BRT evoluindo à nossa moda

A função de um sistema de transporte público é conectar as pessoas da cidade de sorte a lhes garantir acesso às suas demandas básicas, com eficiência e preço justo. Muitas cidades, no entanto, ainda sofrem com as escolhas de gestores que persistem mantendo modelos de mobilidade baseados em veículos particulares e submetidos a operações de transportes desordenados e mal regulados, via de regra sob a égide de marcos regulatórios obsoletos e dóceis à lógica do capital em detrimento do social.

São gestões de pouco apreço social, muito mais conectadas aos interesses de corporações e negócios. Resistem às novas tecnologias e insistem num tipo de desenvolvimento urbano que colide com o razoável previsto na própria legislação do país. Cidades administradas com este viés submetem suas populações a ambientes cada vez mais degradados por irritantes congestionamentos, poluição, ocupação populacional desordenada, acidentes, encarecimento de tarifas, desperdícios e, o mais grave, com a perda do senso de urbanidade.

É nesse contexto que o Brasil acorda para o problema, empurrado que foi pela onda dos protestos de junho de 2013, quando a população mobilizada colocou na agenda nacional o tema da mobilidade urbana convivendo com a velhas tragédias conhecidas das políticas de saúde, educação e segurança pública.

Aproveitando-se do alerta das ruas, os governos se mexeram na esteira de três eventos esportivos internacionais, um em curso (Copa das Confederações/2013) e outros dois em preparação (Copa do Mundo/2014 e Olimpíadas/2016), quando houve um surto de recursos voltados para a infraestrutura de mobilidade urbana, especialmente nas cidades-sedes das competições.

Pronto! O Brasil retomava o caminho deixado na década de 1970, quando a grande novidade na área de transporte público foi representada pela cidade de Curitiba, e posteriormente Goiânia. Porém, no curso do processo, mais uma vez impôs-se o improviso gerencial misturado aos negócios corporativos, que por sua vez misturaram-se às costumeiras lambanças orçamentárias vinculadas aos financiamentos de campanhas eleitorais.

Confundiu-se deliberadamente o conceito universal de mobilidade urbana que designa a articulação, organização e integração dos diversos modais de transportes públicos com foco nas opções coletivas e não-motorizadas, com a necessidade de se construir gigantescas estruturas de concreto e trilhos, grandes obras, algumas até hoje não concluídas ou objeto de dolorosas e longevas investigações policiais e judiciais.

Nesse cenário o Bus Rapid Transit/BRT (denominação americanizada que significa “Trânsito Rápido Sobre Rodas”) ressurge no Brasil como tendência hegemônica cada vez mais adotada como ideal solução para o transporte humano nas cidades e regiões metropolitanas. Medida acertada como conceito, porque além de garantir competitividade em relação às tecnologias sobre trilhos, tais como metrô e VLT (“Veículo Leve Sobre Trilhos”), é infinitamente menos onerosa que estes, em investimentos, custeio e manutenção.

Entretanto, os esforços dos gestores públicos em recuperar os espaços de mobilidade para a cidadania ainda se arrastam e vêm sendo realizados de forma acanhada e pouco planejada, como que apenas para recuperar um tempo perdido atrás de urgentes respostas.

Assim é que estão sendo construídos Brasil afora os BRTs, via de regra como eixos não integrados aos sistemas cicloviários (quando existem), divorciados das políticas de uso do solo, distantes dos referenciais modernos de acessibilidade e, mais grave, não acompanhados das medidas de restrição do uso de carros e motos. Ou seja, o conceito aqui praticado mais se resume a um projeto de transporte, quando deveria ser um projeto de cidade.

Bem verdade que o BRT, enquanto equipamento urbano, não resolve isoladamente problemas ambientais, sociais e econômicos, mas com certeza permite transformar as cidades em ambientes mais habitáveis, saudáveis e amigáveis. E não precisa ser Brisbane, Ottawa ou Seatle; basta que sejamos Bogotá, Santiago do Chile ou Johannesburg. Mais simples, baratos, articulados, funcionais, esteticamente bonitos e igualmente eficientes para o que devem focar: decência para o deslocamento das pessoas. O caminho mais honesto para melhorar a qualidade dos deslocamentos humanos, e consequentemente resgatar o sentido de cidade.

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Antenor Pinheiro

Jornalista, Coordenador da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) Regional Centro-Oeste.

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