Juventude negra: Sobrevivência, educação e futuro – O Brasil está diante de uma realidade de matança generalizada da sua população jovem, notadamente os jovens negros, que são as principais vítimas da violência letal.

Por Iêda Leal 

Em 2012, segundo a prévia do Mapa da Violência publicado em 2014, as mortes juvenis (de indivíduos de 15 a 29 anos) provocadas por causas externas representaram 71,1% do total de mortes, enquanto para a população não jovem esse índice foi de 8,8%; os homicídios juvenis tiveram participação de 38,7% na mortalidade total, sendo 93,3%, jovens do sexo masculino; entre os não jovens, 2,4% das mortes por causas externas foram decorrentes de homicídios.

Esse quadro é ainda mais aterrador para a juventude negra: no período de 2002 a 2011, a participação de jovens negros no total de homicídios no país se eleva de 63% para 76,9%, enquanto que a participação de jovens brancos decresce de 36,7% para 22,8%. Os números mostram ainda que a vitimização dos jovens negros, no mesmo período, subiu de 79,9 para 168,6; isso quer dizer que para cada jovem branco assassinado, há 2,7 jovens negros vítimas de homicídio. Esse cenário é tão alarmante que ativistas e especialistas têm denominado o fenômeno de genocídio da juventude negra.

O genocídio é muitas vezes iniciado devido a sentimentos de xenofobia e consiste na intenção de eliminar totalmente, ou em parte, um grupo ou comunidade com a mesma característica étnica, racial, religiosa ou social. Também podem ser consideradas como genocídio práticas como o ataque à integridade física ou psíquica; a imposição a viver em condições desumanas que podem levar à morte; a transferência, por coação, de crianças de um determinado grupo étnico para outro.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI/2015) que investigou casos de violência contra jovens negros e pobres no Brasil concluiu que essa parcela da população vem sendo vítima de uma espécie de “genocídio simbólico”.

Estatísticas e fatos apurados pela CPI ao longo de quatro meses colocam o homicídio como a principal causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos e definem o perfil predominante das vítimas: negros do sexo masculino, com baixa escolaridade e moradores das periferias.

A grande desigualdade é confirmada pela chance 3,7 vezes maior de um adolescente negro ser vítima de homicídio, se comparado a um adolescente branco. A ausência ou insuficiência de serviços públicos básicos, tais como educação e lazer, nos lugares onde a maior parte da população é negra são apontadas como fatores principais. Por isto indicamos aqui a educação pública como corresponsável por esse fenômeno, ao não ter sido capaz ainda de atrair e manter esses jovens no ambiente escolar.

A vulnerabilidade em que se encontram pode ser explicada, em boa parte, pela falta de identificação desses jovens com a escola. O currículo escolar e as práticas pedagógicas desenvolvidos em geral não cumprem essa finalidade, pois permanecem longe de reconhecer e valorizar a sua história, cultura e tradições como requer aplicação da Lei nº 10.639/2003, modificada pela 11645/2009.

Apesar de reconhecermos, pelo menos no nível do discurso, que a diversidade nos enriquece, sabemos que nas relações de poder, dentro e fora da escola, as diferenças socialmente construídas entre brancos e negros foram naturalizadas e transformadas em justificativas para as desigualdades entre esses dois segmentos.

A educação tem um papel fundamental na busca de equidade e mais oportunidades para todos e todas, mas a juventude negra continua preferindo o fundo da sala de aula. A abordagem dos conteúdos formulados para o Ensino Médio e a Educação de Jovens e Adultos ainda não dialoga com essa face da realidade social brasileira. Os/as educadores/as ainda não reconhecem na trajetória dos sujeitos presentes na comunidade escolar os saberes, a memória e os sinais do enfrentamento cotidiano das desigualdades socioeconômicas e raciais.

Na relação construída entre educadores e educandos, o estímulo à afirmação das identidades racial e cultural dessa juventude deve ser considerado como elemento essencial para a produção de conhecimentos potencialmente transformadores das relações de poder que se desenrolam na escola.

Esse é o ponto de partida para o exercício de uma prática pedagógica comprometida com a superação da educação pautada única e exclusivamente pela nossa matriz etnicorracial e cultural europeia. Tendo em vista esse comprometimento, é necessário propor e executar ações efetivas de enfrentamento dessa realidade, a começar pelo acolhimento dessa juventude no ambiente escolar.


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