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Calçadas: Dois buracos e duas medidas

É justo criticar o prefeito por conta dos buracos que surgem nas ruas da cidade, especialmente em período chuvoso, que é quando os problemas de captação de águas pluviais denunciam o descaso da gestão. Mas… e os buracos nas calçadas? Que dimensão possui um descaso assim? Não!

Reclamar dos buracos por onde passam os carros não reflete uma honesta preocupação da população com a cidade enquanto espaço de todos. Esse tipo de buraco urbano é seletivo e somente ganha importância porque, na essência, eles comprometem as rodas e os sistemas mecânicos dos carros – esse sagrado objeto de adoração nacional.

Aí, cada pancada vinda do assoalho faz tremer o coração motorizado. Isso tem explicação e é compreensível que ocorra. Primeiro porque reclamar de buracos no asfalto tem fina sintonia com o modelo de gestão urbana adotado nas cidades brasileiras, cujos recursos drenam com prioridade à demanda do transporte individual motorizado.

Segundo porque a posse e o uso do automóvel tornaram-se predadores e impregnaram-se no imaginário da população como valor prevalente, símbolo de poder e modernidade. Como diz o antropólogo Roberto Da Matta, somos “uma sociedade que adotou o carro como símbolo de superioridade social”. Daí a importância dos buracos das ruas na vida das pessoas!

Sob outros parâmetros, o estridente protesto contra os buracos, embora cíclico, promove lideranças, cria pauta jornalística, incandesce ânimos e desperta a alegoria popular. No fundo é produto da hipocrisia, porque camufla o que há de mais precioso para a vida em comunidade – o sentido de urbanidade, o significado de cidade.

É muito barulho pra tão pouco alcance, vez que não tange o real interesse para o senso coletivo, como o transporte sobre trilhos, barcas, bicicletas, ônibus e calçadas – sistemas que juntos deslocam 64 por cento das pessoas.

A perversa lógica não é de agora, evolui desde o presidente Washington Luiz – com seu “governar é fazer estradas” – e se cristaliza com Juscelino Kubitscheck – com sua política de desenvolvimento econômico baseada no incremento da indústria automotiva.

Não por menos, essa indústria hoje demanda 21% do Produto Interno Bruto/PIB do país – algo que justifica as sucessivas isenções de impostos destinadas ao incentivo à venda de carros e, pior, sem quaisquer compensações.

O esdrúxulo dessa curta história dos buracos das ruas está no seu contraponto que persiste o ano inteiro e pouco é considerado pela população: os buracos, obstáculos, invasões e outras ocorrências que corrompem a opção do deslocamento a pé nos espaços de mobilidade das cidades.

Aqui ainda mais se aprofunda o paradoxo da estética urbana, pois ao contrário do que ocorre com o viário dedicado aos carros, o desprezo pelos buracos das calçadas das cidades do Brasil decorre da absoluta ausência de políticas destinadas à recuperação dos ambientes públicos que prezam pelo princípio da equidade no uso do solo urbano.

A despeito das dezenas de leis em vigor, a verdade é que culturalmente as calçadas não são importantes para os gestores das cidades, apesar de serem jurídica e tecnicamente também vias públicas. Os milhares de buracos e ocupações irregulares que atormentam os pedestres, em especial as pessoas com deficiência e os que têm mobilidade reduzida, são perenes e nunca mereceram a devida atenção da governança, nem a mesma intensidade de gritaria que se ouve contra os buracos que desgastam os pneus dos carros.

Enfim, buracos na calçada são menos importantes que buracos no asfalto. São dois buracos e duas medidas – eis a perversa lógica dominante!

Somente uma sociedade acossada por décadas de omissão e plena ausência de investimentos públicos em mobilidade urbana é incapaz de perceber o tênue limite entre protestar ativamente contra os buracos no asfalto e conviver passivamente com os buracos nas calçadas, apesar de ambos serem produto da mesma decadente gestão das cidades brasileiras.

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