Em meio ao caos em nossa Pindorama… eu estou na paz

Por: Jairo Lima

Os dias não tem sido nada fáceis em nossa Pindorama: caminhoneiros, políticos corruptos, período pré-eleitoral e outras tantas lambanças vem afetando a já difícil existência dos brazuca.

Um conhecido mandou uma mensagem oferecendo uma camisa da seleção brasileira, por um preço ‘bem camarada’. Questionei o porque dessa inusitada mensagem  ele me respondeu que ‘ao menos temos a copa do mundo para relaxar a cabeça…” – Copa?? Nem me toquei que tem esse troço no mês que vem, talvez porque não assisto futebol, talvez porque não me importo mesmo com a seleção (juro que não faço idéia quem joga no time). Mas fiquei pensando na frase “relaxar a cabeça”.

Nestes dias de convulsão nacional e alienação esportiva que estamos passando, a frase ‘relaxar a cabeça’ me transporta a outros pensamentos, bem diferentes da maioria: aldeia indígena; huni; cantoria; fogueira; cheiro da floresta.

Em julho começa o ciclo de festivais e vivências nas aldeias indígenas no Acre. Ao todo, segundo constam nos levantamentos a respeito, são cerca de vinte e sete festivais que ocorrem entre julho e dezembro, movimentando não só as comunidades como, também, a miríade de visitantes que para estas bandas se deslocam.

Fiquei pensando no sossego da aldeia. Quando a noite chega e os sons noturnos tomam conta do ambiente, nos transportando a um estado de paz, sono e aconchego. Penso no amanhecer colorido e musical, com sons de pássaros e outros bichos da natureza inundando nosso ser. O cheiro do ‘quebrajum’* preenchendo o ambiente e atiçando nosso apetite: O sabor gostoso do açaí, do mabush**, do mani mutsa*** e outras maravilhas da culinária indígena que alimentam não só a matérias, mas, também, nos conecta com a simplicidade e a riqueza natural e protéica dos alimentos.

Penso naquele delicioso banho de igarapé, ou de rio, que refresca o corpo e purifica nossas energias com o seu ‘caldo’ formado por uma infinidade de plantas e demais ‘temperos da natureza’.

O papo sempre bom, descontraído e direto com os txais, que relevam, em muitos casos, nossa ignorância quanto à riqueza à nossa volta e, muitas vezes, nos ensinam coisas que, de tão básicas numa aldeia onde se vive conectado com o ambiente, faz com que nosso desconhecimento ou ignorância em relação a isso nos coloque na posição de crianças que começam a descobrir o mundo.

Chego a respirar fundo quando relembro dos momentos nas ‘rodas de cipó’, comungando dos mistérios encantados ao som de lindas canções que nos remetem a um estado de perfeita harmonia com o ambiente.

É difícil descrever a paz que toma conta da gente quando, depois de uns dias na aldeia, nosso ‘ritmo’ diminui, e entramos na cadência das horas e momentos do ambiente, que se arrasta vagarosamente, e que só percebemos isso depois de um tempo, quando nos desconectamos da servidão maldosa do relógio de nossas rotinas diárias, que sempre nos fazem correr contra o tempo, como se fugíssemos de algo ou, ainda, como se tivéssemos sempre atrasados para algum compromisso (tal qual a alegoria do coelho branco em Alice no País das Maravilhas).

De tanto que vivemos em caixinhas muradas nas cidades, às quais chamamos de ‘lar’, não percebemos o tanto que somos prisioneiros de uma penitenciária gigantesca, que nos isola e nos afasta do convívio social pleno, reduzindo-nos a um nicho muito seleto de pessoas, ambientes e gostos, de maneira que nos tornamos indivíduos egoístas e que vê quem está ao lado como se fosse um concorrente ou, pior, uma ameaça.

Na aldeia não. Só o fato de estar num local sem muros e grades por todos os lados nos dá uma sensação de liberdade maravilhosa. A certeza de que estamos bem, e seguros (em relação às pessoas) de pronto nos ‘desarma’ as atitudes, levando-nos a um estado normal de interação e socialização.

Tô aqui escrevendo este texto, trancado no meu quarto amargando uma severa gripe que prostou-me ao leito. Penso que,certamente, umas boas rezas com um pajé ou uma benzedeira poderiam fazer um bem danado a mim, ao invés de me envenenar quimicamente com a enorme quantidade de medicamentos que estou tomando. Com certeza alguém me daria um chá, ou um remédio qualquer na aldeia, algo natural como, por exemplo, um pouco de banha de arraia com copaíba, misturadas com outras ervas que ‘tirariam’ esse catarro do meu peito rapidamente. Será? Bem, eu acredito que sim.

Também, no dia em que escrevo esse texto completo meus quarenta e cinco anos, até aqui bem vividos, graças a Deus e todos os yuxibus da natureza. O celular já buzinou um zilhão de vezes, indicando mensagens, minha caixa de emails também já deu sinal de vida e, acredito que no Facebook algumas pessoas devem ter lembrado de mim. Mas querem saber? Fico pensando mesmo é se alguns txais querido lembrarão de mim hoje a noite quando, em alguma aldeia nessas matas do Juruá estiverem tomando o cipó, passando seu rapé e transformando o mundo com suas canções encantadas.

– ‘Poxa… após o texto anterior sobre o kambô e com tanta coisa acontecendo nesse mundo indígena vocÊ tá aí nesse papo todo meloso?’ – Acreditem que tenho certeza que posso escutar esse comentário quando alguns ler este texto – isso se tiveram paciência de chegar até aqui. Pois é, galera, é exatamente nesse ponto que quero chegar: a moral da história desse papo todo até aqui.

A moral da história é justamente podermos transportar nossa mente para lembranças e pensamentos que nos afastem dessa caoticidade toda, que nos confortem e que nos encham de positividade. É transportar-se a um local de paz, sentimentos e sensações benfazejas. Do contrário, certamente seremos tomados de sentimentos e pensamentos nebulosos ou melancólicos, que adoecerão nosso corpo e nosso espírito. Se todos ao nosso redor só bradam palavras de guerra, que sejamos dissonantes em meio a essa desarmonia toda, mantendo nosso equilíbrio e harmonia.

É isso…

Deixo o caos, os dilemas e as críticas para um outro momento pois, nesse momento, enquanto os remédios me deixam enjoado e entorpecido, só consigo pensar na paz que nesse momento deve estar, nas aldeias espalhadas nesse rincão encantado chamado Juruá…

ANOTE AÍ:

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

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Imagens: Daiara Tukano

* Café da manhã.

** Espécie de mingau de milho verde

*** Mingau de banana.

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