Os MeRcenas: a casta de Brasília que atravanca o País –

 Por: Leticia Bartholo –
 Quem foram os Mecenas sabemos todos. Aqueles senhores ricos e poderosos que financiavam produções artísticas, durante os séculos XV e XVI. É fato que possivelmente o financiamento se dava menos por boa fé e bom gosto e mais pelo interesse em prestígio e títulos de nobreza, mas, de todo modo, os Mecenas foram importantes para o Renascimento cultural.  Poucos sabem, no entanto,  que há em Brasília uma casta parônima: os MeRcenas. Em comum com os burgueses europeus, tão somente a busca por prestígio e títulos de nobreza, porque os modos de atuação e os resultados sociais que provocam são muito distintos, para não dizer nefastos.
 Os MeRcenas são integrantes de um grupo da alta Administração Pública Federal brasileira, cujo objetivo maior é a obtenção de prestígio e o enriquecimento.  Caracterizam-se por não se importarem com o bem-estar da população e não cultivarem nenhum tipo de coerência política ou ideológica. Observe que não falei em partidarismo, mas em visão política. Eles não são de direita, não são de esquerda e tampouco estão ao centro: são do governo de plantão e a ele atuam fiéis para manter o poder. Gostam de funções altas, participação em conselhos de estatais e outras cositas que permitem o salário passar do teto constitucional. Quando percebem que um governo está prestes a acabar ou vai cair, rapidamente mexem seus pauzinhos para seguirem bem, ou melhor, num próximo. E pra isso fazem de um tudo! MeRcenas não têm limites éticos.  Comumente são servidores concursados, do sexo masculino, que gostam de frequentar restaurantes chiques e praticar a sedução como demonstração de poder.  Em resumo: são os mercenários da Administração Pública Federal brasileira.
Não é fácil identificar um MeRcenas, mas há três dicas válidas.  Primeiro, eles cultivam um apego profundo ao tal do bottom. Ah, você não sabe o que é bottom? Vou lhe explicar: bottom é um brochinho criado para identificar, entre os funcionários públicos, os que ocupam posições de poder.  Quem usa o brochinho pode, por exemplo, usar a portaria privativa dos Ministérios. Legal, né?
 Bem, em vários contextos é quase uma obrigação usar e muita gente boa o utiliza, de maneira que o simples uso do bottom não é o suficiente para diferenciar um MeRcenas de um cara gente boa e comprometido com o trabalho. Mas as circunstâncias nas quais o bottom é utilizado ajudam na identificação. Os MeRcenas adoram ostentá-lo por bares e restaurantes caros no fim do expediente de sexta-feira. O trabalho acabou, ele não vai mais pegar o elevador privativo, mas tá lá, com o diabo do brochinho plantado no paletó. Se você questioná-lo sobre por que não tira o bottom, ele rapidamente responderá: é porque tenho medo de perder. E a resposta está completamente certa. Só que o objeto de medo da perda não é o broche, mas o poder com o qual ele se sente investido quando usa essa minúscula insígnia de status.
 A segunda é pelo papo: os MeRcenas adoram longos papos sobre trabalho que demonstrem sua relação íntima com o poder. Aí, cara, ontem você não foi ao jantar do Meirelles? Ficamos lá te esperando! – dirá um MeRcenas típico, muito possivelmente perto de uma garota bonita e jovem pra quem ele quer, feito um ganso, se amostrar.
 A terceira é pelo olhar. Eles invariavelmente têm olhos opacos, sem vestígio de brilho. Fixe um MeRcenas nos olhos por 10 segundos e você será tomado por uma sensação de vazio existencial profundo, de superficialidade e solidão. Você quase sentirá pena, mas eu lhe digo que não sinta. A tristeza ali embutida foi pura escolha, uma opção racional pela mediocridade de caráter. Entre carros oficiais, reuniões dispensáveis e conversas fúteis em jantares caros, deixam eles de estar atentos aos famintos, aos miseráveis e aos milhares que morrem, diariamente, de desigualdade. E, feito quem não se importa que o País vá à idade das trevas, perambulam pela cidade murchando a luz do povo, com seus olhos nublados de poder.
 
 ANOTE AÍ:
 
Texto: Letícia Bartholo. Socióloga e escrevinhadora. Gosta de olhos que brilham.
 Arte: Daniel PXeira. Sociólogo e rabiscador. Sempre desprezou bottons.

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