Nós, mulheres negras, podemos falar?

AUTOESTIMA

A beleza que nos conduz para a luta

é a mesma que nos mantém no dia a dia

como feras de presas saudáveis a agarrar o que nos é de direito,

tomemos o lugar que é nosso, que nos tomaram sem licença.

A minha licença, agora, será apenas por uma questão de educação ancestral.

Mas olharei na tua cara, através dos teus olhos, e direi:

não mais conduzirás meus anseios, meu amor, minha sorte.

Sou dona dos meus belos cachos, da minha pele cor de noite e do meu nariz.

Esse nariz que não passa moldes para o qual inventaram padrão.

Vá se chatear você, quando me vir passar com um belo sorriso largo, nos meus lábios largos.

Senhor opressor, preconceituoso da minha vida

vá você se inferiorizar

vá você se deprimir

por que eu vou andar nas ruas  como se fossem passarelas a receber esta rainha negra.

Jocelia Fonseca –  Cadernos Negros. Volume 39 – Poemas Afro-Brasileiros.

Bia Kalunga por Iasmin Reis

Poderia ficar aqui, desenvolvendo um longo texto, desses pra dizer da importância feminina no mundo do trabalho, nas cidades e no campo. Registrar a importância da nossa participação no Parlamento, na Saúde, na Educação. Enfim… sem nós, mulheres, não haveria outros ou outras; sem nós não haveria coração pra compreender as subjetividades da vida, não haveria o dom de amparar as situações mais delicadas…  E não poderiam os homens terem ido tão rápido para o mundo.  Pois quem ficaria como guardiãs das casas, das famílias, da organização de dentro sem irmos para fora?

Falaria ou escreveria aqui durante horas sobre os diversos feitos das mulheres em casa, da doçura de criar e recriar os filhos dos filhos, da esperteza de se dedicar a uma vida cheia de tarefas domésticas “bem domesticadas”, e assim arrancar agradecimentos em discursos de posse ou em dedicatórias de livros. Poderia ficar aqui elogiando essas mulheres que fazem muitos turnos e ainda se sentem parte da humanidade quando alguém lembra delas no 8 de março, no dia das mães, ou que às vezes são esquecidas ali no cantinho, por conta de alguma data mais importante.

Sim! Eu poderia ficar aqui falando e escrevendo sobre mulheres que são homenageadas porque sabiamente se fizeram invisíveis para dar vez aos donos das casas (filhos, maridos, namorados, noivos, pais, pastores, amantes, padres, patrões, prefeitos, governadores).

Poderia escrever páginas e páginas sobre nós, mulheres negras… Da nossa importância, das nossas histórias, dos nossos sofrimentos. Somos guerreiras, sim! Conseguimos dar as mãos aos homens negros para que pudessem sobreviver nessa sociedade racista, que em determinado momento da construção de nossa história aqui, nessas terras, os arrancaram dos nossos seios, dos nossos braços e os reduziram em meros reprodutores e trabalhadores sem nenhum reconhecimento intelectual; atirados a uma servidão opaca ao mundo branco, esquecendo-se de nós, do seu pertencimento civilizatório.

Mas achei melhor não perder meu tempo falando dessas situações que causam uma tristeza sem fim. Não vou escrever sobre essas coisas, não!!!

Irei me concentrar em reafirmar quem faz a luta diária para sobreviver nesse mundo machista/racista/homofóbico/branco/cristão, que insiste em nos empurrar para um lugar no qual nós não queremos ficar e não nos pertence.

Não somos mulheres sonhadoras, não somos mulheres apenas sensíveis, não! Não somos mulheres boazinhas, não somos mulheres somente meigas, só apaixonadas pelo que fazemos, nós não somos mulheres de vida fácil, não! Nós não somos só mulheres compreensivas e bem-comportadas, nós não somos sexo frágil, não… nós não somos bobinhas.

Somos MU LHE RES. Absolutamente mulheres que sobrevivemos há séculos num mundo que quer nos subordinar e não nos garante tranquilidade para sermos o que somos. Então, nós nos transformamos diariamente em Lélias, Luizas, Clementinas, Dandaras, Acotirenes, Hildas, Joanas, Marias, Margaridas, Iracemas, Chicas, Billies, Dolores, Elizetes, Carmens, Antonietas, Abutas, Aídas, Neumas, Laudelinas, Citas, Terezas, Aqualtunes, Efigênias, Auzitas, Adelinas, Anastácias, Saraís.

Mulheres Negras… São Negras Mulheres que foram empoderadas ao longo das suas vidas e ensinaram ao mundo que todo o compromisso tem de estar ligado à nossa ancestralidade. Somos conectadas com a esperança civilizatória, buscando sempre comprometer-se com a nossa negritude como um projeto político que dê sustentação ao nosso Bem-Viver.

Portanto, 8 de março ou qualquer outra data serve para dar maior visibilidade às nossas lutas; são datas de referência para darmos continuidade ao nosso plano de resgate da autodeterminação do povo negro no mundo.

Precisamos transformar todos os nossos dias em dias de luta. E, assim, continuaremos honrando as histórias de cada uma. São exemplos de sobrevivência negra.

Lutaremos, sempre, por um mundo melhor, por uma concepção de vida coletiva que respeite a diversidade humana e garanta as relações com todo o universo de forma harmônica.

Que venham então todas as datas. Estamos preparadas para uma luta que será liderada por nós, todas as mulheres do mundo.

Bia Kalunga e Procópia Rosa por Iasmin Reis

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