O Império deu aos homens e mulheres alforriados o status de seres livres, enquanto que a República ofereceu a eles a sina da exclusão.

Estima-se que nas eleições parlamentares de 1886, somente 0,8% da população brasileira tenha votado. Era ainda o tempo do rei, ou melhor, tempo do imperador, e o critério que definia a participação política era, principalmente, censitário, isto é, a renda. Tudo normal para uma monarquia escravocrata de raízes absolutistas, já envelhecida nas suas estruturas e esgotada diante das circunstâncias inovadoras das ordens social e econômica.

De fato, o café – não ele, mas os capitais advindos das suas exportações – contribuiu enormemente para inserir o país em uma ordem mais próxima do capitalismo, que parecia triunfar em todo o mundo ocidental. Cidades, ferrovias, telégrafo, iluminação pública, alamedas calçadas e saneadas, centros comerciais e financeiros (bancos), além de segmentos sociais urbanos de novo tipo, sinalizavam para o advento da “Belle Époque tropical”. A anglofilia econômica e a francofilia cultural desfilavam pelas ruas, plenários, gabinetes, passarelas e teatros de quase todo o país, encantando as elites agrárias que já investiam nas cidades e uma minúscula classe média, também encantada com tudo o que viesse de Paris ou com o que possuísse rótulo britânico.

Dezoito meses depois de oficializada a abolição da escravidão (maio de 1888), aquelas “modernas” elites cafeeiras do Sudeste se associaram aos militares do Exército para desfechar um golpe mortal nas velhas estruturas monárquicas e assinar o passaporte para a modernidade política: a República.

Assim, com um atraso de pelo menos sete décadas, se comparada com os vizinhos latino-americanos, por exemplo, a forma republicana de governar chegava à terra de Lima Barreto, o grande literato brasileiro que, desde os primeiros tempos, viu o novo regime como excludente e discricionário; e que também o percebeu como um criadouro de políticos “mais ou menos diplomados” que exploravam a miséria e a desgraça dos mais humildes. Para ele, “A república do Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência”.

A indignação do genial escritor custou-lhe não somente o ostracismo literário, mas a própria exclusão social, já que, dado como louco, acabou em um manicômio. Nascido no dia 13 de maio na cidade do Rio de Janeiro, Afonso Henrique de Lima Barreto (1881–1922), filho de pais mestiços e pobres, sofreu preconceito a vida toda. Ainda na infância ficou órfão da mãe, que era professora primária. Seu pai, tipógrafo, enlouqueceu, deixando a seu encargo o sustento e a educação de três irmãos. Estudou em meio à elite branca em tradicional colégio da capital federal, sempre com a ajuda do padrinho, o Visconde de Ouro Preto.

Em 1904, Lima Barreto foi forçado pela doença do pai a abandonar a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde estudava Engenharia. No mesmo ano consegue emprego de escrevente copista na Secretaria de Guerra e, simultaneamente, escreve para jornais e revistas do Rio.

Cinco anos depois, publicou seu primeiro romance, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, obra que muito se assemelha a uma autobiografia – a trajetória de um jovem mulato que, vindo do interior, sofre com preconceitos raciais. Outras obras virão com o mesmo perfil. Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, ele descreve a vida de um senhor aposentado e suas lutas pela salvação do Brasil. Tudo isso nos tempos da infância republicana no Brasil. Esse breve histórico nos serve para afirmar a autoridade daquele escritor quando ele externava seu espírito inquieto e rebelde, seu inconformismo com a mediocridade que reinava na jovem república tupiniquim. E fora ele tachado de louco.

Fora outra a nossa proposta republicana, identificar-se-ia facilmente nela própria a insanidade maior, afinal foram os republicanos que assaltaram o poder os grandes responsáveis pela histeria modernizante que despejou nos morros do Rio de Janeiro a população trabalhadora que vivia nos cortiços do centro da capital. Ela, a Res (coisa) Pública (coletiva, de todos), projetou a modernidade excluindo quem não estivesse adequado aos encantos da Belle Époque, ou quem atrapalhasse os projetos saneadores da nova ordem liberal e republicana. Reestilizar a capital federal era tão importante quanto saneá-la ou cuidar da saúde pública. Naquele contexto, a Revolta não era contra a Vacina, era contra a favelização da cidade, e Lima Barreto sabia disso.

Embutida no ideário liberal iluminista burguês, que preconizava uma ordem social onde todos os homens fossem iguais perante a lei, a proposta republicana chegou ao Brasil sem incluir. Sua primeira Constituição, promulgada em 1891, sequer reconhecia os direitos dos povos indígenas sobre os territórios por eles habitados; às mulheres e aos analfabetos – maioria esmagadora da sociedade da época – foi negado o direito de votar; aos que votavam, era negado o sigilo do voto. De tão preocupada com o “rei” café e com as maravilhas advindas com a ordem e com o progresso, as elites republicanas esqueceram-se de, minimamente, reconhecer aos trabalhadores recém-saídos das senzalas o direito ao trabalho, à vida, à existência. O Império deu aos homens e mulheres alforriados o status de seres livres, enquanto que a República ofereceu a eles a sina da exclusão.

A República não era mesmo a dos sonhos de Lima Barreto, de Chiquinha Gonzaga, de José do Patrocínio, de Lopes Trovão, Luiz Gama, Cruz e Souza ou mesmo de Silva Jardim. República com cidadania era coisa de subversivos, de incendiários. Ela, a República real, tinha na verdade classe e cor. De tão excludente que era, parece ter oferecido às elites brancas que a construíram direitos perpétuos de mandar, excluir e corromper…e Lima Barreto, assim como os outros subversivos da República, já sabia.

Fernando-GelfusoFernando Antônio Gelfuso
Cientista Social, Historiador, Professor.

About The Author

Este artigo foi escrito por um autor convidado da Xapuri. Caso queira enviar uma colaboração especial para nós, saiba que ela será muito bem-vinda! Artigos pertinentes e bem escritos serão publicados aqui em nosso site.

Related Posts

Deixe uma resposta