É hora de fazer a Resistência Política: Que não desanimemos!

Por Marysol Schuler –

Parece utopia falarmos de construir cidadania e buscar mesmo as coisas mais básicas como Segurança Alimentar, no contexto político atual. No entanto, é isso que tenho precisado fazer sempre, na minha prática profissional mais diária.

Por isso mesmo entendo que a resistência política que precisamos mostrar, neste momento, tem que ir além do voto e das marchas. Sei que essas demonstrações da nossa vontade política têm o seu devido papel, e no entanto elas sozinhas não bastam nem nunca bastaram.

Precisamos também construir saídas para o diálogo com os que são deixados à margem, para sua inclusão e para a reflexão de suas próprias condições existenciais. Precisamos de mais exemplos como o de Betinho, de D. Evaristo Arns e de Dona Zilda Arns com seu impressionante exército de voluntárias capazes de reduzir a mortalidade infantil no país inteiro. Exemplos como o da Dra. Nise da Silveira, médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico ao olhar de perto seus pacientes e aprender a dialogar com eles através de amor e arte.

Ou Ana Primavesi, agrônoma pioneira da Agroecologia, que não se intimidou na luta por uma agricultura que respeita a vida, apesar das críticas de um mundo dominado por negócios agrícolas que envenenam a terra, a água, plantas e animais, e nossos próprios corpos. Para todas essas pessoas, isso que por vezes denominamos de “ativismo político” não era uma ação esporádica e catártica, sequer algo do qual pudessem “desistir”, mas a própria matéria de seus dias, o trabalho cotidiano que faziam, as relações que criavam com quem estava  ao redor.

O que estou querendo dizer, então, é que precisamos nos lembrar disso e manter nossa motivação mais consistente para nos doar pela cidadania.

Não foi só chorando a prisão de Mandela que o povo sul-africano venceu o apartheid. Igualmente os negros americanos, alijados de seus direitos civis constitucionalmente garantidos, no final dos anos 60, tampouco foram paralisados em sua luta pacífica ao saberem do assassinato de Luther King. Precisamos nos lembrar que, após sua morte, sua esposa Coretta Scott King seguiu em frente e assumiu a liderança do movimento pela igualdade racial no EUA. E não menciono aqui essa transmutação de luto em luta à tôa.

Neste momento, a condenação sem provas do ex-presidente nos entristece tanto quanto os famintos que vemos multiplicarem-se nas ruas, justamente porque esse homem agora condenado representa a luta histórica e imensa para acabar com a fome no país. Portanto, é também agora a hora fundamental e inadiável de lutarmos para construir algo diferente em meio a tanta tristeza.  Não podemos depender da elegibilidade de Lula. Ele, neste momento, é quem precisa de nossa força e esperança, assim como Dilma precisou ao passar pelo impeachment – e ainda precisa.

Além do mais, todos esses que estão à margem dessa sociedade precisam que não desanimemos, precisam da nossa ação.

Tenho clamado por justiça e paz ao Nosso Pai Celestial, que ouve “o pobre, o órfão, a viúva e o estrangeiro peregrino”, e vem sim ao seu socorro (esses eram os grupos mais excluídos da era antiga).

É papel nosso, então, que temos a dádiva do trabalho, unirmo-nos ao clamor dos que choram, estender nossas mãos para o desamparado e lutar por justiça. Isto é fazer a vontade daquele que fez tudo por amor. Que Jesus nos abençoe e tenha misericórdia de nós.

ANOTE AÍ:

 

 

Marysol Schuler é engenheira florestal e pesquisadora. Estuda há 22 anos a natureza e suas relações com a agricultura.

Esta matéria foi originalmente publicada em 13 de julho de 2017 no seguinte endereço: 2 COMENTÁRIOS.

A reprodução do texto aqui no site da Xapuri foi feita com a autorização da autora, a quem agradecemos. A foto da autora foi fornecida por ela mesma. A foto de capa encontra-se creditada na internet como pertencente ao acervo da Revista Fórum.

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