Josué de Castro e a descoberta da fome

Por Ana Maria de Castro, com introdução de Leonardo Boff

Como poucas vezes em nossa história, a fome grassa aos milhões em nosso país, no contexto da intrusão do coronavírus. Josué de Castro foi o mestre que inaugurou em âmbito nacional e internacional o tema-tabu da fome.

Sua filha Ana Maria de Castro resume a trajetória e as ideias de seu pai sobre a fome, que não é natural, nem querida por Deus, mas é fruto de políticas de exclusão a que um Estado, ocupado pela classe dominante, submete grande parte da população.

Seu clássico “A Geografia da Fome” mostrou seu caráter humano e social. Não se trata da geografia física, mas da geografia humana e política, como exemplarmente o mostrou um de seus seguidores, mundialmente conhecido, Milton Santos.

Hoje a fome do Brasil é pecaminosa, injusta e cruel. Somos como país um dos maiores produtores de alimentos e de proteínas. Mas esta produção não se destina a matar a fome da nossa população.

A maior parte dela vai para a exportação, até para, como é o caso da soja, servir de alimento para os bovinos na China. Neste contexto da fome generalizada neste país, vale resgatar as reflexões críticas e inspiradoras de Josué de Castro (ele também cassado pela insensibilidde dos militares de 1964).

Elas são um anúncio de suas origens políticas, da vontade humana excludente e acumuladora de riqueza e uma denúncia destes mesmos mecanismos atualmente ainda vigentes e aprofundados.

O MST, o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina e um dos maiores doadores de alimentação agroecológica para as periferias famélicas de nossas cidades, recolheu e divulgou o presente texto.

Leonardo Boff

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No contexto em que a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, de poder e da propriedade, a obra e as propostas de Josué de Castro devem continuar a ser lidas e estudadas.

Josué de Castro foi uma destas figuras marcantes de cientista que teve uma profunda influência na vida nacional e grande projeção internacional nos anos que decorreram entre 1930 e 1973, data de seu falecimento em Paris. Ele dedicou o melhor de seu tempo e de seu talento para chamar a atenção para o problema da fome e da miséria que assolavam e que, infelizmente, ainda assolam o mundo.

Nascido no Recife, cidade do Nordeste brasileiro, lá, ainda nos primeiros anos de vida, teve contato com o objeto de seus trabalhos de cientista e de escritor – o problema da fome. Seus livros mais importantes sempre mantiveram o rigor científico e a verve do romancista, desejo guardado em seu íntimo. Josué de Castro sempre admirou os escritores capazes de contar dos homens e das coisas dos homens com uma linguagem universal, melhor do que os cientistas.

 Assim é que, ao escrever seu principal livro, a Geografia da Fome, dedicou-o a dois escritores, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, romancistas da fome no Brasil. A obra também é dedicada à memória de Euclides da Cunha e Rodolfo Teófilo, sociólogos da fome no Brasil.

Anos antes, junto com Cecilia Meirelles, havia escrito A Festa das Letras, uma cartilha de alimentação. Tentou desenvolver seu gosto pela literatura ao editar, em 1935, a obra Documentário do Nordeste. Entre os contos então publicados, encontra-se o “Ciclo do Caranguejos”, que só mais tarde desenvolveu como uma novela sob o nome de Homens e Caranguejos.

Nestes escritos descreve a fome como fenômeno social: “o tema deste livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados da cidade do Recife. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o problema da fome. Esta se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejos, pensando e sentindo como caranguejos”.

Estas imagens de infância e o exercício da medicina foram fundamentais na trajetória científica de Josué de Castro. Nos idos de 1935, ao coordenar o inquérito sobre as condições de vida da população do Recife, já era evidente que as velhas e insustentáveis teorias, falsas interpretações, deploráveis preconceitos raciais e climáticos, bem como o Malthusianismo praticado em detrimento das populações subdesenvolvidas, precisavam ser substituídos. A fome não podia continuar a ser tratada como um tabu, matéria proibida da qual ninguém se atrevia a falar, senão com circunlóquios que desfiguravam a realidade.

Ao escrever a Geografia da Fome, afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países.

Antes deste inquérito pioneiro, cuja conclusão indicava que o grande mal dos operários da fábrica que servira de modelo para o trabalho não era doença, mas a fome, Josué já produzira expressivos trabalhos como Problemas da alimentação no Brasil, Alimentação e Raça, A Alimentação à Luz da Geografia Humana e a Geografia da Fome, que recebeu, em 1946, o Prêmio José Veríssimo da Academia Brasileira de Letras.

Mesmo em pleno pós-guerra – imaginemos o Brasil com suas bibliotecas desatualizadas, sem computador, sem internet, portanto, não dispondo de todo o instrumental de que dispõem hoje os estudiosos – Josué não se omitiu: a realidade da fome era tão forte e o mal que causava era de tamanha magnitude que ele não podia deixar de se empenhar para enfrentar os preconceitos que encobriam tal calamidade. A partir daí, procurou com os meios de que dispunha estudar este, ainda hoje, fenômeno universal.

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Ao escrever a Geografia da Fome, afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países. Incompreendida à época, esta afirmação foi ganhando força ao longo do tempo e tem sido objeto de importantes abordagens por pensadores brasileiros e estrangeiros.

 

The poor old man’s hands hold an empty bowl. The concept of hunger or poverty. Selective focus. Poverty in retirement. Alms

Frei Betto, um dos idealizadores do Programa Fome Zero, em entrevista concedida ao jornalista pernambucano Vandek Santiago, autor do livro Josué de Castro o gênio silenciado, afirmou: “as obras de Josué tiveram o mérito de quebrar o tabu em torno do tema da fome. Provaram que ela não é uma consequência do clima do Nordeste e desmistificaram que a fome é castigo de Deus. Ele, Josué, foi o primeiro a mostrar a fome como questão política”.

No mesmo livro, João Pedro Stédile, líder nacional do MST, pontua sobre a obra de Josué : “a fome é parceira e consequência da pobreza e da falta de distribuição de renda. Não é por falta de produção de alimentos; esse tema não é tabu, é um problema de poder político. De dominação de classe”.

Mais adiante, na mesma entrevista, esclarece sobre o autor da Geografia da Fome: “ele foi um dos maiores pensadores brasileiros do século 20. Por sua formação científica ampla, de médico, biólogo e geógrafo, conseguiu nos dar uma leitura correta das causas e das raízes dos problemas brasileiros relacionados com a pobreza e fome”.

O médico pernambucano Jamesson Ferreira Lima, amigo e contemporâneo de Josué, em texto integrante de livro que coordenei sobre os últimos textos de meu pai Fome, um Tema Proibido abordou de maneira esclarecedora o pensamento de Josué, acrescentando novo viés: “a origem de seu trabalho acarretou mudança de perspectiva. Inicialmente, pensava-se que a fome era um problema natural, irremediável, ligado à seleção e competição vitais, um dos caracteres da condição humana.

Foi a cidade do Recife em que nasceu, localizada no Nordeste brasileiro, com um terço da população vivendo miseravelmente, em subemprego e/ou desemprego, atingida pela economia, a monocultura da cana de açúcar – um fenômeno artificial – e de secas periódicas, que lhe propiciou a consciência da fome e do subdesenvolvimento.”

A publicação deste importante livro assinalou o ponto de maior amadurecimento de suas reflexões sobre a fome. Enfrentando o problema sem subterfúgios, não temeu em afirmar “uma das características dos países subdesenvolvidos é que a maioria padece de fome” e procurou demonstrar que o problema é fruto de distorções econômicas. Ou seja, a fome é um fenômeno artificial criado pelo homem, ou mais precisamente por certo tipo de homem.

Manifestava ainda toda sua indignação ao declarar que: “o maior absurdo de nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização deste aumento”.

Enfatizava dramaticamente em sua obra, lembrando escritores que apreciava: “não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos em sua pele, que a fome aniquila a vida do sertanejo, mas também atuando sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social.

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Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela fome, fustigados pela imperiosa necessidade de se alimentar, os instintos primários exaltam-se e o homem como qualquer outro animal esfomeado apresenta uma conduta que pode parecer a mais desconcertante”.

Josué foi um cientista de múltiplos saberes. Médico, na origem de sua formação, como consequência de suas pesquisas logo compreendeu que necessitava estender seus conhecimentos a outros ramos científicos, assim a geografia, a sociologia, o estudo do meio ambiente, foram ganhando espaço em sua biblioteca e em sua mente. Por conta destes estudos é que entendeu, quando escreveu a Geografia da Fome, que o melhor método para analisar este fenômeno presente em nossa sociedade liberal capitalista seria o contido na geografia humana.

“Resolvemos encarar o problema de uma nova perspectiva de um plano mais distante, de uma visão de conjunto, destacando de maneira mais compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores. O uso do método geográfico, único método que, a nosso ver, permite estudar o problema na sua realidade total, não o uso do método descritivo da antiga geografia, mas o método interpretativo que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Ritter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blanche, Criffith Taylor e tantos outros.”

E, mais adiante, afirma “neste ensaio de natureza ecológica, tentamos, portanto, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que determinaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos e, de outro lado, procuramos verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico social”.

A decisão de escolher o método geográfico para a estrutura da obra foi, sem dúvida, parte importante para seu êxito ao longo dos anos. Além da originalidade, influenciou novas pesquisas e até ajudou a formar outros importantes cientistas brasileiros, como, por exemplo, o consagrado Milton Santos, geógrafo brasileiro de projeção internacional, autor de expressivas obras científicas que, em longa entrevista concedida a Marina Amaral, entre outros intelectuais, a propósito de sua formação esclarecida, diante de uma indagação: “o que levou o senhor à geografia era mais conhecimento físico ou sociológico?”, respondeu: “Sociológico. Desde menino, a noção de movimento me impressionava, ver as pessoas se movendo. Também um fato muito importante no Ginásio, o livro de texto era a Geografia Humana, de Josué de Castro, era uma espécie de história contada através do uso do planeta pelo homem, aquilo me impressionou”. Mais adiante, na mesma entrevista: “o livro Geografia da Fome também o influenciou?”, indaga o entrevistador. “Muito”, responde Milton.

“Esse, vamos dizer assim, aprendizado da generosidade que aparece em Josué de Castro, e essa vontade de oferecer uma interpretação não conformista, isso cala no espírito do menino, do jovem, essa vontade de buscar outra coisa. Acho que teve sobre mim uma influência extremamente grande.”

Josué de Castro teve a ousadia de sonhar com um mundo onde não houvesse fome de alimentos, de conhecimento, de liberdade, onde não se ocultasse a verdade e onde todos os problemas pudessem ser discutidos. Pagou um alto tributo pela ousadia.

Em 1964, aos 56 anos Josué de Castro, embaixador do Brasil junto aos Órgãos Das Nações Unidas, em Genebra, teve seus direitos políticos cassados. Interrompia-se, pelo arbítrio, a profícua atividade intelectual do humilde médico brasileiro que aos 21 anos iniciara sua carreira no Recife e chegara a ser representante de seu país.

Lamentavelmente, a fome continua a ser um problema mundial e também no Brasil. Entre nós, a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, de poder e da propriedade que provoca um imenso abismo entre ricos e pobres.

É certo que, ao longo do tempo, nos anos compreendidos entre 2003 e 2015, o Brasil soube construir sólidas políticas de inclusão social que foram responsáveis por nossa saída do mapa da fome mundial. Entretanto, a não continuidade destas medidas e até o abandono de muitas delas nos fizeram retornar à infamante situação de integrante do rol de países que têm parte importante de sua população passando fome.

Não hesito em afirmar: Josué de Castro deve continuar a ser lido e suas propostas estudadas.


Anna Maria de Castro é professora titular da UFRJ (aposentada) e livre-docente em sociologia aplicada. Algumas de suas obras: Introdução ao pensamento sociológico; Nutrição e desenvolvimento – análise de uma política e Fome, um tema proibido. É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).


Leonardo Boff é teólogo e filósofo. Matéria publicada originalmente no site www.leonardoboff.com.br.

 


 

A DOR DA FOME

No Brasil de 2021, 116,8 milhões de pessoas sofrem com algum grau de insegurança alimentar; 43,3 milhões não têm acesso suficiente a alimentos; e 19,1 milhões, literalmente, passam fome, conforme levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, no ano de 2020.

O aumento da fome no Brasil foi impactado pela pandemia, como em outros países, mas não é só efeito da Covid-19. A insegurança alimentar brasileira já vinha se agravando desde o golpe de 2016, bem antes do coronavírus.

O alastramento da miséria no Brasil é consequência do desmonte ou do fim dos programas sociais de inclusão social e da defasagem na cobertura e nos valores do programa Bolsa Família. Essa ação deliberada de descaso e omissão viola o direito social à alimentação, garantido pela Constituição de 1988.

Os dois governos pós-golpe de 2016 fizeram o dever de casa para trazer a fome de volta: desidrataram o Programa de Aquisição de Alimentos; extinguiram o Programa de Cisternas; acabaram com os estoques estratégicos de grãos; paralisaram a Reforma Agrária; descontinuaram os programas de redistribuição e garantia de renda básica, conforme pesquisa de Maurício Falavigna.

DESIGUALDADE

A dificuldade para colocar comida na mesa é maior entre as famílias chefiadas por mulheres e por pesssoas pretas ou pardas.

Existe fome em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres, e outros 15,9% enfrentam insegurança alimentar. Pessoas pretas ou pardas  passam fome em 10,7% dos domicílios. Nos dois cenários, a fome se agudiza entre as pessoas desalentadas, desempregadas ou com renda per capita abaixo de um salário mínimo.

O desemprego ficou em 14,1% no segundo trimestre de 2021, atingindo 14,4 milhões de pessoas. O subemprego chegou a 22%, e o trabalho informal a 49,30%, totalizando 86% da força de trabalho.

Essa massa de gente desempregada abriga 41% da nossa população abaixo da linha de pobreza, sem acesso regular à alimentação básica.  Dos 41%, apenas 12,6% são  identificadas pelo IBGE como pessoas brancas. As outras 28,4% são pessoas pretas ou pardas. 

Os dados da desigualdade, coletados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, não deixam dúvidas: é no estômago do povo preto que a fome bate mais forte.

FOME ZERO

O Programa Fome Zero, criado em 2003, no primeiro ano do mandato do presidente Lula,  é considerado até hoje pela ONU um dos programas de combate à fome mais bem-sucedidos no mundo todo.

Combinado com as políticas de valorização do salário mínimo e de distribuição de renda, como o Bolsa Família, o Fome Zero fincou as raízes da política de Estado que retirou o Brasil do Mapa da Fome em 2014.

Conforme dados do Instituto de  Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Bolsa Família, também implantado por Lula, em uma década e meia reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%. 

Segundo o Ipea, o programa conseguiu controlar os casos mais graves de insegurança alimentar e, pela primeira vez na  história do Brasil, a fome deixou de ser uma tragédia nacional.


Os textos em itálicoforam organizados por Zezé Weiss para o podcast “Seguir Esperneando”, da Lucélia Santos, em parceria com a Revista Xapuri,www.xapuri.info/podcasts.  veiculado em 05/10/2021. 

 

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