Uma geografia transcontinental da dor

Por Redação

Famílias despedaçadas de todo o mundo recordam a morte de seus entes queridos e lamentam o luto que o vírus lhes roubou. São pais, irmãos, viúvos e órfãos da covid-19

Em um jardim de Washington, uma neta observa como florescem algumas “malditas petúnias”, as últimas que seu avô plantou. Em um quarto em Sevilha, pais têm o olhar perdido na coleção de gibis do filho. Em Jacarta, uma mulher ainda não pôde visitar o túmulo do marido. A quilômetros de distância, em todos os lugares do mundo, viúvas e viúvos, irmãos, órfãos compartilham a mesma dor. Um milhão de famílias juntam a ausência de seus entes queridos ao fato de não terem podido se despedir deles.

O que mais dói em Assane Seck, de 62 anos, é não ter podido enterrar a esposa como Deus manda. Ainda hoje, quatro meses depois, arrasta os pés em sua casa em Dieppeul, no coração da cidade senegalesa de Dacar, com a penosa sensação de ter deixado algo por fazer e sem poder voltar atrás para corrigi-lo. “Negaram-nos o acesso ao corpo dela e agora está lá, no seu túmulo, sem que possamos lavá-la e prepará-la. Somos muçulmanos, é algo muito importante para nós”, afirma, levantando a voz sobre o murmúrio de suas cunhadas que lavam roupa no quintal enquanto as crianças brincam nas poças.

Marie Ba foi sua esposa durante 24 anos. Tiveram três filhos e uma neta. “Foi um casamento arranjado, ela era minha sobrinha. Foi combinado pela família e nós aceitamos. Ela demonstrou ser uma mulher e uma mãe excepcional, compreensiva e religiosa. Quando não estava fazendo trabalhos domésticos, rezava”, diz este estivador aposentado. Nos primeiros dias do Ramadã, Marie, de 53 anos, começou a sentir fortes dores na barriga. “Eu disse a ela para interromper o jejum. Dois dias depois, levei-a ao hospital. Era sábado, 9 de maio”, lembra Seck.

Como não havia leitos disponíveis, ela passou o dia todo sentada em uma cadeira de rodas. O marido ia comprar os analgésicos e o médico os administrava na veia. Nem febre, nem tosse, nem dor muscular, apenas aquele desconforto intenso e constante no estômago. “Comprei um colchão para ela, joguei no chão e nele passou sua última noite. Era uma espécie de sala de espera. Ficamos conversando, vi como ela sofria. Às seis da manhã adormeceu durante uma hora e, pouco depois de acordar, morreu”.

Ainda não tinham passado nem oito horas e o nome e o bairro de Marie já circulavam nas redes sociais. Foi a 19ª morte por coronavírus no Senegal. “Antes que outros nos rejeitassem, decidimos nos confinar e passar a quarentena em casa”, acrescenta o viúvo, ciente do estigma com que são castigado aqueles que sofreram essa doença. Assane Seck aceitou seu destino, mas quando lhe disseram que havia sido covid-19, não acreditou.

“Ela tinha um problema numa perna e não saía na rua, como ia se contagiar?”, comenta. Dos 18 membros da família que convivem, apenas ele testou positivo. Foi internado em um hospital da periferia da cidade sem sintomas. Continua não acreditando muito. Em um país de 16 milhões de habitantes com menos de 15.000 infectados e apenas 300 mortos, muitos duvidam como Seck. “Tenho saudade dela, mas até as crianças aceitaram. Deus quis assim. Agora tentamos não falar muito do assunto”. A neta Siga, de 15 meses, está sentada em seu colo. A vida continua em Dieppeul. Veja reportagem completa em: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-09-28/do-washington-a-jacarta-de-dacar-a-sevilha-uma-geografia-transcontinental-da-dor.html

Fonte: El País

 

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