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O Amazonia 1, satélite artificial de observação da Terra inteiramente brasileiro, foi lançado com sucesso e já navega com desenvoltura no espaço. Com projeto, construção e lançamento feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão público de São José dos Campos, São Paulo, o observatório foi idealizado pelo governo brasileiro há mais de 10 anos e custou cerca de 400 milhões de dólares.     

Por Jaime Sautchuk

O equipamento será utilizado para observar e monitorar principalmente a região amazônica, com foco especial no desmatamento, áreas de mineração, fronteiras e queimadas no Brasil. Ele faz parte do projeto Missão Amazonia, do INPE, que programou o lançamento de outros dois satélites de sensoriamento remoto, nos próximos anos. No entanto há dúvidas sobre isso, pois o atual governo federal cortou todos os recursos financeiros destinados ao desenvolvimento de satélites, já a partir de 2021.

Uma parte das ações desse satélite será de uso militar, com funções que são mantidas em sigilo. De qualquer modo, são funções que irão utilizar os recursos técnicos disponíveis no Amazonia 1. Desde antes da criação da Agência Espacial (AEB), nos anos 1990, havia um ajuste de que a questão dos satélites ficaria com o INPE, como sempre ficaram, mas a dos lançamentos ficaria com a Aeronáutica, o que engloba a Base de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão.

Em verdade, esse processo acabou afastando aquela base do próprio Programa Espacial, pois predominava naquela força militar o entendimento de que se tratava de uma estrutura de lançamento de mísseis, não de naves espaciais. Este foi um dos fatores que retardaram o programa brasileiro de satélites, em processos de idas e vindas que acabam afastando cientistas e técnicos que atuam nesta área no Brasil e vão buscar o que fazer na iniciativa privada ou em outros países.

Segundo Ricardo Galvão, ex-diretor do INPE, em entrevista ao portal Brasil de Fato, “quando se desenvolve um satélite, é normal que se desenvolvam vários módulos extras, porque, por exemplo, se uma câmera não funciona bem, não dá para esperar para desenvolver outra, então, normalmente se desenvolvem várias câmeras”.

Ele explica que, nesse processo, foi desenvolvida a câmera WFI, totalmente pela indústria nacional. Então, se tomou a decisão, entre 2008 e 2009, de desenvolver o satélite Amazonia 1, que permitiria colocar essa câmera para monitoramento de todo o território brasileiro, para dar alertas de desmatamento e degradação da terra e, ao mesmo tempo, testar a Plataforma Multimissão em voo.

Com essa tecnologia inovadora, o Amazonia 1 deverá gerar fotos do Planeta a cada cinco dias, e conta com câmeras capazes de cobrir uma faixa de cerca de 850 quilômetros. O satélite ficará numa altura de 752 km distante da Terra e pesa 638 kg. Na sua parte interna, o equipamento contém 6 km de fios e 14 mil conexões elétricas.

Vale lembrar que, numa distância dessas, qualquer problema, por menor que seja, ganha dimensões incalculáveis – aquilo que poderia ser ajeitado com pequenos ajustes pode colocar todo o sistema em risco por não estar ao alcance de mãos humanas. É certo que há, no satélite, sofisticados mecanismos de controle remoto, mas, mesmo assim, são muitas as incertezas e indagações.

Por falar nisso, na quinta-feira, dia 4 de março, técnicos do INPE notaram que poderia estar havendo alguma variação na rota do equipamento e chegaram a comentar o problema com pessoas próximas, pedindo sigilo. No entanto, em pouco tempo o caso já tinha ganhado o rumo das redes sociais na Internet e o assunto já era alvo de comentários públicos, alguns dos quais já insinuando o fracasso da missão espacial. Contudo, ainda naquele dia, uma nota oficial do INPE, com novos dados, aplacou o tititi.

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DIFICULDADES

O lançamento de satélites é um negócio que rende bilhões de dólares por ano e é controlado por um grupo de países, sob o comando dos Estados Unidos e da Rússia, os dois mais fortes nesse campo. Os demais são China, Índia, França, Israel, Japão, Ucrânia, Coreia do Norte e Irã. Dois desses sistemas têm linhagem genealógica bem clara. O de Israel é filhote dos EUA. O da Ucrânia vem da antiga União Soviética, mas hoje sem interferência da Rússia. Os demais têm fontes próprias, ainda que em parceria com os maiores.

A rigor, os EUA e também a Rússia, na sua esfera de influência, jogam pesado pra que os demais países lançadores não cooperem com nenhum outro país, evitando que se tornem lançadores e, portanto, concorrentes nesse lucrativo negócio. De qualquer modo, o Brasil sempre se esforçou pra entrar nesse grupo, mas se deparou com inúmeros percalços que pressionam no sentido contrário.

Afinal, o principal objetivo do Programa Espacial Brasileiro, historicamente, era construir e lançar um satélite geoestacionário próprio, o que daria ao país o controle sobre meteorologia, telecomunicações e tráfego aéreo. Nessa área, entretanto, vai continuar utilizando serviços de terceiros.

Na parte de telecomunicações, há muitos anos o Brasil comprou o direito de uso da série de satélites Brasilsat, que é fabricado pela Hughes, americana, em conjunto com a Spar, canadense. A operação ficava a cargo da Embratel, que era estatal brasileira, mas foi privatizada no governo FHC e hoje pertence à Verizon Communication, ianque. Todos os sinais de rádio, TV, telefonia, internet, tudo passa por ali.

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Na parte de meteorologia, o Brasil usa as informações do Goes, também estadunidense. É bem-informado, com dados acurados, mas manipulável. Não nos esqueçamos de que foi um satélite desse mesmo sistema que mudou de localização no espaço na guerra das Malvinas, entre a Grã-Bretanha e a Argentina, colocando em parafuso os dados meteorológicos na região, inclusive no Brasil.

No caso, foi uma decisão do governo dos EUA, que colocou em funcionamento seu sistema global, que é operado pela sua agência espacial, a NASA, com empresas privadas, que são a Hughes, a Lockheed e a Boing, principalmente. Era uma determinação de estado em favor da Grã-Bretanha, que as operadoras cumpriram com rigor.

Por fim, a parte do tráfego aéreo é setor em que o Brasil, ainda hoje, muito padece. Aqui, quase todo tráfego aéreo é controlado por torres terrestres. Mas há casos de “buracos negros”, especialmente na parte Norte da Amazônia brasileira, nas proximidades do Sistema Parima de Serras, onde está, por exemplo, o famoso Pico da Neblina, considerado o ponto mais elevado do País.

Nesses “buracos” da comunicação terrestre, os pilotos recorrem ao GPS (Geo-Positioning Satellites), também sob controle da NASA. Um satélite geoestacionário brasileiro supriria todas essas informações com risco muito menor para o nosso crescente tráfego aéreo. Pra formatar esse satélite, foi criada uma comissão vinculada à Agência Espacial Brasileira (AEB), com representantes de todos os setores do governo que tenham a ver com o tema, inclusive no campo militar.

Esse órgão funcionou na definição das características do satélite e mesmo de possíveis parceiros na sua construção. A execução do projeto, contudo, depende de dinheiro e de vontade política – mas essas coisas não têm aparecido nos últimos tempos.

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LANÇAMENTO

Pra colocar qualquer satélite no espaço, entretanto, carece de ter um foguete que leve esses artefatos aos céus. Pra jogar no espaço seu VLS (Veículo Lançador de Satélites), o Brasil vem enfrentando sérios problemas. Os dois primeiros foguetes lançados na Base de Alcântara, em 1997 e 1999, tiveram que ser explodidos no espaço, por desvios de rota. O terceiro foi alvo daquela explosão em 2003, ainda em terra, dias antes de ser lançado, em que morreram 21 pessoas, entre técnicos e cientistas brasileiros.

Pra ter capacidade de lançamento, no entanto, o Brasil fez um acordo com a Ucrânia, assinado pelo ex-presidente Lula. Foi criada uma empresa binacional brasileiro-ucraniana denominada Alcantara Cyclone Space, que tinha sede em Brasília e na Base de Alcântara, no Maranhão. Contudo, essa empresa foi desmontada por completo no governo de Michel Temer, após o golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff.

Pra se ter uma ideia da capacidade técnica dos parceiros, os ucranianos têm uma base marítima de lançamento, em enorme barcaça rebocada por navios do porte de petroleiros. Assim, lançam foguetes em diversas áreas do seu mar territorial, ou mesmo de outros países, de acordo com as condições mais apropriadas.

Esse, pelo adiantado das coisas, é o caminho mais fácil do Brasil chegar ao seu foguete de lançamento. Mas, nesse ponto, as coisas se complicam. Há, no próprio governo brasileiro, quem discorde da parceria com a Ucrânia, em favor de uma abertura ao setor privado, que iria favorecer empresas dos EUA.

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No caso, a transferência de tecnologia já vinha ocorrendo no formato tradicional, que é através de universidades e centros de pesquisa envolvidos. Durante a visita do ex-presidente Lula à Ucrânia, em 2007, foi assinado um convênio entre as universidades de Brasília (UnB) e de Dnipropetrovsky, cidade que abriga o principal centro espacial daquele país.

Desde então, vários grupos de estudantes brasileiros foram diplomados por universidades ucranianas, e professores de lá foram chamados como visitantes em cursos universitários daqui. E, por coincidência, no início de março deste ano a UnB colocou em funcionamento o curso de pós-graduação em Astrofísica Gravitacional e Física Espacial, áreas bastante conectadas com o Programa Espacial Brasileiro e com o intercâmbio com a Ucrania.

Por diversas razões, porém, o satélite brasileiro foi lançado em base espacial indiana. A principal justificativa foi de que o Brasil não teria um foguete com tamanho suficiente para colocar o Amazonia 1 em órbita, de modo que foi lançado no Centro Espacial de Satish Dhawan, em Sriharikota, uma ilha do Sul da Índia.

Essa base espacial pertence à Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), que ofereceu condições mais favoráveis no momento. Além de lançar o Amazonia 1, o foguete indiano levou ao espaço, na mesma viagem, outros 18 satélites, todos indianos, com diferentes finalidades.

PARABÓLICAS

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Televisão por satélite é o conjunto dos canais de televisão que são transmitidos de um determinado ponto da Terra para os satélites de comunicação. Depois, o sinal é retransmitido por estes aparelhos e captado por antenas parabólicas fixadas na superfície terrestre, juntamente com um receptor de satélite – um tipo original de roteador – que, sob a forma do que é chamado de set-top box externa ou um módulo sintonizador de satélite embutido em aparelho de TV, é captado.

Em muitas áreas do mundo, como a Amazônia, as operadoras de televisão por satélite oferecem grande variedade de canais e serviços, muitas vezes em áreas que não são servidas por provedores terrestres, que usam torres, ou por cabo. Existem canais que são criptografados e que carecem de um descodificador pra poderem ser vistos nos televisores, e outros que são emitidos gratuitamente em sinal aberto.

A transmissão é feita pelo sistema DTH (direct-to-home), que transmite o sinal analógico e o sinal digital, sendo que isso só depende do tipo de receptor de satélite disponível (igualmente analógico ou digital). A televisão analógica está sendo substituída pela televisão via satélite digital,  mas esta também já está sendo substituída por um sistema de melhor qualidade, amplamente conhecida como televisão de alta definição (HD).

O sinal de televisão via satélite, no mundo ocidental, foi retransmitido pela primeira vez na Europa, pelo satélite Telstar, e captado na América do Norte, em 1962. O primeiro satélite de comunicação comercial, chamado de Intelsat I, foi lançado em órbita em 6 de abril de 1965. Já a primeira rede nacional de televisão por satélite, chamada Orbita, foi criada na antiga União Soviética, em 1967, usando o satélite Molniya.

O primeiro satélite comercial norte-americano para levar à televisão o sinal era geoestacionário do Canadá Anik 1, que foi lançado em 1972. O primeiro satélite a fazer uma experiências educacional e DTH foi ATS-6, lançado em 1974. O primeiro satélite geoestacionário soviético para levar a transmissão direct-to-home era chamado Ekran, e foi lançado em 1976.

Satélites que retransmitem sinais de televisão estão localizados em órbitas geoestacionárias a muitos quilômetros acima da Linha do Equador, acompanhando o movimento do Planeta. No entanto, seguindo a órbita da Terra na mesma velocidade e direção, a sensação que se tem é de que eles estão parados, não se movem. A importância disso é vital, pois torna possível a utilização de um transmissor ou um dispositivo receptor sem a necessidade de reposicionar o satélite como ele se move.

Devemos ter sempre em mente que o número de satélites em órbita geoestacionária precisa ser limitado, pra evitar possíveis interferências que possam surgir entre eles. Satélites com funções diferentes também podem sofrer (e oferecer) interferências, sendo necessário acordos internacionais que delimitem a quantidade de equipamentos e circulação no espaço cósmico.

FUTEBOL

A Copa do Mundo de Futebol de 1970, realizada no México, foi um marco na história da TV no Brasil. O selecionado auriverde vinha de um retumbante fracasso na Copa anterior, em 1966, e tinha montado um time de ouro, com grandes craques (Pelé, Jairzinho, Rivelino etc.), criando enorme expectativa na torcida. Nada melhor do que ter os jogos ao vivo na telinha e em cores ainda por cima – o que era uma grande inovação, pois a TV ainda era em preto e branco.

O primeiro governo do regime militar, por outras razoes, já tinha cuidado da atualização tecnológica e criou a Embratel, empresa mista, de controle estatal, com função de transporte de dados e de voz. Ao surgir o sistema de sinais de TV distribuídos por satélites, a empresa passou a gerenciar essas operações, a ponto de ter surgido no país a expressão “via Embratel”, que significava a comunicação à distância, bem rápida ou ao vivo.

O fato é que a Copa do Mundo de Futebol passou a ser utilizada como um momento de acontecimentos e foi marcada por três eventos de impacto nacional: o sinal via satélite, as cores na tela e um protesto contra a ditadura em vigor no país de então. O protesto era – vejam só! – torcer contra a seleção canarinho, pra que não se tornasse um troféu dos detentores do poder desde o golpe de 1964. Só era preciso, claro, ter um aparelho de televisão colorida.

As negociações com as autoridades mexicanas responsáveis pela distribuição dos sinais dos jogos foram puxadas pela extinta TV Tupi, sob grande tensão e acusações de favorecimento daquela emissora. “A mentira que salvou a Copa” é a forma como o episódio se tornou conhecido mundialmente e foi protagonizado por José de Almeida Castro, histórico diretor da Tupi.

No final das negociações, já com outras emissoras (Band, Globo e Record), os mexicanos insistiam em cobrar mais de um milhão de dólares pelos direitos de transmissão, um valor absurdo na época, que os brasileiros alegavam não ter como pagar. Numa reunião, o diretor da Tupi bateu na mesa e disse que o governo brasileiro não aceitava ficar sem os jogos ao vivo e que, se isso de fato viesse a ocorrer, a seleção brasileira não participaria da competição. Era mentira, mas colou e os jogos foram transmitidos a preços módicos.

Já nos primeiros jogos da seleção canarinho, contudo, era possível sentir certa relutância que permeava a campanha contra a ditadura. Grande parte daqueles que haviam se disposto a torcer contra evitou ver os jogos em locais abertos, pra torcer a favor do empolgante time que representou o Brasil no México. A luta contra a ditadura era outra história.

Jaime Sautchuk


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