A condenação Triplo A. Ou, como transformar merda em ouro.
Por:  Letícia Bartholo
A origem da última grande depressão de 2008 é complexa. Mas um dos aspectos mais interessantes dessa origem é a tentativa de transformação de merda em ouro. Sim, merda em ouro.
Independentemente dos motivos, causas, responsabilidades, uma série de instituições financeiras começaram a emprestar dinheiro para pessoas que claramente não tinham condições de pagar. Esses contratos de empréstimo eram uma merda. Eles obviamente iriam resultar em calote.
Mas alguém teve uma ideia genial! Se você juntasse e amarrasse um grande conjunto desses contratos, firmados em lugares muito diferentes, você reduziria tremendamente os riscos sistêmicos e geraria um título muito seguro.
Muitos deles tiveram avaliação de serem absurdamente seguros: receberam AAA das agências de risco (as mesmas que classificam o Governo Brasileiro como um investimento de risco).
O “triplo A” é fundamentalmente o risco mais baixo que existe. Equivale ao risco de emprestar dinheiro para o Governo dos Estados Unidos. Junte muita merda, amarre bem e, abracadabra: teremos ouro!
Foi essa mesma magia de transformação de merda em ouro o que fizeram na sentença do Lula. A Folha de São Paulo publicou os elementos mais importantes do conjunto probatório.
Está aqui, para quem ainda não leu. O “robusto” conjunto probatório é composto por: (i) papeis rabiscados, em que o número referente à unidade 141 (o duplex comprado por Marisa Letícia) foi escrito em um formulário de compra sobre o número 174 (o tríplex); (ii) uma reserva do apartamento 174, feita desde a época em que a Bancoop tocava o empreendimento.
Estranho, né? A OAS pagou propina a Lula com um apartamento que já estava reservado para ele pela Bancoop!; (iii) um papel de compromisso de compra do apartamento 174, não assinado (sim, um papel não assinado); (iv) uma reportagem da Folha de S. Paulo dizendo que o tríplex era do Lula (“Dr. Moro, não me julgue por uma matéria de jornal!”); (v) a declaração do IRPF de Lula dizendo-se proprietário do apartamento 141 (que a OAS já tinha vendido); (vi) a visita de Lula ao apartamento (ele estava recebendo propina? Ele estava visitando um possível imóvel para investimento?); (vii) trocas de mensagens entre Leo Pinheiro e funcionários da OAS tratando da reforma (era um agrado? Uma propina? Tinha relação com os contratos da Petrobras? A reforma foi aceita?).
Pois é, é isso mesmo. Condenam o Lula a 12 anos de prisão, com base em rabiscos, papéis não assinados e matérias de jornais. É realmente incrível!
De fato, como bem diz um querido amigo, isso só acontece num País em que você é capaz de juntar um grupo de playboys no Ministério Público, um grupo de juízes metidos a justiceiros e um juiz maior fora da casinha da realidade.
Alguns amigos, convencidos de que Lula é culpado, dizem que o “processo tem muito mais”. Mas o “muito mais” não aparece. Nunca. Em lugar nenhum.
Cada uma dessas provas é um pedaço de merda. Você sabe disso. Juntaram, amarraram bem e estão tentando vender para você como um “conjunto probatório 3 x 0”.
O “conjunto probatório 3 x 0” é a versão brasileira do “título hipotecário subprime triplo A”. Um conjunto de merda, bem amarrado. Querem te convencer de que é ouro.
Mas o cheiro não é bom. Só se convence de que essa merda é ouro aqueles tomados pelo ódio, pela desumanidade, ou pela ignorância eletiva. Em resumo, essa merda só convence gente feita da mesma matéria.
ANOTE AÍ:
Texto: Letícia Bartholo. Socióloga, sempre soube que foi golpe.
Arte: Daniel Pxeira. Sociólogo e rabiscador, não compactua com essa merda.

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