O povo negro no Brasil: Um país africanizado

Não faz tanto tempo assim, eu seguia de Salvador a Feira de Santana, na Bahia, quando, no meio do caminho, percebi certa movimentação no rumo de um lugarejo e fui ver o que se passava. Era um folguedo próximo à vila de Maracangalha, que não passava, em verdade, de uma animada roda de samba rural, tradicional na região.

Ao fundo, no descampado, as ruínas de uma usina de açúcar abandonada denunciavam o passado econômico daquela área, que hoje é distrito do município de São Sebastião do Passé. Por ali já foram plantadas outras culturas de mão de obra intensiva – algodão, cacau e fumo, por exemplo –, ao sabor do mercado, como no restante do litoral nordestino, da Bahia ao Maranhão.

A batida muito peculiar dos tambores do lugar demonstrava o quanto é verdadeira a tese de tantos pesquisadores que colocam ali, naquele samba-de-roda baiano, a origem do samba hoje tocado no Brasil inteiro. E que o genial Dorival Caymmi conseguiu transportar ao seu violão, com rigor absoluto, em peças como “Maracangalha”, um clássico da música brasileira.

Em seus dicionários musicais, Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade concordam em que esse ritmo e essa dança vêm de bem mais longe, no tempo e no espaço. Suas raízes estariam no Zamba (ou Zemba) tocado, cantado e dançado em muitas partes da África e de lá trazido pelo imigrante africano que veio aportar por aqui.

O caso serve apenas como um pequeno exemplo da fabulosa importância que esses imigrantes tiveram na formação da cultura brasileira. Hábitos, costumes, onde se inclui também a culinária e a religiosidade, e mesmo a língua portuguesa aqui falada seriam muito outros não fosse a decisiva, fundamental, participação negra na vida nacional, na formação do que chamamos, com muito orgulho, de povo brasileiro.

Em sua majestosa obra “Casa-Grande & Senzala” (1933), o sociólogo Gilberto Freyre demonstra como esse processo se deu, em que a própria arquitetura das casas de fazendas levava ao convívio, em vez de confronto. Ele é acusado, todavia, de pintar a imagem de um “senhor bonzinho” e de um “escravo complacente”, o que não chega a ser verdade, pois ele demonstra também a violência e a desigualdade que havia no processo, sem generalizar.

Na realidade, as duas situações existiram. Tanto que de uma parte ocorreu a convivência, a solidariedade, uma espécie de troca que se reflete na sociedade, que poderíamos chamar de interação. E, de outra, houve a resistência e a revolta, com igual ou mais intensidade, que reflete a autodefesa, com rebeliões e fugas, como veremos mais adiante.

Aliás, são incontáveis os fatores que demonstram que as relações do Brasil com a África, desde o início, sempre foram muito mais profundas do que aquelas mantidas por Portugal com aqueles povos. O Brasil é um país africanizado, Portugal não – as relações luso-africanas eram de dominador-dominado, e pronto.

Já as relações brasileiro-africanas sempre tiveram um sentido de interação, de convivência, pois “a África nos civilizou”, como escreveu José Honório Rodrigues em seu livro “Brasil e África”, obra de dois volumes publicada pela primeira vez em 1961, pela Editora Civilização Brasileira.

Ele defende que “somos uma República Mestiça, étnica e culturalmente; não somos europeus nem ‘latino-americanos’; fomos tupinizados, africanizados, orientalizados e ocidentalizados”. Freyre, em complemento, com certo exagero, dizia que “o Brasil é a mais avançada democracia racial do mundo”.

Ao visitar o Brasil, em 1.996, o ex-presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, grande liderança da África Independente, disse, em conferência que proferiu em Brasília: “Não sei o quanto vocês sabem sobre a África, mas deveriam saber bastante. Geograficamente, vocês estão próximos da África; e me dizem que, depois da Nigéria, o Brasil tem o maior contingente de negros do mundo. Assim, aprecio esta oportunidade de falar sobre o meu continente, que é o continente dos ancestrais de milhões de brasileiros”.

Em verdade, nossas relações com as colônias portuguesas da África eram tão fortes que Portugal temia que o Brasil, ao se tornar independente, as incorporasse como seus territórios ultramarinos. No Tratado do Rio de Janeiro (agosto/1825), em que reconhece a Independência, Lisboa fez questão de deixar essa questão bem clara. Já no seu Artigo III, o documento diz: “Sua Majestade Imperial promete não aceitar proposição de quaisquer Colónias Portuguesas para se reunirem ao Império do Brasil”.

  1. Pedro I aceitou com tranquilidade essa imposição, sob o forte argumento de que não faria sentido um país recentemente liberto da condição de colônia se transformar, ele próprio, em poder colonial. Há, no entanto, registros históricos de que em Angola, Guiné Portuguesa, Moçambique e Goa existiam movimentos em favor da tese de anexação ao Brasil, como forma de se livrarem de Portugal.

Como curiosidade, vale registrar que, 150 anos depois, em 11 de novembro de 1.975, quando o líder guerrilheiro Agostinho Neto proclamou a independência de Angola, o Brasil foi o primeiro país a reconhecê-la.

 

ESCRAVATURA

A presença de pessoas provenientes do continente africano se confunde com a história do Brasil, pois teve início ainda na década de 1.530. Com a diferença que esses homens e mulheres chegavam ao solo tupiniquim em situação de profunda desvantagem em relação ao colonizador vindo da Europa. Vinham pra trabalhar, apanhar e morrer como escravos, na visão do colonizador.

Só se igualava ao indígena nativo que, quando não eliminado logo à primeira vista, também era subjugado, maltratado, segregado e escravizado pelo invasor europeu. No entanto, o Brasil aboliu a escravização dos índios em 1.758, 130 anos antes da proibição completa da escravatura em relação ao negro. A Igreja Católica era contrária à escravização do índio, mas indiferente quanto à do negro.

É sempre bom lembrar que Portugal não inventou a escravidão nem tampouco os grupos de negros africanos trazidos ao Brasil foram os primeiros seres humanos escravizados. Desde seus primórdios, a história da Humanidade é repleta de exemplos de gente de todos os continentes, todas as cores de pele, todas as crenças, que foi submetida a ela, quase sempre após derrotas em guerras.

São bastante citados os casos do Egito Antigo, em que os faraós mantinham um séquito de escravos ao redor de seus palácios. Também na Grécia e Roma de antes da Era Cristã já era usado esse tipo de trabalho em larga escala, de modo que o escravo era um dos componentes da escala social, já nascendo nessa condição.

É fato, de igual modo, que esse regime socioeconômico existia na África Negra desde muitos séculos antes da chegada dos europeus por lá. Nas guerras entre diferentes povos, os derrotados eram apreendidos, escravizados e muitas vezes comercializados dentro e fora de seus domínios. Passavam a ser moeda de troca até mesmo muito ao norte, acima do deserto do Saara, nos países árabes.

É certo que sempre se divulgou no Ocidente muitos mitos inventados e mentiras mal-intencionadas sobre a África. A começar pela generalização, como se fossem povos iguais, ignorando a enorme diversidade cultural e mesmo étnica que existe entre eles.

Há, no entanto, abundante historiografia séria, documentada, que nos dá conta de que o traficante de escravos europeu, não apenas o português, adquiria pessoas já escravizadas nesse mercado existente.

Inicialmente, o processo histórico brasileiro foi etnicamente discriminador, por imposição da minoria dominadora, mas é inegável que ao longo dos séculos isso mudou. Desde o início, também, a média mensal de chegada era de 1.000 escravos e foi subindo até atingir seu auge já no século XIX, após a Independência, quando chegou a alcançar 4.200 por mês.

Essa presença era visível a olho nu. Por exemplo, o cientista alemão Carl Friedrich Von Martius, que percorreu o Brasil no início do século XIX, dizia que não via traços europeus no brasileiro. Ele sentia muito mais a presença do negro e do indígena na sociedade como um todo.

Embora não haja estatísticas acuradas sobre isso, além de portugueses, já havia se instalado em solo tupiniquim um bom número de franceses, holandeses e ingleses. Sem falar nos descendentes de europeus nascidos aqui. Mas era uma quantidade que não chegava a alterar a composição étnica e cultural apontada por Von Martius na coletividade brasileira.

Depois disso, também já no Império, houve um intenso processo cujo objetivo maior era o de “esbranquiçar o Brasil”, embora as justificativas oficiais fossem outras. Uma delas era a de acolher refugiados de guerras e de crises econômicas no velho continente, na maioria provenientes da Alemanha, Itália e países do Leste Europeu, como Polônia e Ucrânia. Hordas deles foram assentados principalmente na Região Sul do país.

 

AMARGO AÇÚCAR

Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil pra sentir o gosto amargo do açúcar. Entraram pela Capitania de Pernambuco, onde se iniciavam as grandes plantações de cana e o colonizador português enfrentava a “falta de braços” pra pegar no pesado das lavouras.

Ocorre que, naquele tempo, apesar de estar na fase dos descobrimentos, o Império Português ainda vivia num sistema semifeudal, quase na Idade Média, com senhores da terra, vassalos, servos e artesões. Os agricultores (servos) viviam em condições degradantes, mas se recusavam a deixar seu país pra encarar um regime igual, servil, no além-mar.

Além do mais, à época Portugal tinha uma população de mais ou menos 2 milhões de habitantes. Boa parte dela se ocupava do comércio e da conquista de novos territórios, principalmente na África e Ásia, atividades consideradas mais importante à grande potência que o país julgava ser.

Contudo, o território lusitano tampouco dispunha de tanta terra e condições climáticas propícias à produção de alguns alimentos e matérias-primas de origem agropecuária, como o algodão e o couro, na quantidade que precisava.

As cidades de Recife e Salvador, na Bahia, passaram a ser, então, as portas de entrada de escravos no Brasil. Todavia, desde logo, boa parte deles era encaminhada a outras regiões do país, em especial ao vale do rio Paraíba do Sul, ou seja, Rio de Janeiro, sul de Minas Gerais e norte de São Paulo. Além, é claro, do restante do Nordeste, com destaque ao Maranhão. Essa situação se manteve durante os séculos XVI e XVII.

Houve, naquele período, problemas de outra ordem. Foi o que ocorreu, por exemplo, no início do século XVII, quando aquela parte do Brasil ficou fora do controle português. A invasão holandesa, que começou por Salvador, em 1.624, atingiu Recife, Olinda e o restante do Pernambuco a partir de 1.630 e durou até 1.654. No fundo, era uma disputa pelo controle do açúcar e do tráfico de escravos.

De qualquer modo, o fator distância pesava muito na escolha desses dois portos, pois estavam mais próximos dos locais de embarque na África. Dependendo do ponto de partida, em condições normais, a viagem durava de 35 a 55 dias, de modo que muitos negros cativos morriam no percurso. Afinal, eles eram jogados nos porões, muitas vezes acorrentados e amontoados, em condições favoráveis a doenças e à fome.

Isso significava prejuízos, já que essas pessoas eram tratadas como outro produto qualquer, num tenebroso comércio. Eram compradas de intermediários de lá e vendidas a comerciantes daqui, por preços que variavam de acordo com sua origem, idade, condições físicas e gênero.

Em geral, as mulheres eram um quarto do total, e valiam menos, mas eram trazidas porque eram muito usadas em serviços domésticos, como os de cozinheira, arrumadeira, engomadeira, ama-de-leite e assim por diante. Eram usadas, também, como objetos sexuais pelos seus donos e geravam crianças chamadas de “filhos sem pai”, que viviam livres nas fazendas.

Aos comerciantes portugueses, interessavam mais as pessoas apanhadas nos territórios dominados por Portugal em ambos os lados do continente africano. Vinham também de Daomé e trechos da Costa da Mina, da Guiné e de outros lugares, mas as referências eram Angola e Moçambique. Um, na costa do Oceano Atlântico, outro na do Índico. Um de frente, outro de costas pra América do Sul, digamos assim.

Grande parte dos escravos vindos eram de uma vasta região do vale do rio Congo, o maior rio africano em volume de água, já que o Nilo é o maior em extensão. De muitas formas, apesar de bem menor, o Congo se parece com o rio Amazonas, até por percorrer amplas planícies cobertas de densa floresta tropical, embora forme grandes lagos, o que não ocorre no caso brasileiro.

Muitos recebiam a designação de “escravo de Mina”, mas não era por causa de sua etnia ou porque trabalhassem em mineração. Era por serem embarcados no porto de São Jorge de Mina, como os portugueses denominavam Elmira, que hoje estaria na República de Gana, próximo de onde é Accra, sua capital.

Esses pontos de embarque eram todos na parte ocidental da África, o caminho mais curto. Mas, isso mudou a partir de 1.815, já na fase final da escravidão negra. Foi quando a Inglaterra adotou a proibição do tráfico de escravos e passou a fiscalizar o transporte marítimo nas rotas mais usadas. A opção dos traficantes passou a ser a costa oriental, de modo que Moçambique passou a ser o principal local de partida.

 

OURO E GUERRAS

Se o papel do escravo africano nas lavouras de cana-de-açúcar, café e outros produtos agropecuários brasileiros foi sem igual, pois sem ele esse processo nem teria ocorrido, o mesmo se pode dizer da mineração, em especial a de ouro. Só nos dois grandes ciclos desse metal, o mineiro e o goiano, foram duzentos anos de intensa atividade, que atulhou de dinheiro os cofres da corte portuguesa.

O indígena escapou dessa tarefa graças, em grande parte, à sua ignorância no assunto. A ele, valia muito mais uma bela pluma de pássaro do que uma baita pepita de ouro. Ao africano não, pois o precioso metal era valorizado entre as gentes de lá, fazia parte de sua cultura milenar como adorno do corpo inclusive, mas tinha também grande valor econômico e era usado nas trocas locais e com outros povos.

O negro sentia o brilho de longe, sabia diferenciar os veios, ver onde poderia haver maior quantidade e valeria a pena remexer a terra. Na bateia, então, algumas rodadas lhe bastavam pra separar o pedregulho das pepitas. Por isso, foi submetido a prolongadas e penosas jornadas, sob Sol, chuva e olhares vigilantes dos donos de garimpos.

Os anos 1.700 formaram o “século do ouro”. Foram esgotados os veios de Minas Gerais, onde se formaram as duas dezenas de cidades históricas hoje conhecidas mundialmente. E na década de 1720 teve início a ocupação do Planalto Central e de todo o Centro-Oeste, estendendo as fronteiras do Brasil no sentido oeste, bem além do que estabelecia o Tratado de Tordesilhas, de 1494, que dividia o mundo entre Portugal e Espanha.

Em 1865, com o fim da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, o presidente Abraham Lincoln decretava a extinção da escravidão naquele país. O Brasil, no entanto, entrava na Guerra do Paraguai, em que perto de 150 mil soldados se envolveram, a maioria dos quais negros escravos. Dentre os cerca de 50 mil brasileiros que morreram naquele conflito, eles também eram a esmagadora maioria.

 

ABOLIÇÃO

A abolição da escravatura sempre foi uma tese defendida por brasileiros que viam nela o caminho pra se reparar um erro histórico de Portugal. Mas foi somente no Século XVIII que a tese ganhou volume e foi finalmente vitoriosa, num processo gradual que culminou em 1.888, quando todos os escravos foram postos em liberdade.

Ao anunciar o rompimento com Portugal, em 1822, D. Pedro I se deparou com um dilema terrível. Em seu livro “A Abolição do Tráfico de Escravos no Brasil” (1.976), o pesquisador inglês Leslie Bethell conta em detalhes que, por um lado, o imperador obteria amplo apoio internacional à Independência se suspendesse o tráfico, seguindo a decisão que a Inglaterra já havia tomado.

Por outro lado, porém, ele se deparava com as pressões das elites conservadoras daqui, da colônia, que preferiam ficar sob o jugo de Portugal a abrir mão de seus escravos. Em sua viagem ao interior de São Paulo, nas semanas que antecederam o 7 de setembro, ele ouviu dos representantes desses senhores que eles apoiariam a independência, mas desde que não fosse abolido nem o tráfico, tanto menos a própria escravidão.

Na volta ao Rio de Janeiro, depois de gritar “Independência ou Morte”, junto ao riacho do Ipiranga, Pedro I já tinha tomado a decisão de não mexer com essa questão naquele momento. Já no ano seguinte, o primeiro-ministro José Bonifácio de Andrada anunciava medidas que iriam extirpar “esse cancro”, como ele chamava a escravidão. E reforçou essa visão em mensagem à Assembleia Constituinte, em 1.824.

O movimento abolicionista cresceu em volume, envolvendo todos os setores da sociedade, com destaque a artistas, intelectuais e lideranças universitárias. Na poesia, por exemplo, tivemos Gonçalves Dias, Álvarez de Azevedo e a exuberante verve do baiano Castro Alves, que muito ajudaram no processo de combate às elites escravistas.

No entanto, várias décadas se passaram sem que nada ocorresse que indicasse verdadeiramente o caminho da abolição, até que fosse aprovada, em 1871, a Lei do Ventre Livre, de autoria do Visconde do Rio Branco. Toda criança filha de escravos que nascesse a partir dali já estaria livre. E seguiram-se outras leis, como a dos Sexagenários, que foram abrandando a situação até o 13 de maio de 1.888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, como regente do reinado de seu pai, D. Pedro II.

A decisão desagradou profundamente os senhores de escravos, os ruralistas de então, que passaram a apoiar o movimento que levou à derrubada do Império e à Proclamação da República, no ano seguinte. Contudo, muito estados já haviam adotado a abolição por medidas locais, como é o caso do Ceará, onde a escravatura já não existia desde 1885.

Entretanto, esses ex-escravos e escravas foram postos em liberdade sem que nenhuma medida preparatória fosse tomada, de modo que foram jogados no mundo, ao deus-dará. E a realidade era bem mais severa. Esse processo acabou com a escravidão, mas não acabou com o racismo, a discriminação, a segregação, a situação de profunda desigualdade econômica e social, enfim.

 

PALMARES E ZUMBI

Podemos dizer que o africano trazido à força ao Brasil nunca aceitou docilmente essa situação. Muitos se rebelavam ainda nos navios, mesmo prevendo que seriam contidos, no mais das vezes pagando com a vida e simplesmente jogados ao mar, aos tubarões. Depois de chegados, quanto maior fosse a opressão, maior seria sua reação.

O sociólogo Clóvis Moura, profundo conhecedor do assunto e um dos pioneiros do moderno movimento negro no Brasil – e crítico de Gilberto Freyre –, escreveu mais de uma dezena de livros sobre esse tema. Em um deles, “Rebeliões da Senzala” (Editora Conquista, Rio de Janeiro, 1972), ele afirma: “Do ponto de vista do próprio escravo essas reações iam desde os suicídios, fugas individuais ou coletivas, até à formação de quilombos, às guerrilhas, às insurreições citadinas e em movimentos organizados por outras classes e camadas sociais”.

Moura e tantos outros estudiosos ressaltam, contudo, que as rebeliões de escravos não eram elaboradas a ponto de visarem à tomada do Estado ou mesmo de pôr fim ao regime escravocrata. Em geral, sua característica era a necessidade individual de se safar da situação escrava, o que não era uma empreitada muito fácil.

Mesmo quando eles fugiam em grupos e erguiam choças em locais supostamente ermos, mas não muito distantes, eram caçados por capitães-do-mato e bugreiros (jagunços) e seus rafeiros (cães amestrados), presos de novo ou executados, caso resistissem. Essa era a regra geral, mesmo quando os fugitivos evitavam ajuntamentos e se espalhavam por amplos territórios.

De qualquer modo, a criação de quilombos foi a forma mais eficaz de se alcançar a liberdade dentro do território nacional. Isto porque foram muitos os casos de fugitivos que conseguiram retornar ao continente africano.

Não há dúvidas de que o maior dos quilombos brasileiros foi o de Palmares, que durou mais de um século e serviu de exemplo, meio mitológico até. Ficava na Serra da Barriga, então Pernambuco, distante de áreas urbanas, a região de mais difícil acesso naquela Província.

Era uma área enorme, metade do que é hoje o Pernambuco, indo até as margens do rio São Francisco, de topografia acidentada e uma mescla de mata fechada com palmeirais (palmares) nativos nos topos dos morrotes. Hoje, boa parte do território estaria em Alagoas, onde está a cidade de União dos Palmares.

Tudo começou com a revolta dos escravos de um engenho de açúcar que, armados apenas com foices, chuços e paus atacaram e dominaram seus amos e feitores, segundo conta o historiador Décio Freitas, em “Palmares – A Guerra dos Escravos” (Editora Movimento, Porto Alegre-RS, 1973). E arremata: “E assim, viram-se senhores do engenho que fora tanto tempo o instrumento da sua opressão. Mas quedaram perplexos: que fazer da liberdade que haviam conquistado?”.

Corria o ano de 1.580 e já havia muitos exemplos de revoltas que foram sufocadas, como seria também a deles. Se ficassem na usina, logo seriam cercados por forças bem armadas. Se fugissem pra perto, logo seriam alcançados. Daí a decisão de andar semanas e semanas até a região dos Palmares. Mas a simples escolha do local denunciava que o território já havia sido percorrido por alguns deles.

Ergueram, então, onze vilas, chamadas de mocambos, que começaram com cerca de três mil pessoas e chegaram a ter 40 mil habitantes. Muitos foragidos de prisões e senzalas da Bahia e de todo o Nordeste foram se incorporando ao empreendimento.

A gestão, de cujos detalhes muito pouco se sabe, era no formato usado por tribos africanas, provavelmente angolanas. Havia um poder central, que prestava assistência, inclusive no papel de judiciário, na mediação de conflitos e aplicação de penas. Por exemplo, homicídios, roubos, adultério e deserção eram punidos com a morte. Encarregados da administração recolhiam soldos dos moradores, que eram pagos em espécie.

O chefe maior era eleito, como na maioria das comunidades africanas, e não tinha poderes absolutos nem linhagem religiosa, num convívio baseado na fraternidade e solidariedade, citando de novo Décio Freitas. Ali, no mocambo Cerca do Macaco, nasceu o menino Zumbi dos Palmares, em 1.655, que ainda criança foi raptado e entregue a um missionário português, que o batizou com o nome de Francisco e o educou.

Com idade de 20 anos, porém, ele voltou aos Palmares, à época sob a liderança de seu tio Ganga Zumba, chefe que negociava um armistício com as autoridades da Província, pois estas haviam aprisionado seus três filhos. Zumbi tomou a dianteira e impediu o acordo, destacando-se como comandante militar, o que o colocou na posição de líder maior do quilombo.

Entretanto, Ganga Zumba prosseguiu as negociações por sua própria conta, foi pessoalmente ao Recife, acompanhado de um séquito de 40 homens, e fechou um acordo com o governador da Província, Aires de Souza e Castro. Assim, ele deixou o quilombo e foi morar em umas terras cedidas pelo mandatário. E consta que lá morreu, uns anos depois, envenenado.

Desde lá atrás, no início de tudo, os quilombolas de Palmares já haviam enfrentado incontáveis batalhas contra portugueses, holandeses e senhores de engenhos. Usavam táticas de guerrilha e quase sempre saíam vitoriosos ou pelo menos ilesos, pois ninguém ousava entrar nos redutos por eles dominados, na tentativa de alcançá-los.

Mas eles enfrentavam sérios problemas, entre os quais o de poucas mulheres, o que os forçava a descer a serra, como se dizia, pra raptar negras em senzalas, plantações ou casas de fazendas. Isto era feito com escaramuças e violência, pois eles aproveitavam pra confiscar armas e alimentos.

O fato é que, agora, a fama de Zumbi se espalhava pelo país inteiro, como homem capaz de muitas proezas, que não aceitava negociar com o poder colonial que os escravizava e que, além do mais, tinha o corpo fechado, ninguém conseguiria matá-lo. Pelo sim, pelo não, as histórias que corriam incomodavam as autoridades e os senhores de escravos.

Foi armada, então, em 1.687, uma grande ofensiva contra Palmares, tarefa entregue ao bandeirante Domingos Jorge Velho, então já conhecido matador de índios da Bahia ao Piauí e senhor de fazendas em todo o Nordeste. Ele tinha um exército de 2.100 homens, dentre os quais 1.300 índios cooptados e uns 800 não-índios, inclusive negros.

Foram 7 anos de ofensivas que, aos poucos, foram solapando o quilombo pelas beiradas, mocambo a mocambo, até o derradeiro ataque ao Macaco, iniciado em março de 1.695. Delatado por um ex-comparsa, Zumbi foi apanhado no dia 20 de novembro, morto e decapitado. Sua cabeça foi levada ao Recife, onde foi exposta no lugar mais público da cidade, e ali ficou até se decompor.

CONSCIÊNCIA NEGRA

A partir dali, ao invés de esmorecer, foram formados milhares de novos quilombos pelo Brasil inteiro, muitos dos quais continuaram a existir após a abolição. Hoje, segundo a Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura, há perto de 1900 comunidades remanescentes no país inteiro.

Os quilombolas atuais são museus vivos, de enorme relevância por guardarem parcela significativa da cultura trazida da África, que inclui, em muitos casos, a propriedade e o uso coletivo de terras. E pra lembrar ao Brasil que brasileiros afrodescendentes são partes da nossa sociedade, mas ainda padecem da falta de igualdade verdadeira.

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