Júlia Feitoza: Nasci no Seringal Bom Destino, no município de Rio Branco. Sou filha de seringueiros, de pai pernambucano e mãe amazonense. Não sei como meu pai veio parar no Acre, e muito menos no seringal, porque seringueiros de Pernambuco não eram muito comuns por aqui. Todos os meus familiares moravam na cidade, só minha mãe foi morar no seringal, acompanhando meu pai. Eu mesma, morei no seringal até os dez anos de idade.

Quando meu pai morreu, minha mãe e eu viemos morar com um irmão dela, na cidade. Eu me lembro bem daquela primeira viagem, da emoção de vir para a cidade grande. Foram seis horas de barco. O rio estava lindo, cheio. Havia muitos ingás no barranco, a gente ia passando e colhendo com as mãos. Depois, a sensação de chegar na Capital, eu nunca tinha visto tanta gente, nem tantas luzes.

Fiquei algum tempo em Rio Branco, depois fui para o Rio de Janeiro, onde passei dez anos. Na volta para o Acre, no ano de 1979, comecei a minha militância na Igreja, ainda no tempo da ditadura militar. Havia muitos grupos de jovens da Igreja Católica, e me incorporei em um deles. Fazíamos atividades religiosas, mas também políticas e do movimento popular. Naquela época, a Igreja era um espaço de mobilização, onde podíamos fazer a discussão política, do Manifesto do Partido Comunista à mais valia. Naquele tempo corríamos muito da Polícia Federal.

Antes da Universidade, nos grupos de jovens, aprendemos a trabalhar com teatro. Criamos um grupo chamado Fragmentos e com ele fizemos a nossa primeira peça, que se chamava Alegria. Depois montamos outras peças em defesa da Amazônia e uma em defesa das crianças, chamada “O Engraxate“, no Ano Internacional da Criança. Nós mesmos produzíamos tudo. Contávamos apenas com alguns parceiros. O texto de “Em Defesa da Amazônia” era do professor Edegard de Deus. “O Engraxate” foi criação coletiva e “Alegria” era do companheiro Maués, que já faleceu.

Com a criação da Universidade Federal do Acre, vieram muitos professores de fora, quase todos militantes, aos quais nos juntamos. E juntos – professores, grupos de jovens da Igreja Católica e militantes dos movimentos populares – passamos a lutar por várias causas: pela Amazônia, contra o Projeto Jari, e em defesa dos seringueiros acreanos, que estavam sendo expulsos de suas terras, porque da década de 1970 até a de 1990, com a chegada dos “paulistas” ao Acre, a pressão e a violência sobre as famílias de seringueiros foi muito forte.

Todas as nossas ações políticas eram discutidas e pautadas pelo Partido Revolucionário Comunista, o PRC, e tínhamos um único objetivo: fazer a revolução. As greves, a partir dos operários de São Paulo, eram sinais de que conseguiríamos. E pensar que hoje com toda essa tecnologia não conseguimos fazer uma mobilização rápida, imagine, naquele tempo, fazer uma revolução num país tão complexo e tão imenso como o nosso. Mas nós acreditávamos piamente na “revolução” que estávamos preparando.

Achávamos que podíamos transformar o PT em um partido revolucionário. Aos poucos, fomos percebendo com a militância no PT que aquela “revolução” estava ficando cada vez mais distante e, com o tempo, o PRC acabou se extinguindo. Mas uma lição que todos nós aprendemos no PRC foi fazer as coisas com determinação. Essa capacidade de decisão que nós temos, de que, se tem uma tarefa pra ser feita, a gente simplesmente faz, essa foi uma boa herança que o PRC deixou em nossas vidas.

O Chico Mendes também era do PRC. Quem lê os diários dele vê que ele era simples e despojado, mas não desorganizado. Em toda reunião que o Chico fazia, ele sempre começava escrevendo no quadro: “A vitória da nossa luta depende da nossa disciplina e da nossa organização.” Ele mesmo era a mais obediente das pessoas.

Apesar de sermos do mesmo partido, por segurança, não sabíamos quem eram os companheiros de outras células e, como a minha era do movimento estudantil, não tínhamos contato com os companheiros da célula do Chico Mendes, que era a do movimento sindical. Sabíamos que tínhamos que apoiar os sindicatos, mas quem eram nossos companheiros lá não tínhamos a menor ideia.

PROJETO SERINGUEIRO

Só conheci o Chico pessoalmente em 1980, quando ainda era aluna do curso de História e junto com a Marina Silva e o Binho Marques, fomos fazer um estudo sobre as terras do Acre em Xapuri. Com a fundação do PT, nós nos aproximamos mas foi em 1983-1984, com o surgimento do Projeto Seringueiro que nossos laços se estreitaram mais.

O Projeto Seringueiro tinha sido fundado por um grupo da Universidade, liderado pela Mary Allegretti, que ficou cerca de dois meses dando aulas no Seringal Nazaré, na colocação Rio Branco, onde o Raimundão [Raimundo Mendes de Barros]  foi aluno da Mary. Mas, em seguida, o pessoal do projeto desistiu e foi embora. Foi então que o Chico nos convenceu de que tínhamos que manter o Projeto Seringueiro,  com uma pequena equipe que havia ficado funcionando precariamente.

Foi então que fundamos o CTA [Centro dos Trabalhadores da Amazônia], para tocar o Projeto Seringueiro. A partir daí, outras pessoas foram se incorporando sob nossa orientação e organização. Nós trabalhávamos muito, quase sempre sem ter dinheiro. O pouco dinheiro que conseguíamos era para as ações práticas, nunca para salários. Por exemplo, o BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] construía as escolas, a Secretaria de Educação pagava as formações, mas ninguém pagava nossos salários, por isso nunca tínhamos dinheiro.  E quando por acaso alguém recebia alguma ajuda de custo, o dinheiro era sempre repartido entre uma, duas, três, ou até  mais pessoas.

Sempre foi assim: o pessoal vinha e antes nem era professor, era monitor, seguindo a terminologia e a lógica da Igreja Católica. Os monitores chegavam quase sempre como voluntários, sem remuneração e dependendo muito do apoio e da organização da comunidade. Às vezes dava para dar aula quinta, sexta e sábado, outras vezes só de quinze em quinze dias, e tinha alunos que só podiam vir uma semana por mês. Aí, as pessoas que iam se alfabetizando, que conseguiam apreender os conteúdos, elas também iam dando aulas. Como as escolas iniciais foram feitas nas casas das pessoas, era um processo muito bacana, muito forte, de muita solidariedade.

Como usávamos o método Paulo Freire, as palavras geradores eram “luta” “sindicato” “adjunto” e outras da realidade dos seringueiros. É só ver as primeiras cartilhas para observar que não precisava fazer muito, que bastava usar as cartilhas.  Enquanto isso, nós, que estávamos na Universidade, sempre dávamos um jeito de convidar o Chico, porque ele era muito didático, era um excelente palestrante.

Na história do Acre sempre teve violência, mas a situação foi ao extremo quando os “paulistas” começaram a chegar por aqui. Os seringalistas vendiam suas terras para os “paulistas”, que muitas vezes nem apareciam no Acre, mas mandavam seus jagunços que, acobertados pela polícia, expulsavam os seringueiros das terras deles.  E nós, sem armas, em condições desiguais, ainda achávamos que dava para fazer a “revolução”. Fizemos um filme curta-metragem, “Nós e e Eles” (nós, os acreanos, e eles, os paulistas), que não tinha, obviamente, a licença da censura, e com isso arrumamos muita confusão.

Conosco, que militávamos na cidade, a pressão era mais psicológica. Eles tiravam fotos nossas, incomodavam nossas famílias, mas não chegavam a matar. Já no Sindicato, não. Era bala mesmo. O Wilson Pinheiro estava organizando a vinda do Lula para um comício em Brasiléia. Quando o Lula chegou, na data marcada, já foi para a missa de sétimo dia do Wilson Pinheiro.

O Chico era uma pessoa que escrevia muito para os jornais, para os políticos, até para o Papa quando ele achava que podia ajudar. Por meio desses contatos, ele passou a viajar muito. Mas, naquele fim de ano, ele não queria ficar fora de Xapuri. Todos nós queríamos que ele saísse um tempo do Acre, mas ele argumentava que não, que não dava pra ele se ausentar, porque isso podia enfraquecer a luta.

COMITÊ CHICO MENDES

O Comité Chico Mendes foi criado na noite do assassinato do Chico. Quando soubemos da notícia, fomos para a sede da Diocese de Rio Branco. Ali mesmo, um grupo de militantes das mais variadas organizações que estavam surgindo na época, como consequência do fim do regime militar, da reorganização política e do movimento ambientalista firmou o compromisso de fundar o Comitê, com o apoio do Dom Moacyr Grecchi.

A princípio, o Comitê tinha um objetivo muito direto: buscar justiça, para que os assassinos e os mandantes do crime fossem presos, julgados e condenados.  A repercussão da morte do Chico foi tão grande que, em menos de dois anos, houve o julgamento e a condenação dos acusados. Porém, foi necessária a mobilização de muitas pessoas, e não só do Comitê, para que um julgamento daquele porte acontecesse em menos de dois anos.

Desde então, a realização da Semana Chico Mendes, todos os anos, de 15 a 22 de dezembro, mantém uma definição muito clara da nossa atuação: acompanhamento dos processos dos trabalhadores rurais, na luta contra qualquer tipo de impunidade e na defesa ambiental dos sonhos e dos ideais de Chico Mendes.

A chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo do Estado do Acre, a partir de 1999, permitiu, aos companheiros e companheiras que assumiram o governo, a transformação dos ideais de Chico Mendes em políticas públicas.

E agora, depois desses 30 anos sem o Chico, nesse momento quem a historia recente do Acre fecha um ciclo, honramos sua memória, e também a memória dos muitos outros companheiros que, como ele, tombaram na luta. E, nos dias 15, 16 e 17 de dezembro, nos reuniremos em Xapuri para celebrar o legado de Chico Mendes junto aos amigos, aos companheiros e às novas gerações que, ao defender os ideais do Chico, seguem fazendo acontecer a sua própria história.

 

ANOTE AÍ:

Júlia Feitoza Dias – Militante das justas causas, amiga de Chico Mendes, em depoimento à jornalista Zezé Weiss, para o livro Vozes da Floresta (esgotado). Ed. Xapuri, 2008. Exceto pelos dados temporais, ajustados aos 30 anos, o texto do depoimento corresponde à versão original.

Foto:

Capa: Acervo Histórico

Matéria:

  1. Acervo Histórico
  2. Ambiente Acreano
  3. Aldimar Nunes Vieira
  4. Aldimar Nunes Vieira: Julia Feitoza Dias, Raimundo Barros, Zezé Weiss e Raimunda Bezerra em novembro de 2018, no lançamento da exposição “Chico Mendes Herói do Brasil”, no Museu Nacional da República, em Brasília.

 

 

 

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