o conceito burocrático de administrar. Um governo que tenha compromisso com os ideais de Chico Mendes não pode administrar, porque um sonho não pode ser administrado.  Uma região, um ambiente, uma história como a nossa não pode ser administrada, tem que ser cuidada. Então introduzimos a ideia de cuidar e não de administrar, que completa o conceito de florestania. Uma mãe não administra um filho, uma mãe cuida do filho; e um governo é, em certo sentido, uma mãe que cuida do povo, que são os seus filhos.

UM DIA A MAIS DE VIDA GRAÇAS A UM CAMINHÃO DOADO PELO BNDES

Tive o privilégio de conviver com o Chico nos seus últimos três anos de vida, andei muito com ele e pude vê-lo várias vezes conversando, às vezes com embaixadas, com o BNDES. Aliás, o BNDES foi o primeiro banco a financiar a Cooperativa de Xapuri, que na época era um misto de Sindicato e Cooperativa, através de um projeto que fizemos na Funtac, com o Gomercindo escrevendo, o Toinho e o Macêdo ajudando.

O Gil Siqueira foi o grande articulador desse projeto. O Terri também foi muito importante, principalmente pela parte indígena. Eles fizeram um projeto ousado, e o BNDES fez um financiamento ousado, que gerou uma reação forte por parte do governo do Estado do Acre.

À época acontecia uma ruptura do modelo patrão/empregado, com os seringueiros lutando por sua autonomia trabalhista. Surgiu a ideia de criar cooperativas. Nesse tempo já se falava da interferência dos gringos na Amazônia, mas o estrangeiro aqui na região era sempre o capital nacional, porque ele nunca aparecia.

O Sindicato não tinha apoio, não tinha crédito, não tinha nada. Então quando alguma embaixada doava um pouquinho de dinheiro, isso era visto como intervenção estrangeira. Mas o projeto acabou saindo e dentro dele entrou um caminhão para Xapuri. E foi esse caminhão, comprado com o orçamento do projeto, que deu mais um dia de vida para o Chico.

Poucos dias antes de morrer, o Chico chegou do Rio de Janeiro. Ele esteve no meu trabalho, e eu pedi muito para ele não ir pra Xapuri.  Ele disse que não tinha acordo, que estava indo pra casa. Ninguém queria que ele fosse, nem o pessoal do Rio de Janeiro, nem o próprio pessoal de Xapuri. Mas o Chico estava com saudades das crianças e tinha aquela paixão pela Ilzamar. Estava chegando o Natal, e ele decidiu ir para casa. O Chico não disse, mas estava claro que ele queria enfrentar aquela situação.

Eu falei que ele precisava ficar em Rio Branco porque o caminhão tinha chegado, estava na revisão e era pra ele levar. Aí o rosto do Chico se iluminou, ele mudou de ideia e ficou esperando pelo caminhão. No dia seguinte, o Chico pegou o caminhão e foi pra Xapuri. Chegando lá, ele encheu o caminhão de crianças, rodou a cidade inteira, soltou foguetes para celebrar a maior conquista dele e do Movimento.

O caminhão ia servir para romper com o ciclo da exploração, porque com ele os seringueiros iam poder tirar seus produtos da floresta, iam poder levar comida para suas casas sem passar pelo barracão do patrão.

Então, o fato é que ele viveu mais um dia por causa desse bendito caminhão.

 

 

 

ANOTE AÍ:

Jorge Viana – Amigo e companheiro de Chico Mendes, ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador do Acre, senador da República. Depoimento concedido à jornalista Zezé Weiss, da Xapuri Socioambiental, para o livro Vozes da Floresta. 1a Edição – Editora Xapuri, 2008. 2a Edição – Gráfica do Senado, 2015. Ambas esgotadas.

Fotos: EBC, Agência de Noticias do Acre. EDF. Jorge Viana: Divulgação.

 

 

 

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