Dedê Maia: Para 2017, uma mensagem de realista esperança –

Esse foi um ano para não esquecer! Uma mensagem “Sobre a Esperança” – Esta mensagem para encerrar 2016 e esperar um “Ano Novo” não se trata de uma mensagem qualquer, tipo dessas que já vêm prontas e empacotadas para os finais de todos os anos.

Também não se trata de mais uma mensagem de análise do panorama político, ou críticas. E olha que temos muitas razões para isso! Ou ainda mensagem cheia de lamúrias das perdas desse tempo! E se der trela como tem “ais” em 2016!

Esse foi um ano para não esquecer “com tudo que é de seu.” E nesse “tudo que é de seu”, eu pessoalmente venho também de encontros e reencontros prazerosos e encantadores, que cantam para levantar o céu; que reverenciam a vida; que “rexistem” com dignidade, sabedoria e ações inteligentes, aos cruéis desatinos do mundo nawá.

Realmente esse é um ano para não esquecer!

Foto: Sérgio Vale

Resolvi, não apenas responder a mensagem do autor, mas compartilhá-la. Essa mensagem foi mais uma das “sincronicidências” que o movimento mais recente da minha vida tem me reservado. E sigo o fluxo, às vezes prazeroso, às vezes perigoso. Carece de atenção.

Muitas dessas “sincronicidências” me levam a revisitar memórias. Encontro pessoas e fatos que de diferentes formas passaram a fazer parte da minha história e/ou contribuíram no desenvolvimento e amadurecimento do meu trabalho entre os povos da floresta.

Uma dessas pessoas é o autor dessa mensagem de “Realista Esperança”, o professor Carlos Rodrigues Brandão, carinhosamente chamado pelos amigos de professor Brandão, ou simplesmente Brandão. Um grande mestre!

Foto: Carolina Comanduli

Quando recebi sua mensagem estava exatamente revisitando meus diários da floresta, procurando um determinado arquivo. E aí encontro uma pérola da memória, meu primeiro encontro com esse mestre.

Eu a li ouvindo e sentindo cada palavra, assim como foi durante o nosso primeiro encontro, e numa dessas coincidências incríveis que o universo nos coloca no caminho, sua mensagem me lembrava “que nada é para ser esquecido…” Nem mesmo esse ano de “céu” carregado de “nuvens pesadas”, pronto a desabar em nossas cabeças.

Sua mensagem também nos convida a refletir sobre o que um dia Jean-Paul Sartre escreveu: “Uma coisa é o que fizeram de nós. Outra coisa é o que nós fazemos do que fizeram de nós”.
E assim a mensagem desse mestre nos leva por caminhos de muitas reflexões, mas sobre tudo de força, amor e esperança sobre “nós mesmos” nesse seguir.

Que maravilha fechar esse ano com uma memória tão querida, e essa pérola que o Professor Brandão nos presenteia!

Foto: Sérgio de Carvalho

Para mim é uma honra e um privilégio compartilhar esse primor. Como foi um privilégio conhecê-lo, quando ainda eu ensaiava minhas primeiras andanças pela floresta. Era o início da década de 80, precisamente no ano de 82.

Meu encontro com esse mestre foi mais que um encontro de conversas amistosas. Com o coração aos pulos, durante um seminário de Educação Popular, realizado em Rio Branco- AC, onde fui uma das relatoras da experiência vivida entre os seringueiros de Xapuri ouvi atentamente a avaliação feita por ele sobre minha experiência.

O projeto, batizado pelo nome de “Projeto Seringueiro” foi idealizado pelo nosso querido e saudoso Chico Mendes, e pela antropóloga Mary Allegretti, tendo a pedagogia “paulofreiriana” como nossa linha mestra, na qual se fundamentava a minha formação como professora, até então.

Imagine! Eu, uma aprendiz de aprendiz, diante de vários profissionais: antropólogos, pedagogos, entre outros, que discursavam suas experiências, cheios de verdades absolutas; Diante daquele mestre que me ouvia atentamente; Eu cheia de dúvidas sobre aquele universo tão singular; Confesso que tremi “mais que vara verde”!

No entanto, o que ele me disse na época, durante sua avaliação sobre as experiências expostas, para minha surpresa, e não sei quanto de emoção explodindo dentro de mim, registrei nas páginas de um dos meus diários da floresta: “- O depoimento dessa jovem foi o mais verdadeiro que ouvi aqui neste seminário… a educação é isso… se dá através de trocas reais de fato… a educação precisa partir da vida real dos indivíduos… educando e educadores. Não existe mágica! São relações humanas e classes sócias que estão em jogo… ” Mas, essa é outra memória que merece eu me debruçar com mais profundidade sobre ela, e que não é o caso agora.

A mensagem ficou na minha vida como uma mensagem de esperança sobre meu próprio caminho profissional, e uma importante lição para o meu aprendizado. Não estava tão no “escuro”, como eu imaginava.

Foi também mensagem de força para continuar me aprimorando, “sem temer”, sempre na condição de aprendiz. Continuar sonhando, me revisitando sempre, e a tudo que faço, fazendo por um mundo melhor. Por mim mesma, e por tudo que me rodeia e me relaciono.

E que apesar de estarmos vivendo um tempo semelhante aos tempos sombrios de uma ditadura cruel, ainda assim, os que lutaram pelas perspectivas de renovações democráticas, não devem se entregar ao sentimento de “tempo perdido”.

E muito menos essa nova geração se entregar a desesperança de mudar o rumo dessa história torta. Como nos lembra esse grande mestre: “eles” passam. E nós estamos e persistimos em “estar aí”, de mãos abertas e de punho erguido, ano após ano, década após década, geração após geração! Estamos aqui! Estamos por toda a parte.

E estamos juntos uma vez mais! E essa é a essência da mensagem que o ilustre professor Carlos Brandão passa primorosamente a todos nós. É uma mensagem de realista esperança sobre “nós mesmos”.

Faço dessa mensagem a minha, para todos os amigos e amigas, e para todos aqueles que dispensam seu tempo lendo minhas ”escrevinhações”. Um ano novo de verdade! Esperança! Sempre! Lembrando que “a esperança não é algo vazio…” não deve ser! “Deve possuir a certeza interior de alcançar o seu objetivo. Só essa certeza confere a luz única que conduz ao sucesso.” (do livro das mutações – sabedoria chinesa: Iching).  Esse foi um ano para não esquecer!

E é assim que recebo essa mensagem atual do Professor Brandão. Seguindo, desenhando e redesenhando caminhos. Às vezes “o caminho se estreita”. Às vezes com passagens bem perigosas, desafios que requerem de nós muita coragem, esperança e determinação.

Foto: Eliane Fernandes

SOBRE A ESPERANÇA
Mensagem para encerrar 2016 e esperar um “Ano Novo”

Há quem dentre nós talvez diga neste fim-de-ano: “este foi um ano para esquecer”.
Nenhum ano é para ser esquecido. Nenhum mês, nenhuma semana, dia ou minuto.
Recebi – como imagino que toda a gente recebeu – um sem número de mensagens sobre os “tristes acontecimentos de 2016”. Vários deles foram criticas, e bastante justos e necessários.
Eu mesmo, em outro tom escrevi um deles. O longo escrito a que dei este
nome: Viver sem temer.
Não quero fazer desta mensagem de final de ano (uma velha prática de longos tempos) mais um dos documentos de “análise da atual conjuntura”.
Não quero trazer a tanta gente amiga e querida uma mensagem mais de olhar crítico sobre a política e a economia “deles”, junto com o peso de seus efeitos sobre todas e todos nós e, sobretudo, sobre mulheres e homens do povo.
Dos muitos povos com quem convivemos de perto ou e mais longe. Lembro sempre nessas horas o que um dia Jean-Paul Sartre escreveu: “Uma coisa é o que fizeram de nós. Outra coisa é o que nós fazemos do que fizeram de nós”.
Esta não é, portanto, uma mensagem de crítica a respeito “deles”. É uma mensagem de realista esperança em e sobre “nós mesmos”.
Venho de lugares, venho de rostos, venho de gestos e de pessoas ao longo de 2016. E é a lembrança deles e delas o que me leva a escrever esta mensagem.
Venho de uma Escola Popular em um Assentamento do MST no Sul da Bahia. Venho de professoras de escolas dos “sem-terrinha”, e venho de famílias que no assentamento vizinho haviam acabado de receber os seus “lotes de terra”, e entre o temor e a esperança transportavam para eles os seus poucos trastes. Todos eles juntos, e mais os lotes de muitas terras conquistadas pelos camponeses do Brasil afora, são bem menores do que um único latifúndio das empresas do agronegócio. As mesmas que sobre as terras férteis do Sul da Bahia semeiam desertos de eucaliptos.
Venho do Norte de Minas. Venho de Montes Claros e de encontros que aproximaram gentes de universidades, como eu, e pessoas de práticas populares. Pessoas de pele escura, entre indígenas e quilombolas, ao lado de homens e mulheres camponesas, povos do cerrado, da floresta e das águas.
Pessoas que, começam os seus encontros e congressos entre preces e “místicas” com as mãos abertas; e os encerram agitando para o alto punhos erguidos, e gritando as palavras que deveriam calar os que fizeram do Brasil o que ele tem sido nestes tempos.
Venho de uma gente que em Passo Fundo reúne-se há anos para pensar e praticar coletivamente alternativas de uma “educação para a paz”, quando poderia estar encerrada em seus escritórios, escrevendo um outro artigo destinado mais a aumentar um currículo vitae do que a dialogar com quem educa crianças, jovens e adultos no “chão da escola”.
Venho de pequenas comunidades tradicionais do Espírito Santo. Ali, onde indígenas Tupiniquins e outros povos resistem como podem a nada menos do que à Aracruz, e a outras poderosas empresas do agronegócio.
Um lugar onde professoras da Universidade Federal e de Centros, e Institutos Tecnológicos (mas profundamente humanos) tentam criar com jovens estudantes vindas “da roça”, uma pedagogia da terra a serviço de uma transgressiva educação do campo.
Venho de “fábricas ocupadas” por operários da Argentina, e venho de “Bachilleratos Populares” entre Lujan e Neuquén. Lugares de pobres onde às vezes entre caixotes de madeira e toscas mesas improvisadas jovens, e adultos se reúnem para reaprenderem a ler e a pensarem juntos uma “outra história” do País e do Continente.
Venho de presos políticos. Em Medellín, depois de atravessar três portões trancados a cadeado cheguei na “Penitenciária del Estado” a um local coletivo onde uma pequena equipe de presos políticos do Exército Popular de Libertação sonha inaugurar uma “Universidade Popular”.
Venho de povos andinos que em suas línguas arcaicas nos desafiam a deixar de lado o mercado e viver a vida. E nos sussurram: Sumak Kansay e os outros nomes que querem todos dizer uma mesma ideia: viver a “vida boa”, um “viver bem” solidário, oposto em tudo à “boa vida” com que o capital e a sua mídia nos mentem entre as mesmas falsas promessas de sempre.
Venho de tanto em um só ano. E bem sei que venho de apenas uma ínfima fração das vivências coletivas, dos momentos populares de insurgência, da persistente reconstrução de grupos de base, e de ações das quantas comunidades tradicionais e também dos movimentos populares. E venho também da presença ativista e solidária de instituições de apoio a alternativas e iniciativas de uma pluri-transgressão emancipadora.
Venho de pessoas com quem aprendo a cada dia a calar o que sou, penso e possuo, para descobrir com elas a viver bem mais da esperança do que do medo.
Lembro que no dia 31 de agosto deste ano encerramos o Colóquio Internacional de Povos e Comunidade, em Montes Claros, com uma Passeata dos Mártires. Foi quando escrevi o texto Viver sem temer. Caminhamos ao redor de uma grande praça levando pequenos estandartes de mulheres e homens que nos últimos anos, apenas naqueles “sertões do Norte” haviam sido mortos lutando por terra, território, justiça e liberdade.
Quase ninguém veio presenciar a nossa “caminhada”, e ouvir os nossos cantos e os gritos de nossas memórias. Televisão alguma estava presente e “canal” algum noticiou o que se vivia ali. Mas enquanto pelas janelas abertas das casas víamos de passagem nos aparelho de TV os acontecimentos do “Congresso Nacional”, entre mãos abertas e punhos erguidos completamos a nossa volta pela praça.
Lembro-me de haver vivido algo semelhante há exatos 50 anos, em plena “ditadura militar”. Estar vivendo algo assim tantos anos depois, de forma alguma me trás um sentimento de “tempo perdido”.
Ao contrário, apenas renova a certeza de que “eles passam”. E nós estamos e persistimos em “estar aí”, “de mãos abertas e de punho erguido”, ano após ano, década após década, geração após geração.! Estamos aqui! Estamos por toda a parte. E estamos juntas e juntos uma vez mais.
E mais do que as “sementes crioulas” que eu vi semana passada sendo jogadas nas terras de assentamentos do Sul da Bahia, creio que estamos unidos para semearmos também a coragem da insurgência de uma justa luta e, mais do que tudo, de uma inapagável esperança.
Saibamos crer em nós.
Saibamos acreditar em nossa inabalável vocação de revisitar nossas vidas, de clarear nossas mentes, de não nos deixarmos colonizar, de aproximar os nossos corpos, de unir nossos braços, solidarizar nossas vidas, criar nossos destinos… e seguir adiante.
Confiemos em nós. Saibamos varrer de nossas vidas o temor que o sistema tenta colocar em nossos corações, e saibamos viver do que é nosso: a coragem da esperança.
Baruch de Spinoza foi um pensador do século XVII. Judeu de uma família de origem espanhola expulsa para Portugal e, depois, para a Holanda, viveu lá a sua vida como um humilde “polidor de lentes”, e também a de um filósofo livre. Por causa de suas ideias, inclusive a respeito de deus, ele foi excomungado de sua comunidade judaica. É dele a passagem que, por falar sobre a esperança, eu desejo que encerre esta mensagem.
Um povo livre se guia pela esperança mais do que pelo medo; o que está submetido se guia mais pelo medo do que pela esperança. Um almeja cultivar a sua vida. O outro, suportar o opressor. Ao primeiro eu chamo livre. Ao segundo, chamo servo. (Baruch de Spinoza, Tratado teológico político)
Rosa dos Ventos – no Sul de Minas
Carlos Rodrigues Brandão
Quase no fim do ano. Na quadra da Lua Nova

ANOTE AÍ!

O professor Carlos Brandão possui graduação em Psicologia pela PUC-Rio, especialização em Educação pelo Centro Regional de “Educación Fundamental para La América Latina”, mestrado em Antropologia pela UNB, doutorado em Ciências Sociais pela USP, pós-doutorado em Antropologia pela Universidade de Perugia e pós-doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Santiago de Compostela. E não só isso! Ele também é um grande poeta!

Dedê Maia é indigenista acreana. Sua trajetória de vida mescla-se com a história do indigenismo acreano. Junto com grandes indigenistas como os Txais Terri e Antonio Macêdo ajudou a construir o que hoje chamamos “a história do Acre Indígena” . Mesmo desenvolvendo vários projetos diferentes em sua trajetória, sempre se destacou como incentivadora e apoiadora do processo de fortalecimento da cultura tradicional em sua expressão artística e material, sendo autora, coautora ou participante de um-sem número de projetos voltados à esta frente indigenista.

A linda foto da criança indígena no interior desta matéria é de Sergio Vale.

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