Faltam água e sabão para povos indígenas combaterem coronavírus

 Por: Vivianny Matos 

O tema da pandemia foi debatido na mesa redonda virtual “Povos Indígenas e o coronavírus: panorama brasileiro e atualidades regionais” promovida pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (Imagem de comunidade do Pólo Base de Feijoal, no Amazonas)

Belém (PA) –  “A carga de doenças que afetam os povos indígenas é significativamente maior do que a carga dos não índios. Temos vários indicadores mostrando isso. O último relatório do Ministério da Saúde mostra que a taxa de internação por doenças respiratórias é cinco vezes maior entre as crianças indígenas do que entre as crianças brancas”, alertou o médico Douglas Rodrigues, da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e gerente do Ambulatório do Índio, do Hospital São Paulo, durante a mesa redonda virtual “Povos Indígenas e o coronavírus: panorama brasileiro e atualidades regionais”. Promovido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), o encontro na plataforma digital reuniu mais de 200 pessoas na tarde da última quinta-feira (23).

Douglas Rodrigues lembrou que a conscientização sobre a importância do acesso à saúde para os povos indígenas só surge a partir do ano 2000, após muita luta dos indígenas para ter acesso a esse direito. O sistema que os atende é uma fragmentação do Sistema Único de Saúde (SUS) e está voltada só à atenção da saúde básica. Segundo o médico, há uma grande fragilidade nessa estrutura, pois faltam até itens básicos, como água e sabão. Além da inexistência de leitos de UTIs em áreas indígenas, muitas aldeias são distantes de unidades de saúde que poderiam prestar esse tipo de socorro.

A mesa redonda virtual do Emílio Goeldi foi coordenada pelo antropólogo Glenn Harvey Shepard Júnior, pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do Museu Goeldi. Entre os convidados estavam, além de Douglas Rodrigues, o  ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), o antropólogo e historiador Márcio Meira, os indígenas Dario Vitório Kopenawa, da Hutukara AssociaçãoYanomami; Joziléia Daniza Jagso, da etnia Kaingang, da Universidade Federal de Santa Catarina; e Fabrício Gatagon, do povo Suruí, biólogo e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do Museu Goeldi, além da pesquisadora e jornalista Tatiane Klein, da Universidade de São Paulo, entre outros.

Para o antropólogo Márcio Meira, o País enfrenta um momento de vulnerabilidade do ponto de vista da política indigenista, marcada pela ameaça à fragilização tanto do SUS quanto dos Distritos Sanitários de Saúde Indígenas (Dseis), que se agrava durante a luta contra a pandemia do coronavírus.

“É indispensável que tanto a Funai quanto a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) atuem de forma articulada. E que essas duas instituições também atuem de forma articulada com as organizações indígenas, com o movimento indígena, com a sociedade civil que já trabalha com os povos indígenas de cada distrito”, afirmou Meira, que desenvolve pesquisas antropológicas sobre os povos indígenas da Amazônia. O pesquisador disse que, atualmente, faltam recursos não apenas financeiros, mas também de pessoal e tecnológico na Funai, alertando sobre os riscos de sucateamento e prejudicando a atuação da instituição para a proteção dos direitos dos indígenas.

Dario Kopenawa, diretor da Hutukara Associação Yanomami, abordou a situação dos povos indígenas em Roraima, com foco no povo Yanomami, incluindo a morte de um jovem de 15 anos – a terceira vítima indígena pelo coronavírus no Brasil. Ele relatou que o seu povo está muito assustado com essa pandemia que ele chamou de “xawara”.

“Isso é muito chocante. É muita tristeza. Hoje, a situação está muito perigosa nos 26 estados brasileiros, onde nossos parentes estão vivendo muito próximos das cidades que já convivem com o vírus”, relatou Kopenawa, que chama de “xawara” a pandemia. “Estamos dialogando sobre essa xawara com as nossas lideranças. Nossos xamãs estão trabalhando também. Os médicos da floresta estão trabalhando, estudando essa xawara”, disse Dario.

Visita mensal da Equipe multidisciplinar de saúde indígena no Alto Rio Solimões
(Foto: Dsei ARS)
Equipe da saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, em Roraima (Foto: Dsei Y)

O diretor da Hutukara afirmou que, embora os indígenas Yanomami estejam isolados, trabalhando nas roças para não passar fome, eles vêm o risco da chegada do coronavírus por causa da presença de garimpeiros. “Hoje, cada vez mais garimpos ilegais estão entrando nas nossas terras e isso é um problema muito sério. Esses garimpeiros não são monitorados por médicos para saber se estão ou não com o vírus. Eles vão levar o coronavírus para as nossas terras. Eles estão a cinco, 15 minutos, perto de nós. E isso é muito grave”, alertou.

Fabrício Gatagon Suruí, biólogo e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do Museu Goeldi, lembrou que os povos da floresta sempre tiveram uma relação harmoniosa com a natureza. “A chegada desse vírus no Brasil vai trazer muitos outros problemas, como a abertura dos interesses em relação às nossas terras. Nosso medo não é só das doenças, mas também das invasões”, explica.

A pesquisadora e jornalista Tatiane Klein, da Universidade de São Paulo, abordou as perspectivas dos povos Kaiowá e Guarani (MS) sobre a pandemia, destacando que existe uma dificuldade quanto ao isolamento, já que muitos desses povos vivem em centros urbanos, em áreas de ocupação. Sem terras suficientes, os indígenas têm dificuldade para o plantio de alimentos, o que poderia garantir a subsistência desses povos. Nesses locais, há desde falta de água até de documentação civil. Sem documentos, os indígenas têm dificuldade de acesso à assistência social, como atendimento pelos CRAS e o recebimento do Bolsa-Família.

“No Jaraguá, na barragem, em São Paulo, já estão registrando casos de covid-19. Ontem (22), tivemos a confirmação de um caso. Isso ainda não aconteceu no Mato Grosso do Sul. Cinco casos que estavam em investigação foram descartados pelo Distrito Sanitário do Mato Grosso do Sul, mas por que as lideranças estão preocupadas? Porque não tem água nessas aldeias para lavar as mãos. Não tem um acesso nem mesmo em reservas indígenas que estão reconhecidas”, denunciou.

A indígena Joziléia Kaingang, da Universidade Federal de Santa Catarina, lembrou que os problemas existentes para os povos indígenas, seja com a Sesai, com a Funai ou as invasões dos territórios, continuam, mas que a pandemia agravou a situação difícil dos indígenas.

“Como é que a gente vai enfrentar o coronavírus, quando neste momento, temos um estado contrário aos povos indígenas? A forma como o Estado está trabalhando é de extrema violência com a nossa população”, questiona.

Ela lembrou que as populações indígenas do Sul estão às margens das rodovias. “Os acampamentos estão muito próximos dos municípios. Este é um fato que favorece a probabilidade do contágio e a propagação do vírus, tendo em consideração que temos, numa mesma casa, muitos idosos e crianças convivendo juntos”.

Joziléia também expôs a fragilidade da segurança alimentar dos povos, afirmando que a economia alternativa, gerada a partir das vendas do artesanato, reforçava no sustento das famílias, o que não foi mais possível, a partir do isolamento social. Segundo ela, a Frente dos Indígenas e Indigenistas, com as lideranças do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, pensaram numa campanha filantrópica, para ajudar aos povos, uma vez que a ajuda solicitada ao governo ainda não foi atendida.

“É necessário que a Sesai forneça os equipamentos de proteção aos profissionais de saúde indígenas, para que eles trabalhem dentro dos seus territórios com segurança, mas como fazer isso se a Secretaria não tem esses material? Se aqui no Sul estamos enfrentando essa dificuldade, imagino como não deva estar a situação no Norte do país”, disse Joziléia Kaingang.

Funcionários da saúde dizem #FiqueNaAldeia #FiqueEmCasa (Foto: Dsei Alto Rio Negro)

O Ministério Público Federal fez recomendações ao governo federal para que os indígenas sejam incluídos nos grupos de risco da Covid-19. Para o médico Douglas Rodrigues, da Unifesp, também são necessárias medidas urgentes, como a fiscalização em relação às invasões das terras indígenas. Ele também destacou a necessidade de articulação para a garantia de atendimentos em unidades de saúde referência, em casos de indígenas diagnosticados com covid-19, uma vez que eles estão ‘no fim das filas de atendimento’.

Outras recomendações dadas por ele são estabelecimento de fluxos de remoção rápida; desprecarização dos postos de saúde indígenas; formação para as equipes técnicas que atendem às comunidades, além também de formação aos próprios indígenas; instalação de estruturas de campanha em lugares remotos e implantação urgente da telemedicina nas aldeias.

Rodrigues também enfatizou a importância do diálogo com as lideranças indígenas para que seja possível aprender quais são as estratégias de enfrentamento às epidemias, já que, historicamente, os povos indígenas sofrem com essa problemática.

Um ponto comum entre as discussões, tanto de representantes indígenas do Norte quanto do Sul do país, é que as orientações de isolamento social foram acatadas pelos povos da floresta, mas as ameaças vindas de fora continuam iguais. “As invasões aos nossos territórios, durantes as pandemias, são fatos recorrentes”, lembrou Fabrício Suruí.

E se na Floresta Amazônica, alguns povos usam como estratégias o isolamento no meio da mata, quando se aproxima algum não índio, nos povos da região Sul do Brasil, essa não é uma opção viável. O que resta, como bem ressaltou Joziléia Kaingang, é o fortalecimento das redes de proteção da vida e dos direitos aos povos indígenas.

Para ter acesso ao conteúdo completo da mesa redonda virtual “Povos Indígenas e o coronavírus: panorama brasileiro e atualidades regionais”, do Museu Paraense Emílio Goeldi, acesse abaixo:

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