Pior semana da pandemia no Brasil é resultado da reabertura irresponsável

Por Gilberto Calil

Os terríveis números da Semana Epidemiológica 30, encerrada no último sábado, comprovam que o resultado da reabertura precoce, irresponsável e descontrolada em curso no país nas últimas semanas cobram um altíssimo custo. Com 319.389 novos casos, tivemos na última semana 36% mais novos casos que na semana anterior (235.274), de acordo com os dados oficiais que claramente identificam apenas a ponta do iceberg. Este aumento não é resultado de aumento na testagem, ao contrário, mantemos a baixíssima relação de 2.5 testes realizados por resultado positivo (6 milhões de testes para 2,4 milhão de resultados positivos, incluindo na conta os inadequados testes rápidos). Tivemos também o maior número de mortes em uma semana (7.714), ultrapassando pela primeira vez a média diária de 1.100 mortes. É uma situação catastrófica, que é resultado de uma piora simultânea na grande maioria dos estados e regiões do país. A piora mais intensa se dá no Rio de Janeiro, onde o processo de retomada das atividades é intenso e o discurso normalizador que sustenta que “o pior já passou” é muito presente: o número de novos casos aumentou inacreditáveis 279%, de 5.555 na semana 29 para 21.063 na semana 30. Seguramente os “inocentes do Leblon” são culpados, mas são igualmente culpadas as autoridades municipais, estaduais e nacionais. Nacionalmente, os quatro piores dias da pandemia em número de novos casos se deram em sequência, entre 22 e 25 de julho, somando 234.859 novos casos (praticamente o total da semana anterior inteira).No cenário mundial, a evolução recente da pandemia nos traz três más notícias: a) os Estados Unidos seguem com crescimento descontrolado, especialmente nos estados do Sul, e assim como no Brasil não uma política nacional de contenção e as políticas regionalizadas mostram-se insuficientes, mais ainda na medida em que subsistem discursos negacionistas e anticientíficos; b) a abertura das fronteiras dos países europeus e a intensificação do fluxo internacional no contexto das férias de verão produziu elevação significativa do número de novos casos em praticamente todos os países da Europa Ocidental, e particularmente na Espanha (mais acentuado em Barcelona), o que coloca o alerta em relação a possível perda de controle mesmo que os patamares ainda sejam mais baixos. c) o crescimento é especialmente alto nos chamados países em desenvolvimento, que já totalizam 45% dos óbitos totais, percentual que só não é maior porque os EUA permanecem com mais de 10% dos óbitos mundiais (atrás apenas do Brasil). Em especial a Índia vem tendo uma piora acentuada, já ultrapassando o Brasil no registro de novos casos (ainda que com uma relação menos desfavorável de 11.3 testes por positivo. De acordo com o site endcoronavirus, os dez países com maior número de novos casos nos últimos 14 dias são: EUA (928.981), Índia (557.362), Brasil (554.410), África do Sul (169.981), México (90.766), Colômbia (90.350), Rússia (85.037), Argentina (62.360), Peru (49.635), Bangladesh (69.638).O quadro reúne os dados dos 15 países com maior número de mortes registradas de acordo com o wordometers e registra o número de novos casos dos últimos 14 dias, comparando com os 14 dias anteriores, de forma a identificar se a tendência em cada país é de crescimento ou redução da pandemia. Esta comparação envolvendo o número de novos casos em dois períodos de duas semanas visa avaliar se há avanço ou recuo da pandemia, tendo em vista que diversos países. Esta é a edição em que o maior número de países (12) apresenta tendência a crescimento. Os Estados Unidos tem o maior ritmo de crescimento, respondendo por um terço do crescimento do número de casos no período, um resultado claro da reabertura econômica, em especial em estados que tinham sido menos atingidos até então. Cinco entre os seis estados com maior número de novos casos nos últimos dia são do Sul (Florida, Texas, Louisiana, Tennessee e Georgia), o que reafirma a insuficiência das temperaturas elevada e do clima de verão como fator protetivo.

Nos últimos sete dias, o Brasil teve 7.519 mortes  o que representa 19,1% das 39.447 registradas em todo o mundo (o Brasil tem 2.75% da população mundial), mantendo-se na semana uma média de 1.074 mortes diárias, a maior do mundo (os Estados Unidos, em segundo lugar, tiveram, 6.560 mortes na semana). No último sábado, segundo o wordometers, o Brasil registrou ontem mais mortes (887) que todos os 141 países da Europa, África, Oceania, América Central e Caribe (1.222). Além disto, o país completou sua décima semana completa com uma média diária entre 900 e 1.100 mortes.

Este número oficial expressa apenas uma parcela dos óbitos, deixando de considerar outras duas situações. A primeira é que uma parcela dos contaminados morre em casa e mesmo tendo sintomas indicativos de Covid, não são contabilizados. É muito difícil estimar o número de óbitos decorrentes de Covid nesta situação, restando apenas a comparação do número total de óbitos (desconsiderando aqueles por causas externas, como homicídio e acidentes) em relação ao ano anterior (um dado que só é consolidado bastante tempo depois). A segunda situação envolve as mortes por insuficiência respiratória que ocorrem em ambiente hospitalar, com sintomas compatíveis por Covid, mas que não são testados. Neste caso, o óbito é registrado como Síndrome Respiratória Aguda Grave “não identificada”. Segundo o Boletim Epidemiológico 23, em 20 de julho tínhamos já 34.490 mortes por SRAG, além de outras 3.946 mortes em investigação. Somadas ao número oficial de mortes por Covid, já são mais de 121.000 óbitos. Alguns estados seguem registrando mais mortes como SRAG não identificada do que oficializadas para Covid (dados referentes a 20/7): Rio Grande do Sul (1.558 SRAG / 1.308 Covid), Paraná (1959 SRAG / 1.281 Covid), Minas Gerais (2.730 SRAG / 2.057 Covid) e Mato Grosso do Sul (332 / 224).

Além disto, o Ministério da Saúde segue propagando o número de “recuperados” como se fosse um dado positivo, ignorando as diversas pesquisas que indicam que mesmo entre os sobreviventes há diversas sequelas, parte das quais sequer há como avaliar neste momento. Uma pesquisa recente no Reino Unido revela que 60 dias depois da recuperação, 53% dos contaminados ainda sentia fadiga e 43% sentia falta de ar persistente.

A subnotificação segue como problema grave. A declaração do Ministro da Saúde interino (de um Ministério sob intervenção militar) de que a realização de testes não é necessária para o diagnóstico deveria ter produzido reações muito maiores, pelo absurdo que expressa. O resultado preliminar da terceira etapa da pesquisa nacional Epicovid-19BR, divulgado no dia 26 de junho, indica que tínhamos então 5.1 vezes mais contaminados do que indicam os dados oficiais (o que indicava naquela data 2.9% da população). A não renovação do convênio para realização desta pesquisa, por opção do Ministério da Saúde, deixa o país inteiramente às escuras. Mantendo-se a proporção da última pesquisa, estaríamos hoje com 12,3 milhões, ou 5,8% da população do país. Considerando a intenção repetida 32 vezes por Bolsonaro de atingir 70% da população para garantir a alegada “imunidade de rebanho” (segundo levantamento da agência Aos Fatos), este número teria que crescer ainda mais 12 vezes, com o que se chegaria mantendo a mesma relação, a mais de um milhão mortes, sem considerar o acréscimo decorrente do colapso do sistema de saúde nem os óbitos não registrados. Mantendo persistentemente uma média superior a 1.000 mortes diárias, seguimos com elevado ritmo de expansão do número absoluto de mortes (20.7% em 14 dias) e de casos (29.7% em 14 dias). O Brasil já chega a 13,4% das mortes mundiais, com 403 mortes por milhão de habitantes, 4.9 vezes superior à média mundial (83.6).

Em números absolutos, apesar da baixíssima testagem, o Brasil é o segundo país com maior número absoluto de novos casos registrados nos últimos 14 dias, ultrapassado pelos Estados Unidos (que tem um total de testes dez vezes maior). Dos 3.362.970 novos casos registrados no período, 16.5% ocorreram no Brasil (553.725) e 28.4% nos Estados Unidos (954.044). Portanto, dois países que juntos não chegam a 7% da população mundial, tiveram de 44.9% dos novos casos. Seguem Índia, Rússia, México, Chile, Peru e Irã, todos com expressivo número de novos casos. Na comparação com o período anterior, observa-se tendências distintas. Estados Unidos (23%), Índia (65%), México (9%) e  Peru (25%) continuam apresentando crescimento no número de novos casos por período. O. Tiveram redução o Chile (-22%), Rússia (-8%) e o Irã (-2%). O Brasil, aparece com um aumento de 6% no período, mas como indicamos acima, este crescimento foi muito maior na última semana (6%em relação à anterior). Todos os demais países (Canadá e países da Europa Ocidental), que apareciam com menos de 10.000 novos casos no período, aparecem com crescimento, sendo o mais acelerado o da Espanha(+223%, chegando a mais de 17 mil novos casos no período), seguida da Bélgica (+138%), Canadá (45%), Alemanha (34%), França (_25%), Itália (+11%) e Reino Unido (+5%).

A China, que há tempos deixou de constar no quadro dos quinze países com mais mortes, foi ultrapassada também por Holanda, Turquia e Suécia (que tem uma população 140 vezes menor), Colômbia, Equador, Paquistão, África do Sul e Indonésia e hoje é 24º país em número absoluto de mortes e o 156º em mortes por milhão de habitantes. O país não registra morte há mais de 50 dias e continua conseguindo conter os focos recentemente encontrados na região de Pequim, estando com apenas 288 casos ativos.

A maior parte dos países vem elevando expressivamente a testagem e atingindo ou passando a relação de 20 testes realizados por resultado positivo indicada pela OMS como indicadora de um bom controle. Brasil, México e Índia são os três países com menor número de testes. O número de testes por milhão de habitantes que Brasil (23.093), México (7.067) e Índia (11.798) é várias vezes inferior aos demais países com números análogos de mortes e casos. É um patamar de testagem que inviabiliza qualquer controle sobre a pandemia e mostra o quanto é absurdo falar em reabertura da economia. Na relação entre testes realizados e resultados positivos, indicador mais preciso para dimensionar o efetivo controle da pandemia, o Brasil tem índice ainda pior (2) inferior ao do México (2.4) e bem pior que o da Índia (11.3). No caso do Brasil, a situação real é ainda bem pior tendo em vista que grande parte deles são testes rápidos, inteiramente inadequados para diagnóstico e que sequer deveriam ser contabilizados.

O elevado ritmo de crescimento das mortes no Brasil, associado a um ritmo de crescimento do número de casos ainda maior, indica um rápido e intenso agravamento do quadro nacional. Já chegando a 87.052 mortes oficializadas, é inadmissível que o país siga sem uma política nacional de contenção. Ainda que haja uma tendência de estabilização do número de novos casos, isto se dá em patamares altíssimos e sem uma política de contenção é possível permanecer por muito tempo ainda neste patamar. As medidas pontuais e regionalizadas de fechamento temporário quando se aproxima o colapso do sistema de saúde têm se mostrado fragmentadas e insuficientes. Torna-se imprescindível um lockdown nacionalmente unificado, com medidas de garantia de renda emergencial e que dure o tempo necessário para a efetiva contenção. Ainda que pareça custoso, é menos dispendioso do que manter a situação de instabilidade e sucessivas aberturas e fechamentos. Infelizmente, desde o início da pandemia nosso isolamento social vem sendo relaxado e sabotado pelas autoridades federais, com cumplicidade explícita do grande empresariado, produzindo a conjunção trágica entre altas taxas de crescimento das mortes e dos novos casos, em um cenário de baixa testagem e subnotificação generalizada.

Atualmente os Estados Unidos e a América Latina (em especial Brasil, México, Colombia, Peru, Chile, Argentina, Bolívia e Equador) são os principais centros mundiais da pandemia, seguidos pelo Sul da Ásia (Índia, Paquistão, Bangladesh, Filipinas), Ásia Central (Quirguistão, Casaquistão) e Oriente Médio (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Qatar e Emirados Árabes) e parte da África (especialmente África do Sul, Egito e Nigéria)

De outro lado, há um crescente número de países com a situação estabilizada e que se encontram com menos de mil casos ativos, em todos os continentes, como Ásia (Coréia do Sul, Maldivas, Sri Lanka, Síria, Iêmem, China, Geórgia, Chipre, Malásia, Tailândia, Jordânia, Camboja, Mongólia, Vietnã, Myamar e Taiwan), África (Ruanda, Cabo Verde, Guiné, Benin, Angola, Bostswana, Mali, Libéria, Serra Leoa, Tanzânia, Lesotho, Tunísia, Togo, Gâmbia, Mayotte, São Tomé e Príncipe, Uganda, Burkina Faso, Reunião, Eritréia, Seicheles, Burundi, Chad, Djibouti, Niger, Comoros), América do Sul (Suriname, Guiana, Uruguai), América Central e Caribe (Martinica, Bahamas, Jamaica, Turks ans Caicos, Cuba, Sint Maarten, Belize, Antiga e Barbuda, Guadalupe, Granadinas, Aruba e Trinidad e Tobago), Europa (Croácia, Irlanda, Eslováquia, Hungria, Dinamarca, Eslovênia, Lituânia, Noruega, Letônia, Finlândia, Estônia, Andorra, Malta e Ilhas Faroe) e Oceania (Nova Zelândia e Papua Nova Guiné.). São países de distintas situações econômicas e sociais, mas que vêm tendo êxito na contenção da pandemia. Incluem-se entre eles países de expressiva população: 26 entre os 90 países com mais de dez milhões de habitantes tem menos de 1.000 casos ativos, incluindo-se o país mais populoso do mundo.

Alguns países tem situação ainda melhor, com menos de dez casos ativos: Butão, Barbados, Fiji, Mônaco, Gibraltar, Bermuda, Saint Martin, Lieschtenstein, Curaçao, Ilhas do Canal, Saint Pierre, Caribe Holandês, Ilhas Maurício, Polinésia Francesa, Santa Lúcia, St. Kittis e Nevis, Laos (7,3 milhões de habitantes), Monserat, Saara Ocidental e St. Barth.

Em quase todos os continentes (exceto África) existem países ou territórios que já não tem nenhum caso ativo: dentre 213 países e territórios considerados no wordometers, 14 estão nesta situação: Timor Leste (1,3 milhão de habitantes), Macao, Brunei, Nova Caledônia, Granada, Ilha de Man, Dominica, Ilhas Cayman, Groenlândia, San Marino, Ilhas Virgens Britânicas, Anguilla, Malvinas e Vaticano. O Vietnã, com 97 milhões de habitantes e uma política de contenção exemplar, não tem nenhum óbito e registra apenas 55 casos ativos.

É imprescindível e urgente reduzir o ritmo de crescimento do número de novos casos, para em consequência reduzir o número de mortes, pois a manutenção dos índices atuais projeta um cenário que é pior a cada dia e só vai piorar se o processo de reabertura tiver continuidade na situação atual. Se por hipótese considerarmos que este ritmo se mantenha o mesmo (crescimento de 20,7% a cada 14 dias), o número de mortes no Brasil atingiria 105.013 em 9/8, 126.751 em 23/8 e 152.989 em 5/9. Não se trata de uma previsão, mas de projeção do que pode ocorrer caso não sejamos capazes de diminuir o atual ritmo de forma muito mais vigorosa. Para isto, são inadiáveis medidas para ampliação do nível de isolamento individual, associadas à garantia de efetivas condições de sobrevivência ao conjunto dos trabalhadores, em especial aos mais vulneráveis. Um pequeno aumento ou uma pequena diminuição no percentual produz um grande efeito em cascata nos números em dois ou três ciclos, o que reforça a urgência do reforço das medidas de contenção.

NOTAS

1 – Os números são ligeiramente distintos dos do wordometers reunidos no quadro porque o endcoronavirus atualiza os dados a cada 6 horas. https://www.endcoronavirus.org/green-zone-rankings#countries

Marcado como:
NÚMEROS DA PANDEMIA

Gilberto Calil 

Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.
A coluna se debruçará sobre a dinâmica da luta de classes, com ênfase no papel das organizações de direita, no Brasil e no Mundo. Para tanto, o debate no Brasil perpassa também os significados do petismo e o papel da colaboração de classes na construção desta nova dinâmica social, bem como recuperar o que foi 2013 e seus impactos na luta de classes desde então. Para isso, a coluna inicia com uma série especial quinzenal sobre Gramsci e o Fascismo, recuperando o debate sobre as condições políticas e sociais da ascensão do fascismo.Fonte: Esquerda Online   

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